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Críticas

Cineplayers

Um filme sensível e cheio de simbolismos. A busca pelo Sonho Americano lindamente retratada.

8,5

Uma vida nova. Um novo lugar. Uma história muito profunda e humana vista através dos olhos de quem nada teme e tudo vê. Essa talvez seja mesmo a definição mais perfeita e coerente que exista para Terra de Sonhos, um filme escrito por um diretor inspiradíssimo e que conta com um elenco que esbanja qualidade acima de qualquer outra coisa. Não é à toa que a película vem recebendo ótimas críticas ao redor do mundo e, justamente, conquistou três nomeações importantes em quesitos disputadíssimos ao grande prêmio comercial do cinema mundial, o Oscar, a ser realizado em março desse ano.

Mas das premiações do filme trataremos mais adiante. ‘In America’ é talvez uma das melhores surpresas de 2003 que chegaram aqui no Brasil este ano. O filme também não só é bem estruturado, como é também um dos melhores que abordam o tema “imigração aos Estados Unidos”, ou simplesmente a conhecida busca pelo “Sonho Americano”. A história é simples, cativante e altamente humana. Fator esse que é bem trabalhado e exposto através dos olhos das duas menininhas que dão um show na produção: as irmãs Sarah Bolger (Christy) e Emma Bolger (Ariel).

O filme conta a história do casal Johny e Sarah (e suas duas filhas já citadas Christy e Ariel, sendo Christy a mais velha – 11 anos – e Ariel a doce caçula) que decide se mudar para os Estados Unidos, abrindo mão de tudo e todos no lugar onde moravam, deixando tudo para trás em busca do tal sonho americano e de algo muito maior também: esquecer a morte recente de seu terceiro filho, Frankie. A película inicia-se com a entrada do casal nos EUA.

‘In América’ é um filme cheio de simbolismos que só vêm a contribuir para que ele tenha um visual e um clima pra lá de encantadores. Logo no ínicio somos apresentados a um desses elementos. Christy conta rapidamente a história da família e depois diz que teria três pedidos que seriam atendidos pelo já falecido irmão, Frankie, que, segundo ela, assistia-os do céu. O primeiro pedido é muito óbvio e simples, entretanto, não há como de alguma forma sentir-se indiferente em relação ao momento em que Christy acaba por “gastar” seus outros dois desejos. Mas essas são apenas duas das várias passagens marcantes do filme.

A história da produção do filme em si já é bonita. Ele foi dirigido por Jim Sheridan que, para quem não se lembra muito bem, já dirigiu bons filmes como Em Nome do Pai, por exemplo. O roteiro, mais incrível ainda, foi não tão somente escrito pelo próprio Jim, mas como por suas duas filhas, Naomi Sheridan e Kirsten Sheridan. O filme também é dedicado a outro membro da família Sheridan (sim, você vê a dedicatória antes dos créditos rolarem), entretanto, não sei informar a vocês quem era a determinada pessoa; mas de uma coisa podemos ter certeza, o filme tem muito a nos dizer sobre a própria vida do diretor. Basta prestar atenção em pequenos detalhes como esses para notar-se isso.

Nossa, já estamos aqui e ainda nem comecei a falar a respeito das atuações do filme! Bem, então vamos a elas porque, sozinhas, essas atuações já são de encher os olhos. Vamos começar com um dos maiores destaques do filme, a atriz indicada ao Oscar esse ano por esse mesmo trabalho, Samantha Morton. Samantha é a mulher do casal e, apesar de seu look ligeiramente rebelde, Sarah demonstra-se uma pessoa altamente preocupada com as filhas, porém, ainda assim o fantasma da perda de seu último filho continua a assombrá-la e a deixá-la, por muitas vezes, emocionalmente vulnerável.

Paddy Considine, que faz o papel de Johny, chefe da família de imigrantes irlandeses, assume seu primeiro e realmente proveitoso trabalho, que lhe renderá muitos frutos no futuro. Não é à toa que o ator já está ensaiando ‘Cinderella Man’, uma das grandes promessas para esse ano. O ator é peça chave na demonstração de quão frustrante pode soar inicialmente a luta pelo “sonho americano”, com todas as frustrações e dificuldades pela qual sua família passa.

Enquanto a nova cidade representa ao casal uma terra de novas oportunidades, entretanto sem esquecer as dificuldades, para as crianças a América é uma terra nova onde tudo é possível, como se fosse um mundo mágico, onde tudo são alegrias... Esse choque de visões é um dos altos pontos do filme, bem construído e costurado por Jim Sheridan. A frase da pequena Ariel logo no início da película (“- Mãe, podemos ficar com os pombos? Podemos!”) representa muito bem a inocente visão das crianças frente à insegurança dos pais.

E por falar em crianças... ah, Sarah Bolger! A pequena atriz que interpreta a menininha Christy dá simplesmente um show em tela, é difícil não se emocionar relembrando os pontos altos da pequena Sarah no filme. A interação de Christy com Mateo e sua irmã Ariel é algo surpreendente. Eu, pessoalmente, não me lembro de ter visto outra “atuação mirim” tão boa assim, com exceção a H.J. Osment em ‘O Sexto Sentido’. Realmente não dá para entender a não indicação de Sarah Bolger para o Oscar de melhor atriz coadjuvante. Muito provavelmente quem ganhará será Charlize Theron por ‘Monster - Desejo Assassino’, afinal, a academia de uns tempos pra cá vem adorando filmes que transformam lindas donzelas em algo certamente repugnante, vide Nicole Kidman em ‘As Horas’. Não vou entrar no mérito da questão relacionada (se “a” ou “b” realmente mereceu ou não o prêmio) porque isso pouco importa aqui, mas uma coisa que os membros da academia deveriam se lembrar é que existe sim um prêmio para categoria Maquiagem, e que de forma alguma esse prêmio deveria estar vinculado às atuações dessas atrizes em si. Mas parece que os membros ultimamente vêm esquecendo de separar as duas coisas. Enfim...

Mas já estou aqui falando há quatro parágrafos das atuações do filme... E por incrível que pareça ainda não acabou; deixei um dos meus personagens prediletos do filme para o final. Estou falando de Mateo – interpretado por Dijimon Hounsou. Você pode não se lembrar bem de Hounsou, mas certamente já o avistou em algum filme. Ele era o gladiador e amigo negro de Russel Crowe em ‘Gladiador’ e também fez o bom ‘Amistad’, de Steven Spielberg. À primeira vista, Mateo é uma pessoa completamente assustadora. Só de lembrar a tensão em que fiquei no cinema no momento em que as crianças foram até sua porta gritar “travessuras ou gostosuras”, minha nossa, fiquei completamente boquiaberto observando a cena. Mais uma vez palmas e mais palmas para Sheridan, que soube “brincar” com o preconceito do público da maneira mais calma e sutil possível.

O filme possui várias seqüências marcantes além dos dois últimos pedidos de Christy como já havia mencionado. Em uma dessas seqüências, Sarah desabafa com Johny: “- Eu venho carregando essa família nas costas há tempos...”. Uma seqüência muito boa e tocante. Entretanto, ela é muito mais avassaladora quando uma outra personagem, ao final do filme, repete as mesmas palavras da mãe para Johny. É marcante. Há ainda outras passagens fantásticas como a em que Mateo diz para o chefe de família irlandesa: “- Eu sou apaixonado pela sua raiva, pelo seu ódio. Eu sou apaixonado por tudo aquilo vive”. Forte é como definiria a passagem. Forte e marcante.

Como se tudo isso ainda não fosse o bastante para fazer quem curte um bom drama ir voando aos cinemas, o filme ainda conta com uma trilha sonora fora de série, muito bem selecionada. Sarah Bolger, nossa fantástica menininha, além de atuar perfeitamente, ainda canta em uma seqüência memorável de ‘In America’, fazendo um solo de uma antiga música da banda The Eagles, chamada ‘Desperado’. Ainda temos Andréa Corr (do grupo The Corrs) cantando uma música escrita por Bono Vox, do U2, chamada ‘Time Enough for Tears’, simplesmente muito bela. ‘Terra de Sonhos’ ainda conta com uma seleção de músicas instrumentais e temas belíssimos, não vejo a hora de botar minhas mãos no CD do filme, mas de antemão aviso que é difícil encontrá-lo nas lojas.

Merecidamente premiado, ‘Terra de Sonhos’ participou, ano passado, de diversas seleções de famosos e importantes festivais como os de Edinburgh, Sundance e Toronto. Esse ano, o filme foi indicado a três Oscars a serem disputados em março, todos eles já comentados aqui: atriz (Samatha Morton), ator coadjuvante (Dijimon Hounsou) e roteiro (Jim, Kirsten e Naomi Sheridan). Será difícil para Dijimon ganhar como ator coadjuvante, afina, ele realmente está concorrendo com gente de peso e que igualmente merece o prêmio, como Tim Robbins, por ‘Sobre Meninos e Lobos’.

O final é muito bom e agrada. É difícil falar sobre ‘In America’, mas ao mesmo tempo é gratificante, digo isso porque o filme possui um imenso equilíbrio entre o feliz e o triste, entre o “bonito” e o “feio”. Reconfortante e agradável, ‘Terra de Sonhos’ é uma das melhores surpresas que você poderá encontrar nesse inicio de ano nos cinemas. Sua história empolgante e cativante acaba contagiando qualquer um, e a perspectiva sob a qual a história é contada emociona a todos. Para quem gosta de um bom drama, é um prato cheio.

Atenção: recomendo a leitura dessa parte em diante da matéria apenas para aqueles que já assistiram ao filme.

A polêmica da ambientação de época de ‘Terra de Sonhos’

Uma das principais polêmicas que andam correndo à solta na Internet levanta como questão a época em que o filme realmente se passa. Muitos dizem e defendem fielmente que o filme é ambientado no início da década de oitenta, entretanto, uma série de outras características estão aí para provar que o filme foi rodado na Nova York pós 11 de setembro. Decidi, então, fazer um quadro abaixo listando passagens do filme que reforçam os dois tipos de observação.

Prós / Década de 80:

Um. Podemos observar um detalhe característico da década de 80 fortemente presente em ‘Terra de Sonhos’: os modelos dos carros que circulam pelas ruas de Nova York são claramente modelos que existiam em abundância na década de 80, tão utilizados em filmes e produções daquela época.

Dois. Quando a família vai ao cinema em Manhattan, o que eles assistem? ‘E.T. – O Extraterrestre’. Ícone dos anos 80. Está certo que o filme foi relançado recentemente, mas as chances do diretor ter mostrado intencionalmente essa refilmagem são muito pequenas.

Três. Na década de 80, eram famosas na cidade as sorveterias como aquela em que a mãe das meninas acabou arrumando um emprego temporário e que depois, em outra seqüência, é mostrada as meninas tomando um milkshake. O fato é que muitos poucos tipos de sorveterias como aquelas, com aquela arquitetura “ultrapassada”, existem na moderna Manhattan de hoje.

Quatro. O que Mateo realmente aparentava ter era AIDS. Então, a situação ficou muito bem representado porque só fomos começar a ter noticias e pesquisas concretas na área no inicio dos anos 80, com a maciça campanha de prevenção em todo mundo. Os médicos possuíam poucos instrumentos para cuidar de Mateo (a única defesa na época era a prevenção) e quando a pequena menininha tenta fazer respiração boca-a-boca em Mateo todos ficam com medo que ela tenha pegado a doença dele. O que também era um preconceito comum no início da divulgação da doença.

Contras / Década de 80:

Um. A mais óbvia de todas: Em uma tomada panorâmica de Manhattan, o antigo ícone da ilha, o World Trade Center, não é mostrado.

Dois. Enquanto a família passeava por Times Square, vemos, na Broadway, um cartaz enorme (e que até hoje continua lá no mesmo lugar) do musical “Aida”. Até ai tudo bem, se não fosse pelo fato de que esse musical abriu as portas somente por volta de 1998.

Três. Logo no inicio da película, o locutor do rádio anuncia: “O melhor dos anos 70, 80 e 90”.

Quatro. A gravadora que Christy usa era um tanto quanto “moderna” para existir no inicio dos anos 80. É um desses modelos novos com um painel de cristal liquido do lado que permite que você veja a gravação. Modelos como esse só começaram a ser comercializados no inicio dos anos 90.

Ao que tudo indica, o diretor não quis determinar uma época certa para seu filme, ele simplesmente “ambientou” o filme com os lugares e com a arquitetura dos dias atuais, entretanto, os eventos correntes do filme ocorrem todos de forma a nos remeter à década de 80, por algum motivo especial e provavelmente pessoal do diretor.

E você pode conferir que é exatamente isso mesmo que está escrito no parágrafo acima lendo um trecho de uma entrevista que o diretor Jim Sheridan deu ao site Rotten Tommatoes, quando é comentado justamente esse ponto em questão. Veja, em inglês:

Question: There were times in the film when I was a little confused about the year in which the movie takes place. Did you do that on purpose?

Jim Sheridan: Yes. First of all, when you make a period film it reduces the temperature. I always think the cars are going to be old, but they are going to look new. All the guys drive up with their ‘80 cars all spanking clean. You’ve got this mania of going back 20 years and nothing looks much different, but it feels odd. The last thing I wanted to do was do a period film. And anyway, it would have added a couple of million to the budget and it would have been stupid. It just drives me mad, all that stuff. I thought I’d just leave it indeterminate. I’d have it the feeling of the ‘80s but I’d make it the recent past with a camcorder.”

Seja nos anos 80, seja em dias atuais; ‘Terra de Sonhos’ continua sendo um ótimo filme.

Comentários (1)

Rosana de Almeida Machado | sábado, 04 de Julho de 2015 - 21:19

Maravilhosa sua critica, descreveu muito bem o file, parabéns... Adorei...

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