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Críticas

Cineplayers

Eis que a série Harry Potter chega ao fim. E que fim.

8,0

Mesmo quando o nome de David Yates apareceu no centro da tela, ao final de Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte II (Harry Potter and the Deathly Hallows: Part II, 2011), ainda era difícil acreditar que a saga havia realmente chegado ao fim. Martelava na cabeça a imagem anterior, que fechou toda a história sem deixar qualquer vestígio no ar, trocando a ânsia de assistir logo ao filme por um vazio indescritível. Se antes a obra parecia apenas uma preparação para um acontecimento maior que seria resolvido só neste último episódio, agora percebemos que o sentimento real por trás de tudo não era de enrolação, mas sim de falta de informação: não era nos filmes que faltava algo, era na gente - e esse algo é ‘As Relíquias da Morte: Parte II’.

Fechando com chave de ouro uma lucrativa franquia que começou há mais de dez anos atrás, inicia um novo ciclo não só na vida dos personagens, mas também na dos novos cinéfilos que aprenderam a amar o cinema ao crescerem assistindo e esperando o próximo filme da série. Harry Potter chegou criança, conheceu os deveres da vida e sua responsabilidade, fortaleceu-se com o amor e enfrentou desafios; exatamente como os jovens que envelheceram juntos - e isso concede alma ao trabalho.

A história chega ao fim com coerência, sem precisar se reinventar ou ficar mudando para renovar o interesse. Alcançar o final é uma conseqüência pensada, não o acaso do sucesso. Locações esquecidas no tempo ganham novas ações, personagens que até então não haviam servido para muita coisa ganham importância, itens são re-utilizados... É uma série que respeita a sua historia, que flerta com o passado. Novos acontecimentos dão outra perspectiva a fatos conhecidos, as reviravoltas são interessantes e quase todos os eventos aguardados e comentados não decepcionam, como a espetacular batalha de Hogwarts, que mistura efeitos especiais sensacionais, bom humor (sim, há espaço para ele também), satisfatórias batalhas individuais e recriações medievais clássicas - como o ataque das varinhas inimigas ao escudo do castelo, que mais parecem flechas sendo atiradas contra uma tropa portada de escudos.

Os personagens estão vulneráveis. Eles não podem se machucar, eles vão se machucar. Alguns até morrer. Só resta saber quando e como. O filme assume de vez o lado sombrio ao fazê-los sangrar, gritar, chorar, sofrer, e, com isso, usa a tensão a seu favor, pois não sabemos quem realmente chegará ao fim daquilo tudo. Há poucas frases de efeito, muita coisa acontece, todas as peças do tabuleiro são posicionadas; falta apenas o movimento final. Há equívocos, é verdade, especialmente em algumas batalhas que se realizam de maneira insatisfatória, mortes de pouco impacto ou romances que soam bruscos para quem não leu os livros – e isso tudo deveria ser melhor trabalhado, visto que o filme tem uma duração bem menor que os predecessores. Mas, sinceramente, nada disso abala a experiência final, que é bastante positiva. Algumas imagens ficarão marcadas, como o escudo de Hogwart ruindo aos ataques, um flashback lindo de doer e a batalha final, gigantesca e convincente.

A nova dimensão que os episódios anteriores ganham faz com que tenhamos vontade de revisitá-los, redescobri-los, agregando um valor significativo a obra como um todo. David Yates, que antes da série não tinha nenhuma expressão no cenário (e isso talvez seja justamente o motivo de sua permanência na cadeira de direção, já que é muito mais fácil para o estúdio lidar com um diretor assim do que com um que tenha suas vontades) faz um belo trabalho nas opções sonoras (as músicas não são melosas e muitas das cenas se fazem apenas com o som ambiente, sem elas), visuais (alguns planos são bem estéticos e corajosos) e sentimentais (o epílogo, que alguns podem considerar brega e desnecessário, funciona bem, é super emotivo e fecha com competência a idéia de ciclo que permeia todo o texto).

Os atores cresceram, amadureceram como artistas, assim como o público também evoluiu como pessoa – e a série certamente serve para pontuar diferentes fases da vida de cada um. Ninguém é o mesmo de dez anos atrás, não tem o mesmo reflexo no espelho, apenas as mesmas memórias. Harry Potter é isso: memórias de uma vida aproveitada e que poderá ser sempre revisitada e revigorada, nunca reinventada e nem renovada. Não vai mudar a opinião de ninguém sobre a série – quem não gosta continuará sem gostar -, mas fará com que aqueles que tenham o mínimo de carinho por ela se apaixonem cada vez mais. Os fãs certamente chorarão – e eles é que estão certos, tem que curtir mesmo, o momento é agora. Depois vai ser só nostalgia.

Comentários (2)

Ícaro Santana | sábado, 17 de Novembro de 2012 - 05:09

Amo essa crítica do Cunha, achei estranho que ela não tivesse comentário algum.

Edgar Vinícius | quinta-feira, 04 de Julho de 2013 - 22:03

Parabéns pela crítica.
Rodrigo Cunha, vc é o melhor =D

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