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7+ | Outros quadrinhos que mereciam adaptações adultas

Em 2017, Hugh Jackman e James Mangold quebraram com a linha convencional que a Fox dava aos X-Men e lançaram Logan, um filme onde o personagem Wolverine lutava contra a amargura da idade e o caos intolerante da sociedade, tornando-se o primeiro filme de super-herói indicado ao Oscar de Melhor Roteiro.

Em 2019, Joaquin Phoenix e Todd Philips lançaram Coringa, uma origem sombria do nêmesis do Batman em que é apresentado como Arthur Fleck, um homem com problemas mentais que lentamente se convence a responder à brutalidade que sofre diariamente assumindo uma persona vilanesca. O filme ganhou o tradicional Festival de Veneza e é cotado para o Oscar de 2020, inscrito em todas categorias pela Warner.

E isso que não mencionamos séries da Netflix como Demolidor, Jessica Jones e Justiceiro, que reimaginaram os "heróis urbanos" em versões sérias tratando temas como corrupção, abuso e estresse pós-traumático. Já a série da Amazon The Boys é todo sobre a (falta de) responsabilidade de superseres. Legion é uma série "cabeça" que levou o universo X-Men às raias da experimentação de vanguarda. E vem aí uma série de Sandman. Definitivamente o cenário está mudando e uma reimaginação adulta dos quadrinhos é algo ousado mas que já vimos que podem dar bons resultados. Sendo assim, que outros arcos dos quadrinhos poderiam ir para o cinema?


Crepúsculo Esmeralda (1994)

Como é nos quadrinhos: O heróico Lanterna Verde terráqueo Hal Jordan enfrenta uma grande tragédia quando o Superciborgue destrói sua cidade natal, Coast City. Tendo seu pedido de ressuscitar as pessoas mortas negado pelos seus superiores, os Guardiões do Planeta Oa, Jordan enlouquece, matando quase toda a Tropa dos Lanternas Verdes, no evento que ficou conhecido como Zero Hora. Após matar seu maior inimigo Sinestro, Jordan absorve a energia da Bateria Central do Planeta Oa e liberta Parallax, a encarnação do medo, que passa a habitar no corpo de Jordan.  

Como poderia ser no cinema: Uma tragédia tão grande capaz de corromper a figura mais heróica da terra? Pegar um exemplo moral e derrubá-lo de seu posto é um tema às raias do Shakespereano. Uma rendição a uma trama à lá Otelo talvez pudesse interessar, onde um personagem heroico é corrompido por um vilão ciumento a ponto de cometer atos extremos. Talvez Parallax não precisasse ser, necessariamente, uma entidade externa, mas sim uma persona corrompida - como o Heisenberg de Breaking Bad. Dessa forma, poderíamos ter heróis voando e projeções luminosas, mas de maneira humanizada.

Com quem? Jon Hamm já mostrou que pode ser um personagem charmoso e carismático mas também com um lado sombrio quando fez Don Draper na série Mad Men. Na direção, Steven S. DeKnight já mostrou ser capaz de erguer um tipo heróico mas no limite da ambiguidade moral na primeira temporada de Demolidor, mas talvez o estilo extremamente plástico de Kenneth Branagh possa vir a calhar. 


X-Men: Operação Tolerância Zero (1997)

Como é nos quadrinhos: Após a Saga Massacre Marvel, onde a maioria dos heróis da Terra morreram para impedir um vilão nascido do lado sombrio de Xavier e Magneto, o candidato presidencial "mutantefóbico" Graydon Creed é assassinado em um atentado. Eis que surge um homem chamado Bastion, que sugere ao Governo a criação da Operação Tolerância Zero, determinada a capturar e exterminar todos os Mutantes que colocar as mãos. 

Como poderia ser no cinema: De uma maneira ou de outra, boa parte das tramas dos filmes X-Men feitos até agora tem a ver com os mutantes tendo que sobreviver ao preconceito. Mas pense no quão brutal poderia ser uma história em que o governo decreta uma minoria como alvo e você, por conta de como nasceu, tivesse que recorrer à ilegalidade". Focar em mutantes secundários e mais vulneráveis em uma trama de paranóia generalizada à lá O Exército do Extermínio seria uma abordagem interessante.

Com quem? Mads Mikkelsen (Hannibal, Doutor Estranho) é o sujeito que você procura quando precisa de um vilão com olhar gélido e impenetrável. Já Jeremy Saulnier mostrou em filmes como Sala Verde e Noite de Lobos que pode comandar um filme de suspense claustrofóbico e desesperador. Ou então Denis Villeneuve, que já trabalhou tanto com material mais realista e político (Incêndios, Sicário: Terra de Ninguém) quanto mais fantasioso (A Chegada, Blade Runner 2049).


Lex Luthor, Presidente dos Estados Unidos (2000—2004)

Como é nos quadrinhos: Conhecido tanto por sua careca lustrosa quanto por seu intelecto brilhante, Lex Luthor deixou de ser um rancoroso cientista maluco para passar a ser representado, a partir da segunda metade da década de oitenta, como um empresário inescrupuloso que vê o Super-Homem como uma ameaça à humanidade. Em 2000, após uma série de ações bem vistas aos olhos do público, Lex se candidatou à Presidência dos Estados Unidos - e vencendo de maneira legítima, fair and square. Luthor então passa a manipular o sistema através de incriminações e desinformação, retaliando contra os heróis que insistem em ficar em seu caminho. 

Como poderia ser nos cinemas: Já é um boato que Luthor irá para os cinemas pela DC Dark, em uma pegada mais ou menos como o Coringa. A origem de Lex poderia ser como como Cidadão Kane: um menino com infância difícil que cresce para se tornar um magnata influente. O tom e a trama de ascensão e queda pode se inspirar, é claro, em House of Cards e seu tom maquiavélico. Kane poderia ceder um conflito pessoal vindo a calhar: o poder pelo poder basta? E o que todo seu poder representa quando um homem começa a voar pelos céus do seu império?

Com quem? Que o roteiro fosse de Beau Willimon, criador tanto do House of Cards britânico quanto seu remake com Kevin Spacey, já seria um avanço. De protagonista podemos sonhar com Bryan Cranston (Breaking Bad), tão cogitado pela internet e sua especialidade em descobrir o lado vulnerável de figuras odiadas. Ou Ralph Fiennes,  um especialista em interpretar tipos assustadores e imponentes - seja o Amon Goeth de A Lista de Schindler ou o Voldemort de Harry Potter. E na direção, George Clooney já mostrou bastante competência no mundo do thriller político em Tudo Pelo Poder.


Superman - Entre a Foice e o Martelo (2003)

Como é nos quadrinhos: A genial graphic novel saída da criativade infinita de  Mark Millar imagina o que seria do mundo caso o poderoso Kal-El tivesse caído não no interior do Kansas, nos Estados Unidos, mas em uma fazendo coletiva da Ucrânia soviética. Revelado por Stálin para o mundo na década de 50, o "campeão do proletariado" logo assume controle do Partido Comunista e guia a União Soviética com mão de ferro, sendo oposto pelo terrorista anarquista Batman, o agente da CIA James Olsen e o cientista com pretensões políticas Lex Luthor. 

Como poderia ser nos cinemas: Ok, já existe a animação Superman: Red Son feita para o DC Animated Universe, mas estamos falando sobre um live-action, que o diretor Jordan Voigt-Roberts (Kong: A Ilha da Caveira) já tentou vender para executivos. Dada a riqueza imersiva do material base, poderia ser um seriado de televisão e um prato cheio para fãs de história alternativa, como a série O Homem do Castelo Alto. Fora isso, já tivemos um Superman maléfico em Brightburn: Filho das Trevas e um Superman dominando a Terra em Injustice: Gods Among Us, mas  imaginar Kal-El como  um "Super Grande Irmão" que altera toda a história que conhecemos do século XX é um conceito interessantíssimo e um prato cheio para discutir política e símbolos de poder.

Com quem? Talvez não para a direção, mas para o roteiro um amante da "história alternativa" que poderia dar uma mãozinha seria Quentin Tarantino (é só ver Bastardos Inglórios e Era Uma Vez em... Hollywood), que provavelmente encheria a história de detalhes imersivos (Richard Donner provavelmente filmaria um filme de Lex Luthor aqui?). Já na direção, Alex Garland, de Ex_Machina: Instinto Artificial e Aniquilação é certamente um nome atrativo por levar "ficção estranha" absolutamente à sério. Ou quem sabe Drew Goddard, de O Segredo da Cabana e Maus Momentos no Hotel Royale, se você estiver à procura de narrativas corais e invencionices excêntricas.


Marvels (1994)

Como é nos quadrinhos: Abordando um período de 30 anos em 4 edições, o roteirista Kurt Busiek e o desenhista Alex Ross imaginaram a resposta para a pergunta: como seria a sua vida no Universo Marvel. Não a sua versão com poderes - mas se você saísse na rua, para trabalhar, comer ou passear, e precisasse ocasionalmente correr pois homens alados, em chamas, gigantescos ou se pendurando em teias brigam com figuras igualmente esquisitas. Esse é o drama do fotojornalista Phil Sheldon, que ao longo dos anos registra fotos de super-heróis e têm sentimentos mistos sobre os mesmos - serão eles um perigo ou nossos defensores?

Como poderia ser no cinema: The Boys é uma série que tenta enfocar o impacto dos superseres na cultura humana, mas por um lado... Ofensivo, digamos. Marvels é sobre você olhar de longe aquelas figuras incríveis e torcer por elas, ter medo delas, discutir sobre o que elas significam para nós. Por essa lógica, não é de se descartar completamente histórias de drama doméstico e individual acontecendo enquanto os superseres lutam pelo (ou contra) o mundo lá fora. Você teria filhos em um mundo que pode ser comido por Galactus a qualquer momento?

Com quem? Phil Sheldon deve ser um "qualquer um", jamais maior que a vida. Como abordamos três décadas diferentes de uma vida, uma ideia seria escalar dois atores diferentes que envelhecessem com os heróis - por isso, Jason Segel (How I Met Your Mother) para o jovem Phil e Tom Hanks (Sully - O Herói do Rio Hudson) para o sr. Sheldon. Sam Mendes à princípio parece um nome aceitável, visto que consegue fazer tanto blockbusters de ação (007 - Operação Skyfall) quanto dramas da vida moderna (Beleza Americana, Foi Apenas um Sonho).


Transmetropolitan (1997—2002) 

Como é nos quadrinhos: Spider Jerusalem é um jornalista gonzo inspirado no lendário Hunter S. Thompson vivendo em uma cidade cyberpunk que luta contra os corruptos que abusam do poder - uma tarefa um tanto inglória em uma distopia. Se você acha que um jornalista expondo escândalo não pode ser tão empolgante quanto um bombado soltando lasers pelos olhos, é porque você não leu Transmetropolitan.

Como poderia ser no cinema: Se já descobriram Alan Moore, Neil Gaiman e agora descobriram Garth Ennis, já está na hora de descobrir Warren Ellis. Comentarista social com uma veia única, Ellis mistura sarcasmo, folclore e tecnologia e arma um dos estilos mais únicos dos quadrinhos. Um filme seria necessariamente esquisito, um cyberpunk com o noir sombrio e deprimente substituído por uma bricolagem vertiginosa de informações, diálogos rápidos e malandros e um discurso efusivo e indignado.

Com quem? Transmetropolitan tem sua carga de Terry Gilliam (meio Brazil - O Filme, meio Medo e Delírio em Las Vegas), mas o mesmo não é muito atraído por quadrinhos. De nomes recentes, Taika Waititi sabe fundir como ninguém elementos tão díspares quanto críticas sociais, cores em profusão, diálogos malucos e uma sensação geral de excentricidade. De protagonista talvez Sam Rockwell (Confissões de Uma Mente Perigosa, Três Anúncios Para um Crime) poderia convencer como o jornalista ranzinza e idealista que não aceita levar desaforo pra casa. Ou James McAvoy, se você pensar na performance dele em Filth ou Atômica.


Homem-Animal revival (1988—1990)

Como é nos quadrinhos: Bernard "Buddy" Baker é um dublê de cinema que após interagir com um alienígena ganha a habilidade de imitar as habilidades inatas de animais próximos, bem como controlá-los e possuir suas mentes. Inicialmente um personagem de segundo escalão, o "rebranding" de O Monstro do Pântano e Sandman pelas mãos de Alan Moore e Neil Gaiman fez com que Grant Morrison fosse contratado e transformasse a revista em um sucesso, explorando temas ecológicos como destruição da natureza, uso de cobaias em laboratórios e afins, bem como experimentando com metalinguagem e quebras de quarta parede. A partir daí, a revista passaria a convergir com temáticas de horror, com Baker se distanciando cada vez mais do humano que um dia foi e se tornando algo novo.

Como poderia ser no cinema: Meio combatente do crime, meio protetor da natureza e meio figura mística-esotérica, um filme do Homem-Animal tem potencial para ser tudo isso. Misture a carga realista e reflexiva de documentários estilo Uma Verdade Incoveniente com uma tensão de suspense socialmente crítico estilo O Hospedeiro e um discurso "natureba" de Na Natureza Selvagem e dá para começar a imaginar o herói protegendo a natureza de maneiras pouco cordiais com a extensão de seus poderes também o transformando interiomente. Ah, e no meio de tudo isso, experimentos com a linguagem e com a representação através de personagens que sabe que são personagens sendo desenhados e lidos - alguém falou em Violência Gratuita?

Com quem? Bong Joon-ho é um diretor que não se estranha em aliar filmes de gênero com temáticas relevantes - além de O Hospedeiro, é bom lembrar de Okja e O Expresso da Amanhã, ambos com uma pegada socialmente consciente. E M. Night Shyamalan? Para além de abordar quadrinhos em filmes mais recentes, obras como A Dama na Água e Fim dos Tempos mostram um apetite por mitologia e horror "natural". Interpretando Kilmonger em Pantera Negra, Michael B. Jordan está no inconsciente coletivo recente como um ativista "hardcore" e com certeza não faria feio, mas se formos nos manter fiéis à caracterização, Ryan Gosling mostrou ser capaz de interpretar um tipo violento, porém melancólico e sombrio em Blade Runner 2049. Fica ao gosto do leitor.


Opine! Para você, que outro personagem de quadrinho merece uma versão mais madura?

Comentários (6)

Carlos Eduardo | segunda-feira, 18 de Novembro de 2019 - 21:43

O mais longo Dia das Trevas ou qualquer um dos melhores whodunit do Batman ao estilo film noir.

Ted Rafael Araujo Nogueira | segunda-feira, 18 de Novembro de 2019 - 23:21

Transmetropolitan é das melhores coisas que já li. Iconoclasta até o talo e sempre genial. Obra prima.

Eu teria lembrado também de Ronin. Primeiro material do Frank Miller na DC. Unindo de maneira absurda o mangá de samurai com o Sci-fi inspirado no moebius e com aquela pegada política seca que o Miller impõe. Foda demais.

Araquem | quinta-feira, 21 de Novembro de 2019 - 22:37

Parece que depois do sucesso de Coringa, vai sair o Spawn sério e sombrio, R rated de Todd McFarlane.

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