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Encarnação do Demônio

(Encarnação do Demônio, 2008)
6,3
Média
88 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Um legado sádico e podre de carne tesuda e putrefata 

10,0

Zé do Caixão na busca da mulher perfeita, mulheres, no caso, que o sujeito ficou ganancioso. Após ter ficado encarcerado na cadeia por 40 anos, é posto na pista pelo diretor a encenar o pós-fim do segundo filme, com Zé sobrevivendo e aloprando sobre o padre e, assim, preso fora. Desfaz o avacalho cometido pela censura, que mudara o sentido. Zé é ateu, porra. O encardido volta à ativa não mais numa cidade pequena, mas numa grande metrópole sedenta de sangue. Quem diabos é ele e como se insere neste novo esquema? Ainda havia espaço para este desajustado genial? Pergunta direcionada a criador e criatura. E o sebento responde a isso com a grossura de sempre. Ajustada à modernidade. A última pedrada do Mojica e seu personagem, o qual o catapultara à alcunha de gênio. Na base da chibata.

Discurso e seboseira visual. Entranhas na pista. Escalafobético e adaptado. De lapada o elemento já nos mostra a que veio, com o palavreado tenaz a estabelecer seus reiterados objetivos juntamente das imagens – com vísceras diversas. 40 anos. Metalinguagem histórica. Personagem perdido no tempo e agora liberto funciona como elo do diretor com o cinema. O coveiro não aparecia como protagonista há décadas. Começo da porra. Reintrodução do monstro. Grita no meio da rua sobre o tempo passado preso. Diante do sistema falido que o colocou lá. 40 anos de resistência. Diretor e personagem pondo seu testamento à prova após todos os tipos de vicissitudes brutais. O plano-sequência sensacional da sua soltura já é mítico desde seu nascedouro. Luís Melo de carcereiro a descer degraus fumando numa quenga a reclamar da soltura do animal imundo. Sabe o que diabos está a chegar. O desgraçado na rua. Decreta a falência do sistema que o prendera e agora o solta, assim mostra que o mesmo sistema não vale de bosta nenhuma. Ele sai. Trânsito, drogas, cidade grande. Polícia ordinária, imoral e fanática. Atualização dos problemas. Zé em novos tempos. Se adapta para desmantelar qualquer coisa no seu caminho e mantém sua eterna procura pela linhagem do sangue. Os supercloses num grosseiroso velho, mas ainda com um objetivo. Zé na favela. Novo mocó. Câmera segue o miserável enquanto perscruta seu local de matança. O açougueiro da carne humana inferior está pronto. Agora perseguido, reitero, por esta polícia – carola, intensa, escrota e violenta – e por um padre vingativo viciado de tesão em autoflagelação. Percebe a necessidade de continuar a bater em tudo e em todos. Os fins sempre vão se justificar. Sem sair das características populares que definem seus filmes, tal qual a vivência nas comunidades e o avolumamento das drogas nas ruas. Remete ao popular dos outros filmes, mas tudo agora é ainda mais chocante e escrachado. Sem limites. E uma cena ou outra num bar claro, com bebida, facada e porrada. 

Tudo isto nos leva a uma pegada absolutamente franca do torture porn – algo que lá atrás o cineasta ajudou a criar. Tortura às claras. Sem fugas. Com direito a todo tipo de selvageria descomedida. E bem ao estilo dele. Frontal e suja, cheia dos insetos, carcaças de porco e perfurações literais e reais. Catarse visual do decomposto, bestial e proibitivo por excelência. O criador se moderniza ao manjar aquilo que sabe. O ser humano e suas entranhas fétidas e excruciantes. Todos somos sexo e tripas, eu aqui adaptando e parafraseando Cláudio Assis. As vísceras são mostradas efusivamente, o que nos força a admitir o nosso caráter sacana e asqueroso da excitação voyeur pela total desgraça. Tal qual uma besta-fera humana no escarafunchar de uma vítima a ser destruída tal como mais um numerário de mortandade. Somos impelidos desde sempre a condenar a selvajaria e respeitar a existência do próximo, mas o cinema, por opção, pode se desobrigar a isso. Ainda mais quando é um do estilo mojiqueano, o qual está pouco se fodendo para a irresponsabilidade que propositadamente abraça. A moral fajuta não cola. A violência aqui é objetivada na procura pela perfeição. A lascívia intrigante pelas carcaças e o absurdo da dor. A eterna seboseira. A carne. A importância dela no cinema do Mojica. Agora com os recursos necessários, e as adaptações aos novos tempos, temos o impacto visual intencionado pelo chefe, a impô-lo. A finitude da matéria, ao mesmo tempo que ela importa para a hereditariedade. A carne é finita nos fracos. Assim como a noção de espiritualidade e moral humana das mentiras vazias. Merecem o aniquilamento pela flagelação, segundo nosso monstrengoso. Só tem filho da puta no filme. O policial Miro – no último papel do eterno mestre da cafajestagem Jece Valadão – desce a chibata na esposa, não sem o apoio dos seus comparsas milicos. Mojica não quer saber, desvaria no exagero. Num país onde a ferocidade das ruas é latente, ainda queremos nos surpreender quando um cara tem o peito de estraçalhar no seu cinema beirando a irrealidade diegética, mas sempre em prol da construção de um conceito de sensações? Ora, mas para que limites? Já temos um planeta carola e conservador a nos empurrar ad eternum à falta de colhões do pensamento bovino. Onde mora o bom mocismo do politicamente correto e colorido das intenções. O negócio aqui é na base dos corpos destroçados e das assombrações mutiladas. Relembra seus predecessores. Autoflagelação. Padre vingativo e insano. Estraçalhos diversos. O enterrador se impõe nos espaços todos, inclusive nos da destruição carnal. Ocupa a câmera, cresce nela, subverte corpos e esta câmera nos mostra tudo sem concessões, quase a nos fazer provar da decomposição de algum intestino delgado. Supercloses só nele, o torturador-mor merece a tela toda da fita, e esta última o obedece. Aquela podridão visual fede. O imundo do Zé sempre poderoso, escroto e seguro. Desgraça real. Mulher comendo nacos da própria bunda no meio de toda a dor e tesão. A autofagia como purificação e expiação daqueles antes inferiores e agora testados até o limite. A trepada no sangue. As carcaças e o sangue. A transa. Lentes captam os corpos a passear por eles, na putaria no meio desta chuva de sangue. Dois elementos caros na filmografia do mestre unidos numa cena cabal e, por que não, cabalística. O coito como libertação moral em celulose e o sangue em grandes quantidades como a cobertura primordial de um anarquismo visual brutal. As mais variadas depravações presentes. O suíno. Um porco parindo uma mulher de suas tripas mortas. Baratas a infestar o diabo do ambiente. Tudo isso acaba culminando na maior depravação possível. Estupro. O rato e a perseguida. Mulher é despida, ameaçada e lambuzada com uma gororoba quente para atrair a caceta de um rato. Este roedor adere esta esculhambação imoral e penetra de cabeça entre as pernas da fêmea. Você que está lendo este negócio, imagine-se como um voyeur internalizado no ventre de uma manceba se vendo invadido por uma ratazana faminta. Este é plano engendrado pelo diretor. De dentro das tripas. Este é o cinema do José Mojica Marins. Sem limites. Tema: encarnação. Consumo de drogas. Assassinato. Tortura. Mutilação. Exposição de cadáver. Crueldade. Nudez completa. Diz o DVD. 

Repeteco da alucinação pelo tal inferno falso. Assim como no segundo filme desta saga. Esta marmota se justifica pela trajetória do personagem e por ser foda representar novamente este inferno, e com mais grana. Ponto. Em termos narrativos é preguiçoso mesmo, mas aqui o que interessa não é o roteiro, repetitivo ou não, e sim o processo de construção do horror. Isso sim. O mistificador e a morte expõem ao sepultureiro uma lapada de terror torturante, num ambiente não natural. “O cerne de tudo. O centro do centro. A morada do nada. ” Há a fundamentação pelo estudo sebento da matéria. A carne esfacelada como penitência da nossa mediocridade? Estudo e oportunismo na verdade. Ora, com mais recursos chocantes, por que não inventar essa? Zé afirma já ter visto este local. Um local de violência extrema. Humanos destruídos. Decomposição pútrida em alto grau. Perfurações bucais. Membros decepados. Carnificinas em geral. Paus arrancados sem gozos de qualquer parte. Seres disputam a antropofagia como “animais carniceiros”, diz o imundo coveiro. Suplício no deserto. Céu avermelhado. Mantém a rudeza do Mojica corroborando com os conceitos de desmonte corpóreo que o próprio teima em aloprar. 

O arrastar da cruz no chão do padre sintoniza bem o questionamento estrutural da fita. Cada um carrega a sua. Zé vira maldição. Seu material abusivo filosófico. Sobre o que é o diabo da vida. Nisso as imagens mostram as mulheres grávidas. A imortalidade do legado. Finalmente a trilogia principal do mestre fora concretizada e, como tal, traz à baila o testamento de um cinema único, grosseiro e brutal. Debate a significância dos corpos e por que a nossa moral pode ser escrota e frágil frente ao desafio. Todas estas questões estão em pauta, mas imbuídas de um massacre visual sem tamanho. O interesse tencionado aqui é ver a carne tesuda em destruição e um Zé do Caixão em alta performance sendo um puta monstro do cinema, e da forma que merece. Você aí, ao ler isto, sinta a não procrastinação do mal. O mal não descansa, ele só esbagaça. Tenha em juízo que o mesmo é eterno. Pestilento, sujo, colérico, seboso, sexual, penetrante de todas as formas. Ele te lasca. Na base da podreira. Um fim digno e escroto para um personagem excelente e um puta cineasta maldito.

Texto integrante do Especial Zé do Caixão

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