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Perfis

Foto de June Allyson

June Allyson

Idade
88 anos
Nascimento
07/10/1917
Falecimento
08/07/2006
País de nascimento
Estados Unidos
Local de nascimento
The Bronx, New York

Uma homenagem à eterna namoradinha dos EUA.

Os homens desejavam Cyd Charisse, mas eram a mim que eles levavam para casa para apresentar às suas mães.

Era desta forma, quase sempre irônica, que June Allyson reconhecia sua condição de eterna namoradinha da América, status este que praticamente lhe foi imposto, nem tanto pelos estúdios, mas mais pelo seu público. Sua carreira foi centrada basicamente em personagens que migravam entre adoráveis adolescentes e devotadas esposas, que se anulavam em nome de seus maridos. Seu visual cândido, a baixa estatura e a voz rouca colaboravam para a caracterização. June Allyson representava com perfeição aquilo que os americanos costumam chamar de “the girl next door”, o tipo de pessoa comum, querida de todos, que se não pertencia à nossa família, provavelmente deveria residir muito próximo a nós. Essa garota da porta ao lado morreu no dia 8 de julho, aos 88 anos.

Seu nome de batismo era Ella Geisman. Nasceu no Bronx, Nova Iorque. Quando ela completou 6 meses de vida, seu pai, alcoólatra, abandonou a família. Aos 8 anos, sofreu um sério acidente nas costas ao cair da bicicleta, que a obrigou a conviver com aparelhos para auxiliar a locomoção. Para ajudar na recuperação, aulas de natação e dança passaram a fazer parte do seu cotidiano.

Ironicamente, foram justamente essas aulas que a ajudaram a ser escalada numa produção da Broadway. O ano era 1938 e a jovem, já rebatizada de June Allyson, entrava na maioridade. Até 1941, ela cantou e dançou em diversos espetáculos. Como substituta de Betty Hutton, assumiu o papel da estrela no show Panamá Hattie, quando essa ficou doente. Interpretando um personagem que se encaixava como luva aos musicais da MGM, ela chamou a atenção do produtor George Abbott. O passo seguinte foi sua contratação para um pequeno papel na peça Best Foot Foward. Dois anos depois, em 1943, repetiu a personagem na versão para o cinema. Nascia aí um relação com os estúdios da Metro de 11 anos e 25 filmes.

Numa entrevista concedida em 1972, Allyson reconhecia na MGM uma espécie de figura paterna. “Quando eu era uma estrela, sempre havia alguém ao meu lado, para me proteger. Não era permitido que eu fotografasse fumando ou bebendo, nem mesmo um copo d´água: o público poderia pensar que o líquido era algum tipo de licor. Quando eu saí do estúdio, já era casada e tinha dois filhos. Mesmo assim, a sensação que tive foi a de uma criança saindo de casa pela primeira vez”.

June desafiou o poder de Louis B. Mayer, o big-boss da MGM, uma única vez. Ela se apaixonou pelo astro – então casado – Dick Powell. Apesar de todas as oposições de Mayer, o romance foi à frente. Powell divorciou-se de sua esposa, Joan Blondell, e se casou com Allyson em 1945. Mesmo abalado por diversas crises – June chegou a ingressar com o processo de divórcio em determinado momento – o casamento durou até a morte de Powell, em 1963, quando ele tinha 58 anos. Na sua autobiografia, a atriz menciona de passagem a luta que passou a travar contra o alcoolismo após a falecimento do marido.

Por causa do seu acidente nas costas, Allyson achava que não poderia ficar grávida. Por isso, em 1948, ela e Powell adotaram uma menina, a quem deram o nome de Pamela. Ironicamente, dois anos depois, ela deu à luz a um menino, batizado de Richard.

Foi justamente nesta época – final dos anos 40 e começo dos 50 – que June Allyson emplacou seus projetos mais conhecidos. Em 1949, realizou dois filmes de sucesso: o primeiro deles chamou-se Quatro Destinos (Little Women). Dirigida por Mervyn LeRoy, ela reviveu o papel de Jo March, que Katharine Hepburn interpretara em 1933, no filme Quatro Irmãs, primeira versão para o cinema do livro de Louisa May Alcott (mais tarde, em 1994, essa mesma história seria novamente refilmada, sob o título de Adoráveis Mulheres, tendo Winona Ryder encarnando a famosa personagem). O segunda era o drama Sangue de Campeão (The Stratton Story), biografia devidamente romanceada do jogador de basebal Monty Stratton (James Stewart). No filme, ela vive o papel de Ethel Stratton, já assumindo sua característica da esposa perfeita que a marcou pelo resto da vida.

Na primeira metade dos anos 50, estrela mais 3 hits: em 1954, em Um Homem e Dez Destinos (Executive Suite), dirigido por Robert Wise, dividiu a tela com vários astros da época, como William Holden, Barbara Stanwick, Fredric March, Walter Pidgeon, Shelley Winters, Paul Douglas, Louis Calhern e Dean Jagger. Ficou especialmente famosa a frase que ela diz a Holden, reveladora da condição de mulher que permanece à sombra de seu marido: “Querido, se isto é algo que realmente você deseja, é isso o que importa para nós dois”.

Ainda em 1954, realizou um de seus filmes mais famosos, Música e Lágrimas (The Glenn Miller Story), de Anthony Mann. Novamente ao lado de James Stewart, June interpreta Helen Miller, esposa do grande compositor.

No ano seguinte, o trio voltou a juntar forças em Comandos do Ar (Strategic Air Command). June faz o papel de Sally Holland, mulher do Sargento Robert Dutch Holland (James Stewart). Ambos vivem numa base aérea militar, na qual Dutch testa um novo modelo de avião. June permanece o filme inteiro ao lado do telefone, aguardando ansiosamente um telefonema que pode trazer a notícia da morte de seu marido.

Sua carreira começou a entrar em declínio em 1957, quando estrelou, ao lado de David Niven, a refilmagem de Irene, a Teimosa (My Man Godfrey), grande sucesso dos anos 30, com Carole Lombard e William Powell. A pouca receptividade da fita deixou marcas em June Allyson, que aparentemente passou a recusar quase todos os projetos que lhe eram oferecidos.

De 1959 a 1961, ela foi a apresentadora do programa da CBS The DuPont Show With June Allyson. Nos anos 70, teve pouquíssimas participações de relevo no cinema. Nos 80, reapareceu na TV, em episódios das series O Barco do Amor e Murder, She Wrote.

Em 1985, participou de uma campanha institucional que marcou época nos EUA, na qual ela alertava os idosos americanos sobre os problemas causados por doenças urológicas e ginecológicas.

June Allyson criou uma persona na tela. E o fez com tanta perfeição que milhões de americanos – assim como todos os seus fãs pelo resto do mundo – acreditaram durante anos que ela era o símbolo da mulher ideal, da esposa perfeita, da companheira leal para todas as horas. Seu visual alegre, ensolarado, quase virginal, a aproximava um pouco de Doris Day (sem o mesmo talento musical). No fundo, a imagem que June Allyson projetava na tela representava um EUA que já não existe mais (e que talvez nunca tenha existido), mas ingênuo, pueril. O símbolo perfeito do american way of life.

A garota da porta ao lado por excelência, acaba de nos deixar, agora, para ocupar a porta de cima.

Filmografia

Título Prêmios Ano Notas
1949
1949
1954
Galante Vagabundo, O
Irene Bullock
1957
Três Mosqueteiros, Os
Constance Bonacieux
1948
Campo de Batalha
Ruth McGara
1953
1977
1956
Porta Secreta, A
Jody Revere
1953
Cedo para Beijar
Cynthia Potter
Globo de Ouro (prêmio) 1951
Mundo é da Mulher, O
Katie Baxter
1954
Quando as Nuvens Passam
June Allyson / Jane
1946
1944
Louco Por Saias
Cantora
1943
Damas de Hollywood, As
Senhora no hotel (não creditado)
2001
Sua Alteza e o Groom
Leslie Odell
1945
Música e Lágrimas
Helen Berger Miller
1954
Comandos do Ar
Sally Holland
1955
Sinfonia Interrompida
Helen Banning
1957