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Irlandês, O

(Irishman, The, 2019)
8,7
Média
111 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Reminiscências de um gênero

10,0

O filme de máfia ou gângster é um dos gêneros mais propriamente estadunidenses do cinema. São filmes, geralmente, que refletem sobre alguns momentos da história urbana do país – e sobre como uma conjuntura econômica e política pode influenciar nos limites morais dos que habitam as suas cidades. É um gênero que fala de uma violência muito incorporada na desigualdade da grande cidade moderna nos EUA e das masculinidades que essa violência constrói.

O Irlandês (The Irishman, 2019), novo filme de Martin Scorsese, parece estar às voltas de uma despedida para esse gênero. Lógico, não é possível realmente realizar uma conclusão desse tipo (certamente, continuaremos a ver filmes de gângster, vários deles), mas O Irlandês se coloca muito prontamente diante da possibilidade desse fim: a de que os mafiosos, quando têm sorte, envelhecem e de que o mundo que eles criaram para eles mesmos (um mundo em que são poderosos chefões) já não será um mundo a que eles pertencem.

O principal ponto de O Irlandês me parece ser essa autorreflexão sobre o gênero (os seus temas, a sua estética, os seus personagens e os seus valores). Isso já parte do modo como a história nos é apresentada. Frank Sheeran (Robert De Niro), velho, sozinho no que aparenta ser um asilo, narra a trama da sua relação com a máfia da Filadélfia e o sindicato de caminhoneiros, personificados pelas lideranças de Russell Bufalino (Joe Pesci) e Jimmy Hoffa (Al Pacino), respectivamente. Esse gesto de narrar a própria história, que é do personagem, parece repetir a própria lógica autoral do filme, no que Scorsese assume a posição aqui de filmar a própria obra, refletindo sobre trabalhos tão diversos quanto Os Bons Companheiros (Goodfellas, 1990), Cassino (Casino, 1995) e Os Infiltrados (The Departed, 2006).

O filme não copia referências da filmografia do diretor, mas lança um olhar atento para o arquivo desse gênero (que o cinema de Scorsese ajudou a perpetuar), colocando em cena algumas questões latentes desse arquivo que, acredito, nunca foram propriamente pronunciadas em sua obra. A primeira delas, e mais notável, é a questão relativa ao envelhecimento e morte dos personagens, uma dúvida que, posta em cena, rompe com o dilema entre a redenção e a punição que justifica tantos filmes do gênero.

Para além da punição e redenção, os personagens de O Irlandês envelhecem. E, para que possamos ter uma dimensão mais visível do que isso significa, recorre-se a efeitos especiais para rejuvenescer os atores principais, Robert De Niro, Joe Pesci e Al Pacino. O que me parece mais interessante, no entanto, não é a recuperação de uma outra imagem dos atores (uma imagem muito cara a esse arquivo do gênero, como não é por acaso que essa técnica é aplicada especificamente a esses atores, que são parte de um cânone do filme de máfia estadunidense), mas como a juventude desses personagens é encenada por esses atores mais velhos. Isso reitera uma qualidade de reminiscência do filme – uma reminiscência desse personagem que nos conta sua história tanto quanto uma reminiscência do filme de gângster que é articulada por Scorsese.

Evidentemente, Scorsese não articula isso sozinho. Há um exercício de muita precisão e cuidado no modo como essa história é contada, em cada detalhe que é apresentado e em cada composição visual que reaparece durante o filme. A montagem de Thelma Schoonmaker e o roteiro de Steven Zaillian dão conta de tecer, junto com Scorsese, essa intriga de 3 horas e 20 minutos, justificando cada pequeno momento dessa longa duração. É nessa teia fílmica que se dá a atividade de recordação do personagem e do filme, é nela que se constrói esse mundo masculino (em que as mulheres estão não ausentes, mas à distância), que, contemplado como lembrança, revela um custo antes não previsto. Agora sozinho, o mundo tão repleto de personagens de Frank Sheeran foi reduzido ao seu quarto no asilo e se sustenta apenas na continuidade da máquina que conta a sua história – podendo desaparecer meramente na transição de um frame para o próximo.

Comentários (14)

CitizenKadu | domingo, 01 de Dezembro de 2019 - 08:28

Me lembrei de uma cena genial. Não há muito show-off aqui ( mesmo que um show-off do Scorsese é sempre agradável, os malabarismos técnicos,etc..), mas planos-sequências sem significado dentro da narrativa são apenas planos sem corte.Existem episódios de séries televisivas com planos-sequências bem dirigidos, não precisa ser mestre,mas pra botar significado narrativo como em "Touch of Evil" não é qualquer um. No asilo a câmera segue a enfermeira que estava conversando com o doente e velho Sheeran até o corredor, depois a câmera dá meia volta e entra no mesmo quarto de novo(até aí tu tá pensando: "Por quê isso?!"), e quando a câmera entra no quarto a gente vê que o tempo passou, e que este plano-sequência foi para demonstrar que Sheeran desde a conversa com aquela enfermeira não saiu do mesmo lugar e foi vencido pelo tempo e pela incapacidade. Uma consciência de técnica com propósito narrativo de uma sapiência incrível.

Carlos Eduardo | domingo, 01 de Dezembro de 2019 - 10:38

Scorsese é mestre neste tipo de plano. Muita gente quando aprende o que é planos sequência fica deslumbrado com cada filme que usa o recurso, mas muitas vezes é usado apenas como uma demonstração de técnica sem realmente influir na narrativa. No próprio Oscar o prêmio de melhor diretor em anos recentes vem parecendo o prêmio de melhor plano-sequência: Gravidade, O Regresso, Roma, A Forma da Água, Birdman... Até concordo com os prêmios pro Cuarón, mas em Birdman tem certos momentos que achei o uso dos planos sem corte bem over e sem propósito.

Ted Rafael Araujo Nogueira | quarta-feira, 04 de Dezembro de 2019 - 00:35

O Scorsese consegue impor bem os significados que enseja nos planos-sequências. Haja vista a genialidade dele em um plano no Gangues de Nova York que ele faz um tour com câmera mostrando desde a chegada dos irlandeses ao porto passando pela convocação à guerra, e se findando na chegada dos caixões vindos do conflito. Foda. Sempre lembro desse.

Ted Rafael Araujo Nogueira | quarta-feira, 04 de Dezembro de 2019 - 00:38

Quanto aos planos do Birdman aquilo acaba por funcionar como a lógica corrida do teatro, onde sempre se corre pelos bastidores, e é este o significado daquela câmera. Sempre em movimento, ativa, tal qual um teatro pulsante.

Carlos Eduardo | quarta-feira, 04 de Dezembro de 2019 - 08:24

Eu gosto muito de Birdman mas ainda acho que o filme INTEIRO em plano-sequência, principalmente o terceiro ato, não se justifica. Tivesse tio Alejandro pesado um pouco menos a mão neste sentido, acredito que Birdman poderia (com o perdão do trocadilho) alçar voos mais altos. Mas ratifico que gosto muito do filme, apenas citei-o como contraste a O Irlandês, que tem na minha opinião usa a técnica de modo mais preciso. Até mesmo o trabalho de tio Alejandro em The Revenant acho bem melhor que em Birdman.

Carlos Eduardo | quarta-feira, 04 de Dezembro de 2019 - 08:25

E é muito bom ver alguém dando o devido valor a Gangues, que antes de The Irishman era o melhor trabalho de Scorsese desde Goodfellas. Épico visceral.

CitizenKadu | sábado, 07 de Dezembro de 2019 - 09:37

É muito difícil quando tu vê um personagem tentando fazer o certo e de repente ele percebe que está no meio de uma galera anti-ética que em vez de defender os oprimidos defendem o opressor.Parece muito com algo recente que aconteceu.

CitizenKadu | sábado, 07 de Dezembro de 2019 - 09:47

O Irlândes é como um post denunciatório; se ele fica 3 horas à mostra, de forma confirmada, ele causa impacto e estrago o suficiente para mostrar "quem é quem" dentro da trama. Depois o filme pode acabar, mas o estrago permanece. Pelo menos Sheeran conseguiu uma espécie de redenção por defender os wiseguys contra seu verdadeiro amigo, aquele que merecia ser protegido. Tu não vê muito esse companheirismo, as pessoas fecham os ouvidos e defendem os wiseguys, isso é a vida do crime. Homofobia por exemplo, é crime; e quem "passa pano" para homofóbico não tem nem ética e moral(só pra dar um exemplo muito comum no dia-a-dia que acontece tanto dos lados dos declarados criminosos, quanto do lado dos criminosos que não são declarados).E Sheeran matou o cara, mas defendia o cara pelas costas, não falava mal dele; matadores as vezes possuem mais ética do que muita gente.

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