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7+ | As melhores atuações de comédia da década

Nas premiações, é fato que o gênero dramático governa como um grande senhor, com muitos papéis por serem dramáticos conquistando espaço de filmes de comédia, terror, suspense e outros justamente pelos outros gêneros serem considerados escapismo enquanto o drama segue com a pecha algo inabalável de alta cultura. Não é verdade, o sabemos bem. Mas se já se discute neste final de década as melhores atuações em cada gênero nos últimos anos, quais foram os que mais arrancaram risos e sorrisos do público? Confira uma seleção abaixo.

Como foi uma lista de apenas sete, performances de coadjuvantes excelentes como Jesse Plemons em A Noite do Jogo acabaram ficando de fora para focar em atuações de protagonistas. É bom lembrar que estamos falando de cinema aqui, mas se quiser ver o fino da atuação cômica na televisão, não esqueça de ver também Rachel Brosnahan em A Maravilhosa Sra. Maisel, Andre Braughter em Brooklyn 99, Kristen Bell em The Good Place, Aziz Ansari em Master of None, Alisson Brie em GLOW e Julia-Louis Dreyfuss em Veep.

Ryan Gosling, em Dois Caras Legais (2016)

Shane Black (Máquina Mortífera) é um mestre em aliar a violência dos filmes policiais com o absurdo dos filmes de comédia e o resultado são filmes brutais mas que estranhamente nos pegamos rindo com alguma frequência. Aqui, apesar de termos também um excelente Russell Crowe como um valentão estressado, o ouro cômico vai para Ryan Gosling como um caricatural detetive que sofre grande parte do castigo físico do filme. Para os que não se horrorizarem, dá para rir bastante das (muitas) contusões, cortes e fraturas sofridas para o personagem e o seu arsenal de expressões de dor. Mestre dessa espécie particular de filme referencial que cruza pastelão com sangue, Black encontrou um tipo de ator ideal em Gosling, fragilmente humano mas que nem por isso perde a pose e o cinismo.


Imogen Poots, em Um Amor a Cada Esquina (2014)

Essa vai para os que acham que não existiam mais filmes aos moldes das clássicas comédias amalucadas de Hollywood como Levada da Breca, Aconteceu Naquela Noite, Quanto Mais Quente Melhor e outras que tiravam sarro de costumes sociais através dos conflitos românticos de seus protagonistas. Imogen Poots, com graça, leveza e inocência dissimulada faz aqui as vezes de Katharine Hepburn ou Claudette Colbert como a mulher pela qual homens se apaixonam e se metem em inúmeras confusões, chamando a cena para si nesse filme solar e de paletas douradas até em cenas noturnas. O veterano Bogdanovich repetiu seu feito que havia alcançado com Barbara Streisand em Essa Pequena é uma Parada e mostrou aqui a evidência de que esse tipo de filme nunca sai de moda desde que você tenha os atores certos, e Poots, com uma carreira curta, esbanja carisma com muita segurança contracenando com nomes de peso como Will Forte, Owen Wilson e Jennifer Aniston. Precisa pedir mais?


Peter Simonischek, em Toni Erdmann (2016)

O circuito mais “cabeça” do cinema foi surpeendido em 2016 com essa longa comédia que mostra a vida da atarefada executiva Ines que tem sua vida virada de cabeça para baixo por seu pai Winifred Conradi, um professor de música com um senso de humor bizarro que cria personalidades excêntricas para envolver pessoas facilmente embaraçadas em situações constrangedoras. E Peter Simonischek nos leva pela mão em todas as cenas como o inevitável elemento estranho que promove a anarquia no baile de máscaras e que tenta se reconectar com a filha “perdida” para o desumano mundo corporativo. A diretora Maren Ade também acertou nessa escalação porque o ator não se resume apenas ao material cômico explícito, mas também promovendo uma aura de ironia e desconforto constante. Todos que viram afirmam: é um personagem estranhamente fascinante.


Greta Gerwig, em Frances Ha (2012)

A história da aprendiz de dança descompassada com a vida é o que se pode chamar de neoclássico dos filmes indie - filmado até em preto-e-branco para os detratores botarem todos os defeitos que conseguir. Mas uma coisa difícil de criticar é a entrega da protagonista nesse filme que é a consagração do mumblecore, movimento de cinema independente que explorou as relações afetivas dos millenials. É mais o tipo de performance cômica para os que apreciam produções do gênero mais sutis, como Manhattan ou Sintonia de Amor, para quem certamente Gerwig soa magnética como a protagonista perdida na vida, apaixonante justamente por esse atributo. E mais uma prova da capacidade de Baumbach de sempre dirigir atores em performances arrebatadoras e tridimensionais, seja para o riso ou para a lágrima.


Ryan Reynolds, em Deadpool (2016) e Deadpool 2 (2018)

O que não é um ator que se apega ao personagem querido com unhas e dentes, não é mesmo? Após a primeira vez fracassada (e massacrada) em X-Men Origens: Wolverine, Reynolds encontrou a redenção através de um curta que incentivou a Fox a lançar uma produção independente e com classificação etária de mais de 18 anos baseada no personagem mais louco já criado para os quadrinhos. A anarquia narrativa, formal e estética que o personagem Wade Wilson, o Mercenário Tagarela, é capaz de promover foi ainda mais amadurecida no segundo filme, que chega às raias do constrangedor e do incoerente para tirar sarro dos filmes de herói. Em um contexto onde a maioria dos heróis quer fazer gracejos, Reynolds com seu timing perfeitamente encaixado com pouca ou nenhuma correção política se tornou tão identificado com o personagem que nem a troca de empresas o fez perder o papel.


Kristen Wiig, em Missão Madrinha de Casamento (2011)

Há paixão nítida na performance que Wiig entrega como Annie Walker, protagonista de seu roteiro que a fez ser indicada ao Oscar de Melhor Roteiro Original - a primeira produção de Judd Apatow (O Virgem de 40 Anos) a chegar tão longe. O filme reverte todos os clichês típicos da comédia normalmente masculina às luzes de um cinema de mulheres, deslanchando a carreira da atriz Melissa McCarthy e do diretor Paul Feig para além da televisão. Mas dá para dizer que o filme funciona por conta de seu protagonismo, como uma mulher cheia de questões, atrapalhada e sem jeito e capazes de se meter em inúmeras situações constrangedoras. Quase uma reivindicação da atuação “quirky”, ou peculiar, se preferir, para o gênero feminino, mostrando que todos são capazes de escatologia, humilhações em público, autocomiseração e brigas estúpidas. O que não é a comédia senão saber rir do seu pior?


Adam Sandler, em Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe (2017)

Embriagado de Amor já deveria servir de evidências o suficiente das competências de Adam Sandler para além do típico enlatado que arrasta audiências mais por peso dos nomes do elenco que pela performance em si; mas ainda bem que de vez em quando ele atua em projetos como esse filme de Noah Baumbach, onde faz um retrato ao mesmo tempo cômico, patético e comovente da figura de Danny, um homem divorciado e desempregado apegado à filha e que tenta de qualquer jeito conseguir a atenção de Harold, seu egocêntrico pai, sem sucesso. Baumbach faz aqui uma espécie de Woody Allen “hardcore”, onde todo o filme funciona como um longo exorcismo de conflitos familiares e rancores adormecidos, com a expressão esperançosa mas ao mesmo tempo constantemente frustrada de Sandler mostrando que quando estimulado por um papel, é capaz de voar com o mesmo.

Comentários (1)

CitizenKadu | quarta-feira, 27 de Novembro de 2019 - 16:31

Esses artigos são interessantes Brum. Vou encher o saco:
Achei massa a inclusão de "Francis - Ha", é basicamente o que o Noah Baumbach fez com Sandler.
Eu não gosto de "Bridesmaids", acho uma comédia genérica derivativa das obras de Seth Rogen; mas acho bacana a escolha de Kristen Wig, sendo que o filme exaltou mulheres fazendo comédia, mas paradoxalmente elogiou mais a interpretação da "mulher-macho", que chegou a ser indicada ao Oscar a.k.a. balde de hipocrisia e cafonice.
Ryan Reinolds conseguiu se reinventar mo Deadpool, mas no segundo filme ele conseguiu estragar tudo, porque é tão irritante o excesso de piada que tu não entende porque o roteiro perdeu as rédeas, até que tu pesquisa e descobre que deram liberdade para ele improvisar a torto e direito. A unica coisa boa de Deadpool 2 vem do plot engraçado do que da verborragia irritante do ator, culpado neste caso, o que estragou o filme pra mim.

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