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Críticas

Cineplayers

Sem o cinismo moderno.

8,5

Maldita seja a Disney. Não apenas o estúdio impôs a marca corporativa do Mickey Mouse a várias narrativas orais readaptadas de um contador de histórias a outro há séculos, fazendo da sua versão geralmente a mais conhecida, com músicas, falas e personagens secundários que décadas de cultura pop assimilaram sem resistência. Mas também, já há alguns anos, descobriu que reutilizar-se da sua presença na memória coletiva poderia ser bastante lucrativo. E assim investiu em adaptações “modernas” de Alice no País das Maravilhas e A Bela Adormecida (que inspirou o filme Malévola). Os dois foram tremendos sucessos de bilheteria, e fracassos criativos lamentáveis. Só conseguiam “subverter” a história original a partir de pontos óbvios. A limitação imaginativa desses filmes é evidente pelo CGI que parece dirigi-los, é tudo mecânico, falso e artificial.

Cinderela, o filme que salvou a Disney da falência em 1950, foi a vítima seguinte. Ela é realmente a gata borralheira dos três.  Não tem tom épico ou história de origem para a fada madrinha. É só a Cinderela que conhecemos, a história que nossa mãe contou, como brincou um colega crítico de Pernambuco. A garota que perde os pais e depois um sapatinho e vive feliz para sempre acenando para os turistas do seu castelo no Magic Kingdom.

Abandonar esse cinismo moderno que motivou as outras readaptações foi uma escolha acertada da Disney. Ele é pobre apenas porque não tem inteligência na ironia ou no anacronismo, é puro desprezo vazio pelo convencional. Recusa o que havia antes, mas não tem nada a oferecer em troca. Kenneth Branagh é certamento o diretor para vencê-lo. Ele foi frequentemente feliz ao filmar histórias que já fazem parte da imaginação coletiva. É o que, pra mim, funciona em seu Thor, inclusive: a criação de Asgard. Branagh é um excelente mestre da ilusão, tem uma mão muito cuidadosa para efeitos especiais, o que é um alívio quando Hollywood inteira parece ter perdido o tato, cedendo a uma computação gráfica irritante e histérica.

Não achem que nego o CGI de Cinderela. Ele está lá, mas é dotado de uma magia muito própria do bom senso narrativo de Branagh, que liberta os efeitos de seus limites gráficos e os transforma em verdade. Cinderela é o exemplo de como a tecnologia poderia ser fantástica no cinema infantil se não fosse usada com tanta megalomania e tão pouca inteligência. Outra coisa que faz tudo funcionar bem é a fidelidade a uma proposta estética que vai desde os movimentos dos ratinhos até os padrões cômicos dos vestidos de baile das irmãs malvadas, a do universo particular do qual aqueles personagens fazem parte, o único lugar em que eles poderiam habitar e que só existe para servir de abrigo a eles. É dessa coerência e cumplicidade entre o sujeito e o lugar que surge a magia de uma Oz, Cherry Tree Lane ou Fábrica de Chocolates Wonka.

O “pequeno reino” de Cinderela é um desses lugares fantásticos habitados por sujeitos estranhos, de um colorido próprio. O príncipe do pedaço (Richard Madden) ganhou nome, mas continua, fiel ao desenho, uma figura curiosamente andrógina. A fada madrinha (Helena Bonham Carter) é uma bela saída cômica à Edna Moda, sua cena é uma das mais deliciosas do filme. Só não me prolongo nos elogios à participação de Carter porque as Drisella e Anastasia de Sophie McShera e Holliday Grainger são um escândalo de ótimo timing e precisão no humor visual.

É no conflito familiar que conduz a trama que estão, no entanto, as duas personagens mais interessantes do filme. Cinderela (Lily James) e Lady Tremaine (Cate Blanchett) antagonizam tal como Harry Potter e Voldemort. Tremaine é incapaz de fazer as mesmas escolhas de coragem e solidariedade que Cinderela, e isso faz com que perceba a enteada como uma ameaça ao poder estabelecido, o dela e o do reino, que tem ambição de se expandir com casamentos mais vantajosos. A Tremaine de Blanchett é louvável, de uma vilania repulsiva e fragilidade humana. A atriz tem sido com justiça comparada a Marlene Dietrich. As duas sem dúvida se aproximam na elegância de presença cinematográfica distinta.

Quando Blanchett e James dividiam a cena eu me sentia transportado para uma Hollywood de sonhos nostálgicos. O carisma e talento da moça iluminam a Cinderela em Ella. A incrível personalidade de sua atuação me impede de pensar a protagonista como apenas mais uma princesa. Ciderela é muito diferente inclusive da sua parceira animada, menos conivente e mais certa do que é o certo.

Agora, é esperar e torcer para que o respeito de Branagh à obra que dirigiu acometa também futuras contratações da Disney. Cinderela pode terminar salvando o estúdio até em sua reencarnação.

Comentários (15)

Raphael da Silveira Leite Miguel | quinta-feira, 02 de Abril de 2015 - 11:03

Assisti e gostei, e é bem como a crítica diz: uma transportação do conto das nossas infâncias para um filme live-action, sem a tal modernização que tanto a Disney insiste em acometer, e funcionou bem.

Destaque para Blanchett que cai como uma luva no papel de madrasta má, e vai muito bem. Um maravilhoso cenário de conto de fadas transportado para os cinemas, bela homenagem.

Felipe Ishac | sábado, 04 de Abril de 2015 - 07:57

Ela é totalmente loira mas a sobrancelha dela é preta. Isso me incomodou 😏😏

Michael do Nascimento Mattar | quarta-feira, 08 de Abril de 2015 - 10:37

Assisti e gostei, e é bem como a crítica diz: uma transportação do conto das nossas infâncias para um filme live-action, sem a tal modernização que tanto a Disney insiste em acometer, e funcionou bem.

Destaque para Blanchett que cai como uma luva no papel de madrasta má, e vai muito bem. Um maravilhoso cenário de conto de fadas transportado para os cinemas, bela homenagem. 😁 [2]

Luiz Fernando de Freitas | sábado, 15 de Agosto de 2015 - 11:48

Assisti também sem grandes expectativas e me surpreendi. Branagh contorna as limitações da premissa ultrapassada e apresenta um trabalho primoroso, seja na estética (direção de arte, figurino e efeitos visuais) ou no conteúdo, nos transportando para uma época em que as produções infantis encantavam pela simplicidade e honestidade de suas estórias. Blanchett esta fantástica, construindo uma vilã convincente e sem afetações. O humor inocente e inteligente também merece destaque. Faltou apenas uma narrativa mais orgânica para se tornar uma obra-prima do gênero.

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