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Perfis

Foto de Wes Craven

Wes Craven

Idade
76 anos
Nascimento
02/08/1939
Falecimento
30/08/2015
País de nascimento
Estados Unidos
Local de nascimento
Cleveland, Ohio

Filmes de terror não criam o medo. Eles o libertam.

Ao pensamos no cinema de terror, suspense ou horror é fácil evocar na memória nomes de peso como Jacques Tourneur, Alfred Hitchcock, Mario Bava, Kaneto Shindô, James Whale, Tod Browning, George Romero, Dario Argento, Roger Corman e John Carpenter. Todos contribuíram, cada qual a seu próprio modo, para a concretização, perpetuação, valorização e evolução do gênero. No entanto, um nome que merece estar nesse rol de pesos pesados é Wes Craven, um mestre absoluto que definiu e remodelou o gênero por mais de uma vez ao longo de sua carreira. Sua morte inesperada no último dia 30/08, por conta de um tumor cerebral, resultou em um vazio desconcertante para o cinema, uma posição que nenhum outro jamais esteve sequer perto de ocupar. Craven foi único.

Reservado e de poucas aparições públicas, Craven era conhecido pelos amigos mais próximos como uma pessoa de coração enorme e grande senso de humor. Isso é fácil de notar em cada um de seus filmes, que apesar de mergulhados em sua maioria no gênero terror, possuem uma sensibilidade e uma paixão singela que pulsa além da tela e contagia qualquer amante de cinema, além de carregarem consigo um humor negro da maior fineza. Pouco se sabe sobre sua vida pessoal. Nasceu em 02/08/1939 em Cleveland, Ohio, no meio-oeste americano. Wesley Earl Craven foi criado sob a rígida educação religiosa de uma família batista, por isso teve pouco contato com o cinema. Segundo ele, só lhe era permitido assistir aos filmes da Disney, ou aos filmes de Jerry Lewis e Dean Martin reproduzidos no auditório da escola no horário de intervalo.

Seu pai morreu cedo e por conta disso sua mãe teve de começar a trabalhar, deixando Craven aos cuidados dos Dalton, uma família amiga. Eddie Dalton, o patriarca, tinha o hobbie de colecionar fotografias em 8mm e pequenos filmes caseiros, e passava as tardes ao lado de Craven assistindo a filmes mudos e desenhos do Pica-Pau. As experiências com esse material foram importantes para a formação do pequeno Wesley, que começou desde então a se interessar por cinema.

O pouco de contato que teve com filmes e literatura de gênero foi o suficiente para alimentar uma paixão forte pela fantasia. Na faculdade, contribuía com matérias para revistas literárias acadêmicas e foi editor de conteúdo de uma delas por um tempo. Não à toa se enveredou pelos estudos lingüísticos e seguiu carreira breve de professor de inglês no Westminster College e no Clarkson College of Technology. Tirou sua licenciatura e mestrado em Filosofia e Escrita na prestigiada Universidade Johns Hopkins em 1964, e nesse meio tempo escreveu contos e poesias. Enquanto lecionava, comprou uma câmera 16mm e começou a filmar pequenos curtas, e sua primeira oportunidade com o cinema surgiu com a indicação de seu amigo Tom Chapin para o cargo de mensageiro em uma empresa de pós-produção em Manhattan, onde futuramente atuaria como editor de som. Em pouco tempo foi promovido à assistente do gerente da empresa e acabou parando na ilha de edição do filme You’ve Got to Walk It Like You Talk or You’ll Lose That Beat (1971), uma estranha comédia dramática dirigida por Peter Locke, que décadas depois produziria Viagem Maldita (2006), o remake de uma das obras mais famosas de Craven.

Essa foi uma porta dos fundos que se abriu para que Craven passasse a atuar no ramo cinematográfico, só que no segmento pornográfico. No documentário Entrando na Garganta Profunda (2005), o diretor admite ter realizado muitos filmes de classificação X (a mais “pesada” dos padrões americanos) sob diversos pseudônimos. Essa pegada sexual evidentemente absorvida por Craven se faria presente nos seus primeiros filmes e no nascimento de um novo tipo de terror que começou a despontar lá na Itália com Mario Bava e que viria a ganhar espaço no cinema americano no fim dos anos 1960 e início dos anos 1970. Junto de John Carpenter, George Romero, Tobe Hooper e cia., Craven incorreu em uma revolução no gênero ao tratar do medo de forma mais gráfica, explícita, sexual e sanguinolenta, diferente do até então comum trato farsesco com que o terror era pintado. O contexto social da Guerra do Vietnã e da liberação sexual favoreceu o surgimento desse cinema mais corajoso, realista, violento, agressivo e libertino. Nascia aí o primeiro cinema de Wes Craven.

“All that blood and violence. I thought you were supposed to be the love generation”.

Duas garotas jovens que são brutalmente estupradas, torturadas e assassinadas por uma gangue. É com esse ponto de partida que Craven iniciava sua carreira, através do até hoje fortíssimo Aniversário Macabro (1972) (filme que fez Quentin Tarantino querer trabalhar com cinema, segundo o próprio disse para Wes Craven certa vez), um trabalho que sofre influência direta da violência conceitual encontrada em A Fonte da Donzela (1960), de Ingmar Bergman, mas que potencializa toda essa violência a enésima escala. O filme cruza diversas referências contemporâneas e traça um retrato da geração presa no paradoxo entre paz e amor e violência estimulada pelas autoridades, e ainda coloca em evidência o tema da vingança, servindo de enorme influência para trabalhos como A Vingança de Jennifer (1978). O próprio Craven sentia certo receio diante do conteúdo sádico e escatológico da obra: “É um filme muito pesado e sinistro, e não é daquele tipo que a gente sente prazer em ver num sábado à noite. Mas muitas vezes as pessoas me dizem ‘Este é o seu melhor filme’, ou ‘É o seu filme mais emocionante’. Não sei… Ele é tão cru e horrível… Você sabe, não é aquele tipo de filme que eu vou sentar e assistir com prazer.

Seu filme seguinte segue nessa mesma linha ao contar a história de um grupo de sádicos canibais que vive escondido no deserto e seqüestra uma família que está de passagem pela região. Atmosférico, tenso, cru e chocante, Quadrilha de Sádicos (1977) é mais um trabalho que anunciava um diretor não adepto a concessões. E o mais incrível é a maturidade desenvolvida por Craven em relação a seu último filme, um amadurecimento na abordagem e uma segurança maior, que varreram aquele charme de cineasta iniciante e estabeleceram as bases para o início de uma obra que parecia enveredar para um lado totalmente obscuro e único. Os vilões de Craven não eram revestidos pela fantasia ficcional ou alegórica de zumbis, ETs, monstros ou vampiros – eles eram a incômoda e realista essência do mal existente no ser humano, sem filtros, razões ou atenuações.

Seu trabalho final na década de 1970 seria direto para a televisão, em Verão do Medo (1978), no qual novamente ele trata da vida de uma família ou de um inocente sendo corrompida por uma inexplicável força do mal. Esse era o cerne que começava a se formar em sua filmografia, sobre a cruel perda da paz, da inocência, ou o avanço cada vez mais irrefreável da violência na vida cotidiana do povo americano. Sejam duas amigas que só queriam se divertir, uma família que está curtindo as férias ou uma adolescente que recebe a visita de um primo desconhecido – todos estão à mercê de uma realidade cada vez mais cinzenta e cruel. E era com esse conceito em mente que Craven partia para a década de 1980, onde perpetuaria de vez seu nome no cinema.

“One, two, Freddy's coming for you…”

Já nos anos 1980 o terror passava por um momento delicado. No fim da década anterior o filme Halloween - A Noite do Terror (1978), de John Carpenter, ajudara a definir o padrão dos slasher movies, subgênero no qual jovens costumam fugir de um assassino mascarado e munido de algum tipo de arma branca. No entanto, quem popularizou, banalizou e barateou de fato a fórmula foi Sexta-Feira 13 (1980), de Sean S. Cunninghan, um antigo parceiro de Craven na produção de diversos filmes. A partir de Sexta-Feira 13 vieram uma leva infindável de slashers e suas continuações, e essa história se confunde com a do próprio Craven, que nesse meio se fez notar como nenhum outro diretor do gênero.

Ao invés de seguir à risca a fórmula que tanto fazia sucesso, ele optou por personalizar os filmes de terror adolescentes de acordo com sua visão cada vez mais formada e dotada de identidade própria. Benção Mortal (1981) veio como um início dessa nova fase, por se mostrar um filme imensamente mais leve do que Quadrilha de Sádicos e por apostar em um toque sobrenatural, resgatando a fantasia tão arraigada na formação do diretor. Melhor ainda, assimilava muito bem as características daquele cinema e daquela geração, abraçando sem medo o kitsch oitentista e a vibe juvenil dos anos 1980. De quebra, apresentou ao mundo ninguém menos que Sharon Stone.

Em seguida veio O Monstro do Pântano (1982), uma ficção-científica vintage baseada em um popular comic book que evoca os clássicos de monstros dos anos 1950 ao mesmo tempo em que cria uma ponte com o cinema de mutações e experimentos que andava fazendo sucesso nas lentes de mestres como John Carpenter, David Cronenberg e Stuart Gordon. Mais uma brincadeira do que qualquer outra coisa, o filme revela um Craven cada vez mais distante do terror social e escatológico de seu início de carreira e cada vez mais voltado para o universo jovem.

De tão empenhado nessa nova onda de terror adolescente, foi o primeiro a notar o desgaste precoce e a banalização pelos quais o gênero começava a passar. Infindáveis continuações e produções baratas do mais baixo nível se multiplicavam em uma velocidade assustadora, deixando claro que já estava na hora de uma urgente revitalizada na credibilidade desse tipo de cinema. Os roteiros preguiçosos e a crença de que filmes assim serviam apenas para entreter e fazer dinheiro acomodou muitos cineastas no modo automático, e logo essa situação passou a incomodar Craven, que estava no auge do seu entusiasmo.

A ideia para um novo filme totalmente diferenciado dos demais veio ao ler um artigo publicado pelo LA Times sobre relatos de homens e crianças que morreram dormindo durante terríveis pesadelos. Um dos relatos, em específico, era sobre um rapaz jovem que já estava à beira da loucura por medo de voltar a dormir e ter novamente um sonho muito estranho que se repetia noite após noite. A história remeteu Craven a seu pior pesadelo de infância: um homem estranho que o observava da rua pela janela do seu quarto.

A Hora do Pesadelo (1984) – filme que lançou Johnny Depp – nascia a partir do medo mais primário de qualquer criança: dormir sozinha. A ameaça deixava de ser externa e passava a vir de dentro da própria mente, escondida nos cantos obscuros do subconsciente e ganhando vida e forma durante os sonhos. Freddy Krueger, o pedófilo com a pele em carne viva e garras afiadas no lugar das unhas, emergia como um monstro icônico que reunia em si todas as raízes do medo e representava um perigo interno e inescapável. A Elm Street do título original era o mais macabro retrato da aparente paz dos subúrbios americanos, que aos poucos é dilacerada pelas garras afiadas de um ser maligno capaz de matar dentro dos sonhos. Como fugir dos próprios sonhos? Como escapar de si mesmo? Freddy Krueger, grande composição do ator Robert Englund, era um vilão imbatível, aterrorizador e rapidamente se tornou o maior ícone do terror adolescente, superando os também lendários Jason Vorhees, Michael Myers e Leatherface.

No entanto, não interessava a Craven criar um monstro tão onipotente a ponto de tornar irrelevante qualquer outro personagem da trama. Era preciso um contrapeso à altura do vilão para que a história não ficasse fadada ao eterno ciclo de personagens idiotas indo para o abate. Por isso Craven criou Nancy Thompson (Heather Lengenkamp), uma protagonista inteligente e ágil que procura formas de enfrentar e vencer Krueger, diferente do padrão de garotas tapadas que só escapam por pura sorte ou concessões do roteiro. Nancy é outro ponto crucial na carreira do diretor e prova sua predileção por mocinhas de fibra, capazes de criar uma dinâmica equivalente com o vilão e, justamente por isso, valorizar o enredo e conduzi-lo a um caminho que esteja fora do óbvio.

O peso de A Hora do Pesadelo redefiniu os caminhos do terror adolescente e o salvou de continuar naquele trajeto fácil de continuações burras e roteiros pífios. Foi uma prova de que era possível unir o slasher a uma trama inteligente e não ofensiva à inteligência de ninguém. Ironicamente, o próprio Craven parece não ter aprendido do legado deixado por Krueger e acabou caindo no marasmo de filmes de apelo fácil e pouca criatividade, como Convite Para o Inferno (1984), Quadrilha de Sádicos 2 (1985), A Maldição dos Mortos-Vivos (1988) e o trash total Shocker - 100.000 Volts de Terror (1989). Nesse meio tempo, tentou fazer cinema fora do gênero de terror, e sua chance veio com A Maldição de Samantha (1986), projeto de um grande estúdio e de orçamento consideravelmente alto para os seus padrões. Craven tentou fazer de A Maldição de Samantha um filme de drama, amenizando o máximo possível o horror e a ficção-científica, contudo o resultado desagradou os fãs e obrigou os estúdios a exigirem mais cenas de sangue, comprometendo assim sua ambição inicial. Mas era óbvio que seu cinema passava por uma crise criativa e acompanhava os demais cineastas ao fundo do poço com a chegada dos anos 1990 e a renovada do público-alvo daquele tipo de filme. Ele precisava de novo de um Krueger em sua vida, que viria alguns anos depois.

“Hello, Sidney!”

Os anos 1990 foram extremamente produtivos para Craven, que realizaria quatro filmes essenciais em sua carreira. O cenário de novo exigia sua intervenção, tal como aconteceu na primeira metade dos anos 1980. Os filmes de terror à moda oitentista já não colavam mais e monstros de borracha e vilões reciclados pela enésima vez foram aos poucos perdendo lugar, gerando uma crise entre os estúdios. Geralmente cada década possui seu próprio filme de terror que guia como um farol os demais sucessores, e O Silêncio dos Inocentes (1991), de Jonathan Demme, a princípio exerceu essa função nos anos 1990, trazendo Hannibal Lecter como o eleito grande vilão do cinema de todos os tempos e apostando num roteiro mais inteligente, requintado, exigido por uma geração jovem agora mais cética e menos ingênua que a antecessora.

Os slashers, dentro desse cenário, foram minguando, assim como as fantasias de horror. Craven tentou por duas vezes reverter o cenário, e a primeira vez veio com As Criaturas Atrás das Paredes (1991), considerado por muitos fãs de Craven como sua verdadeira obra-prima. Também se inspirando numa história real, sobre uma família que encontrou no porão da casa vizinha um grupo de crianças trancadas e isoladas do mundo, o diretor bolou uma história absurda sobre criaturas ocultas nas profundezas de uma casa. O filme marca um amadurecimento muito visível e importante na carreira de Craven, que domina aqui como ninguém o controle de sua atmosfera, e faz dela seu ingrediente principal. Infelizmente, passou praticamente batido e não surtiu efeito no público ou na crítica.

Descrente com tamanha crise criativa na indústria, o cineasta tentou pela primeira vez reverter essa maré baixa em um argumento para um novo filme. Surge a ideia de ressuscitar seu mais famoso vilão – que já havia sido totalmente banalizado em continuações pífias – através de um delicioso jogo metalinguístico, no qual o próprio Craven em pessoa se inclui. Novo Pesadelo - O Retorno de Freddy Krueger é uma espécie de de Wes Craven, uma brincadeira sem delimitações entre a encenação e o documental no qual os atores se desprendem de seus personagens e os confrontam, e o Freddy Krueger em pessoa adentra na “realidade’ e passa a perseguir o elenco verdadeiro – tudo para questionar os rumos incertos que a indústria tomava. O diretor, junto da atriz Heather Lengenkamp e do ator Robert Englund são organicamente assimilados dentro do universo de horror fictício de A Hora do Pesadelo e passam a atuar como personagens conscientes das estruturas ficcionais da produção. Difícil de entender? Aparentemente o público também não estava preparado para esse genial insight metalinguístico e novamente Craven acabou passando batido.

Pulando a tolice que foi Um Vampiro no Brooklyn (1995), uma patética comédia de terror estrelada por Eddie Murphy e certamente o título mais descartável na carreira de Craven, vamos direto para o que interessa: o telefone tocando. Um dos encontros mais fortuitos e felizes da história do cinema foi o de Wes Craven e o roteirista Kevin Williamson, um aficionado por filmes de terror com um argumento genial para contornar e superar a crise. Pânico (1996) nasceu desse encontro e mudou para sempre os rumos do cinema de terror americano.

O telefone toca, Drew Barrymore atende e uma voz sinistra começa a conversar com ela sobre filmes de terror. Conversa vai, conversa vem, e de repente ela percebe que está falando com um psicopata que promete lhe matar caso responda errado suas pegadinhas sobre filmes de terror. A pergunta retumba até hoje no imaginário coletivo jovem: “What’s your favorite scary movie?”. O cinema não seria mais o mesmo depois de Pânico, um satírico jogo metalinguístico que faz um apanhado geral das regras dos filmes de terror jovem, as questiona, subverte e depois as reusa dentro de seus próprios e criticados clichês. Referencia toda uma mitologia lançada por Carpenter em Halloween, joga em cena a musa dos slashers, Sidney Prescott (Neve Campbell), e alça o famoso Ghostface ao maior ícone jovem das gerações futuras. Pânico não apenas reinventou um gênero como também o perpetuou para nunca mais sair de moda.

O sucesso foi tremendo e logo Craven estava de novo de volta ao topo com a continuação Pânico 2 (1997), outro insight metalinguístico sobre a relevância das continuações dos filmes de terror, e Pânico 3 (2000), uma infeliz derrapada que hoje só é reconhecida como válida pelos fãs mais devotados do mestre. Nesse meio tempo, com a credibilidade que conquistou, pode finalmente produzir seu tão sonhado filme dramático, dirigindo ninguém menos que Meryl Streep no belo Música do Coração (1999), reconhecido pela Academia com duas indicações ao Oscar, nas categorias de melhor canção original e melhor atriz.

“Don’t mess with the original!”

Após o fiasco de Pânico 3, que ao menos foi um sucesso de bilheteria e consagrou a trilogia como uma das mais bem sucedidas do gênero, Craven passaria por um hiato na direção para cuidar de problemas pessoais e atuaria apenas como produtor e escritor, só voltando cinco anos depois com dois lançamentos. Amaldiçoados (2005) foi uma decepção colossal para os fãs que sonhavam em ver uma nova parceira de Craven e Williamson, enquanto Vôo Noturno (2005) fez sucesso nas bilheterias e reapresentou algumas constantes de seu cinema bastante apagadas em um suspense diluído e formulaico, ainda que bastante divertido.

Produziu o remake de Quadrilha de Sádicos, Viagem Maldita (2006), e o remake de Aniversário Macabro, A Última Casa (2009), estando neste último ao lado de Sean. S. Cunninghan. Nenhuma das refilmagens chegou sequer perto de alcançar o primor das obras originais, por mais que contassem com sua supervisão, e logo ficou claro o iminente novo desgaste acometendo a indústria dos filmes de terror, que agora estavam novamente no piloto automático de refilmagens e releituras de grandes clássicos, ou simplesmente repetindo a fórmula de Pânico. Após filmar um segmento romântico no projeto coletivo Paris, Te Amo (2006), Craven notou novamente a necessidade de agir para salvar o gênero que já lhe era considerado um filho.

Sua primeira tentativa de reerguer o cinema de terror jovem veio com A Sétima Alma (2010), um trabalho conceitualmente interessante e promissor, mas que foi prejudicado por uma aparente crise criativa de Craven. Sua incapacidade em aproveitar o material que tinha em mãos fadou o projeto ao fracasso de crítica e público, e hoje é bem visto por quem estiver com muita boa disposição de relevar as falhas grotescas na direção e os ofensivos furos de roteiro.

Seu canto de cisne precoce, Pânico 4 (2011), o redimiu do fiasco de A Sétima Alma e ainda o recolocou no pódio de diretores mais influentes e importantes do cinema americano. Embora tenha fracassado nas bilheterias americanas, o filme fez um inesperado sucesso mundo afora, reafirmando o prestígio que a série tinha entre os fãs do diretor. Mais uma vez sagaz, observador e capaz de se reinventar, Craven se juntou a Williamson para enxergar o cenário de crise atual e revertê-lo num bom argumento. Agora com uma geração on-line ainda mais fria e cética do que a noventista, acostumada a refilmagens e filmes cada vez mais violentos e reciclados, o Ghostface foi remodelado e sua necessidade de filmar em tempo real os assassinatos bate de frente com o método tradicional da mocinha Sidney de lidar com a situação.

Mais que uma continuação relevante e extremamente atual, Pânico 4 exerce também a função de rir de si mesmo, repensar a influência positiva e negativa da série sobre o cinema jovem, cutucar a indústria preguiçosa de remakes ofensivos, e ainda lançar bases e regras remodeladas para os futuros cineastas. Genial em todas as suas sacadas, chega muito perto de se tornar a obra-prima do cineasta, fechando com chave de ouro uma carreira que, mesmo apontada por muitos como irregular, é de uma riqueza sem igual. A série homônima lançada neste ano contou com alguns palpites de Craven na produção, e agora foi noticiado que o último episódio da temporada prestará uma homenagem a ele.

Ao longo de sua carreira, Craven foi capaz de se reinventar e se analisar durante o próprio processo de amadurecimento e evolução, como poucos cineastas foram capazes de fazer. Se por um lado garantiu seu nome como um dos mais influentes e canônicos entre o cinema americano (talvez seja o diretor mais relevante dos filmes juvenis oitentistas, ao lado de John Hughes), por outro foi capaz de engrandecer o gênero com os mesmos ingredientes capazes de rebaixá-lo, perpetuando sutilmente seu significado na cultura pop mundial por meio de nomes como Freddy Krueger, Ghostface, Sidney Prescott, Woodsboro e Elm Street. Que sua morte triste, repentina e precoce sirva ao menos para refrescar na memória do público sua importância vital dentro do terror, sendo o único ao longo de mais de três décadas a reinventar a si mesmo ao mesmo tempo em que reinventava um gênero, o que só prova que seu cinema foi um espelho de várias gerações e a base para a evolução do terror jovem no território americano – e que seus filmes continuem exercendo a nobre função de libertar, com muito humor e tensão, os nossos mais profundos medos.

Agradecimento especial à colaboração do leitor e colaborador Ítalo Lobo na pesquisa de material para a realização deste texto.

Para maiores informações sobre vida e obra do cineasta uma leitura recomendada está no livro Wes Craven – The Man and His Nightmares, de John Wooley.

Filmografia

Título Prêmios Ano Notas
Pânico
Fred, o zelador
1996
7,5
7,6
Pânico 2
Médico
1997
6,1
6,4
Pânico 3
Homem com a câmera no estúdio
2000
4,9
5,4
Vôo Noturno
Passageiro no avião
2005
5,8
5,9
1994
6,5
Diário dos Mortos
Jornalista (voz)
2007
5,8
6,2
2005
2001
4,2
5,4
1989
5,6
Trilogia do Terror
Pasty Faced Man
1993
6,7
2006
Medo, O
Dr. Arnold
1995
2010
1996
2013
The Fireworks Woman
Nicholas Burns
1975
Título Prêmios Ano Notas
Freddy vs. Jason
personagens
2003
5,0
Hora do Pesadelo, A
Roteirista
1984
7,0
7,3
1985
5,3
1987
6,0
1988
5,6
1989
4,4
1991
4,5
1994
6,5
Viagem Maldita
filme original
2006
5,9
6,4
1972
6,5
6,4
Pulse
Roteirista
2006
3,0
2007
4,1
Última Casa, A
filme de 1972
2009
5,6
Hora do Pesadelo, A
personagens
2010
4,7
1977
6,8
Sétima Alma, A
Roteirista
2010
4,2
1991
6,4
6,7
1989
5,6
1985
Benção Mortal
roteiro
1981
1982
Night Visions
Roteirista
1990
The Fireworks Woman
Roteirista
1975