Lupas (806)
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Ali Abbasi explora bem a cafonice estética e a falência moral e econômica da Nova York dos anos 70 para ilustrar a história de origem de um personagem ridículo e uma ideologia nefasta. A cereja do bolo são as duas atuações protagonistas de cada uma das duas partes do filme, com Sebastian Stan alcançando o feito de mimetizar Donald Trump perfeitamente sem se limitar à caricatura (Rami Malek como Freddie Mercury, por exemplo) — é uma interpretação de fato, e uma grande interpretação.
Rodrigo Torres | Em 12 de Março de 2025.
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Um filme maravilhoso ofuscado pela grandeza de seus principais concorrentes na temporada (Flow e Robô Selvagem) e por sua natureza: ser continuação de uma obra-prima do gênero.
Rodrigo Torres | Em 12 de Março de 2025.
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Um filme em que Jesse Eisenberg se consolida como diretor, aliando sua visão de mundo tão peculiar e uma abordagem minimalista a uma história universal. Outro exemplo dessa maturidade artística é sua timidez pessoal, marca de sua persona cinematográfica, contagiar o roteiro e servir ao outro, de modo que seu coadjuvante quase vira protagonista e isso contribui significativamente para Kieran Culkin ser o ator mais laureado desta temporada de premiações. Já curioso pelo porvir dessa nova fase.
Rodrigo Torres | Em 12 de Março de 2025.
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Um filme bem feito a serviço de um grande malfeito: ser instrumento de propaganda sionista.
Rodrigo Torres | Em 12 de Março de 2025.
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Um filme sobre preconceito, marginalidade e miséria enquanto o mito do sonho americano contempla o algoz do protagonista só poderia ser assim: seco, implacável, duro… bruto! O filme até derrapa no final, mas demonstra um claro amadurecimento do estilo de Brady Cobert, muito influenciado pela obra de Michael Haneke e PTA e marcado por uma estética rigorosa, atmosfera opressiva, performances intensas e uma direção audaciosa, com pretensão artística evidente.
Rodrigo Torres | Em 12 de Março de 2025.
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Uma análise dedicada passa necessariamente por problematizar a forma como Jacques Audiard usa e abusa dos estereótipos ao contar a história de uma mulher trans e ao retratar o México. Em um ponto alto do filme, essa representação descuidada vira comédia rasgada. Mais que simplista, é escroto um artista europeu fazer piada sobre as desgraças de um país latino-americano.
Rodrigo Torres | Em 12 de Março de 2025.
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Como seria um longo episódio de Black Mirror se menos interessado em discutir moral e tecnologia e mais focado em questões íntimas do ser humano. O filme ganha força quando Ruben vivenciar vida nova, encontra a felicidade nas pequenas experiências cotidianas, se encontra, e usa esse empoderamento justamente para se desencontrar, ao encontrar o tal som de metal. Texto paciente, que confia no seu intimismo, seu conceito, e acerta. Em três palavras: sobrevivência, quietude, reencontro. Belo filme.
Rodrigo Torres | Em 15 de Dezembro de 2020.
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Tipo de filme em que eu amo viajar (mesmo quando "viajar" significa "boiar") porque é um filme que me provoca do início ao fim. Fora o fato de permitir interpretações e evocar outras disciplinas e "linguagens" além do cinema. Ver a clara influência da psicanálise e a articulação do onírico sendo tão bem encenados por Charlie Kaufman, que é um roteirista de mão cheia e de vanguarda, proporciona um radicalismo raro no cinema americano. É chegada sua maturidade como diretor, como cineasta.
Rodrigo Torres | Em 14 de Dezembro de 2020.
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Os Irmãos Coen usam o preto-e-branco do cinema noir para representar as dualidades morais do homem e da sociedade em um tempo de idealização do Sonho Americano - aqui encenado como o que de fato fora, e ainda é: uma perseguição individual, uma manifestação do egoísmo que pode ser problemática em um contexto coletivo, um choque essencial passível de terminar em tragédia.
Rodrigo Torres | Em 14 de Dezembro de 2020.
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Damon Lindelof ousou realizar o delírio reacionário de que o democrata é um monstro destruidor da América de seus sonhos. Desvario pintado com as devidas tintas rubras do partido republicano, regado a sangue e vísceras. Sua anti-heroína é uma fuzileira que assassina violentamente um bobão esquerdista que comete o ato falho de lacrar na hora errada (Trump gozaria vendo se não fosse tão burro). Sátira ótima que escarnece de todos que merecem: do caipira reaça a uma elite liberal pirada.
Rodrigo Torres | Em 29 de Outubro de 2020.
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Se a magia do bom roteiro de um filme documental acontece na ilha de edição, o texto de um mocumentário como Borat segue um processo mais longo e imponderável: começa quando o time de roteiristas planeja as pegadinhas do personagem, segue conforme Sacha Baron Cohen improvisa nessas cenas e continua nas peças ficcionais pensadas como fio condutor dessas set pieces cômicas documentais. É um processo que me fascina pela complexidade e pelo resultado espetacular dessa comédia revolucionária.
Rodrigo Torres | Em 27 de Outubro de 2020.
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Um excesso de roteirização incapaz de encadear bem os melhores momentos do filme — justamente aqueles em que o roteiro nasce do imponderável: quando os americanos e seus preconceitos são confrontados pela figura de Borat como em um espelho negro, vendo nele o que há de pior em si. Somente nesses registros do real, e no clímax com Rudolph Giuliani, essa sequência se aproxima da potência do filme original e do que o alçou ao posto de marco do gênero mocumentário.
Rodrigo Torres | Em 27 de Outubro de 2020.