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Críticas

Cineplayers

Lembrado principalmente pela sua surpresa final, filme de Bryan Singer tem muito mais a oferecer do que os últimos minutos.

8,0

Este texto contém revelações sobre a trama. Leitura recomendada somente a quem já viu o filme.

É curioso analisar a ação do tempo sobre filmes como O Sexto Sentido (The Sixth Sense, 1999), Clube da Luta (Fight Club, 1999) e este Os Suspeitos. Recebidas com entusiasmo à época de seus lançamentos, as produções, com o passar dos anos, se tornaram lembradas quase unicamente por suas revelações finais, sempre figurando entre as mais impactantes da história do cinema. No caso de Os Suspeitos, por mais que o final seja um dos principais momentos da obra – talvez o principal –, o filme tem muito mais a oferecer, com uma trama inteligente, muitíssimo bem amarrada e contada de forma elegante, além de propor uma interessante reflexão sobre a verdade no cinema.

Escrito por Christopher McQuarrie, Os Suspeitos é o segundo trabalho de Bryan Singer na direção – cineasta que viria a se tornar conhecido do grande público ao dirigir X-Men – O Filme (X-Men, 2000), ponto de partida definitivo para a febre das produções baseadas em histórias em quadrinhos. Com uma produção modesta, de apenas 6 milhões de dólares, e nenhuma grande estrela no elenco, Os Suspeitos foi uma das grandes surpresas de 1995, tendo inclusive abocanhado os Oscars de melhor ator coadjuvante e melhor roteiro original. Ainda hoje, aliás, o filme é mais lembrado por este último aspecto, o que não deixa de ser uma injustiça com o belíssimo trabalho de Singer no comando da obra.

Claramente inspirado nos filmes noir da chamada Época de Ouro de Hollywood (apoiado pela ótima trilha sonora), o cineasta conseguiu criar uma ambientação praticamente impecável para o universo vivido por aqueles personagens: a plateia sente, a todo momento, que a história se passa à margem da sociedade, em um dia a dia no qual o crime é situação comum. A construção desta atmosfera ainda cresce através da elegância com a qual Singer conduz a sua câmera, sempre com movimentos precisos e sem afetações, servindo a propósitos bem definidos. É o caso, por exemplo, do assassinato testemunhado pela plateia pela janela de um barco, da grua que sobe a câmera a partir do detetive para revelar o navio em chamas e a revelação de Verbal Kint na cela, após longos minutos de conversa entre os personagens sem mostrar o aleijado.

Como se não bastasse a sensata economia de Singer em sua mise-em-scène (que, por sinal, não deixa de ser louvável para um novato), o cineasta ainda é hábil ao montar a sua intrincada narrativa, que se passa paralelamente em dois períodos distintos. A utilização de tal artifício é sempre arriscada, mas Singer e o editor John Ottman contornam o problema sem grandes dificuldades, mantendo as transições sempre fluidas e o filme constantemente em ritmo. Muito disso se deve também ao roteiro de Christopher McQuarrie, que consegue se manter ágil e levando o enredo sempre para a frente – a história é orquestrada em um crescente, começando de forma quase despropositada até chegar à impactante revelação final.
 
Aliás, o roteiro de McQuarrie é, indiscutivelmente, referência de uma história bem construída. Os Suspeitos não pode ser considerado um estudo de personagens (ainda que todos eles sejam construídos de forma eficaz), mas tudo o que está presente no filme tem um propósito no plano geral, desde as supostamente incoerentes falas de Kint sobre catar feijões na Venezuela até a forma com a qual os personagens seguram a arma. Esta coerência, mais do que dar ao espectador o prazer de assistir a algo realizado com inteligência, faz com que a obra seja um daqueles raros exemplares cinematográficos que valem a pena assistir mais de uma vez, para captar a riqueza dos detalhes e acompanhar a jornada dos personagens com outros olhos.

Além da trama muitíssimo bem amarrada e dos inesquecíveis diálogos (“O maior truque do Diabo foi convencer o mundo que ele nunca existiu” – frase atribuída ao poeta Baudelaire, mas tornada popular aqui), outro grande mérito de Os Suspeitos é a construção do mito em torno daquele que, aos poucos, se revela seu personagem principal: Keyser Soze. Mencionado pela primeira vez apenas na metade do filme, Soze permanece até o final como um grande mistério, uma espécie de entidade diante da qual os próprios criminosos sentem-se apavorados. À medida que a narrativa avança, a plateia sente, assim como os demais personagens, que Keyser Soze realmente não é alguém com quem se deva brincar, percepção que a revelação ao final apenas corrobora – não é à toa que Soze é normalmente lembrado em listas compilando os maiores vilões da história do cinema.

A impactante resolução de Os Suspeitos ainda propõe uma reflexão interessante em relação à própria arte. O cinema é, por essência, uma grande mentira se passando por verdade. O espectador sabe que está vendo uma encenação, mas escolhe acreditar que aquilo pode ser real, aceita ser “enganado” pelo diretor. Em Os Suspeitos, Bryan Singer e Christopher McQuarrie acabam revelando que não tinham a menor intenção de construir uma suposta verdade. Ao final da obra, a plateia não sabe o quanto do que assistiu foi real (mesmo dentro do próprio universo fílmico) e o quanto foi imaginação, uma fantasia inventada pelos personagens. Os Suspeitos pode ser uma mentira dentro da mentira, o que dá ao filme uma nova e extremamente bem-vinda possibilidade de interpretação.

Somando-se a todas estas qualidades, as atuações também são um destaque à parte. A estrela, obviamente, é Kevin Spacey, que conduz o filme de forma brilhante com uma composição impecável de personagem, desde os aspectos físicos até o modo de falar. Como se não bastasse, o ator ainda aproveita algumas cenas para entregar pequenas dicas sobre a verdadeira natureza de seu personagem, como quando parece dar risadas no instante em que o detetive está às suas costas. Enquanto isso, Gabriel Byrne constrói outro personagem interessante, envolvendo Keaton em uma aura de mistério e até um pouco de tragédia, ao não conseguir fugir de sua natureza criminosa. E Benicio Del Toro praticamente rouba todas as cenas em que aparece com a pronúncia ininteligível (e divertidíssima) de Fenster.

Mesmo perdendo um pouco de sua força no tiroteio do barco – quando deixa a inteligência de lado para focar em uma cena de ação genérica –, Os Suspeitos segue, quinze anos após o seu lançamento, como um grande filme e um dos melhores thrillers da década de noventa. Uma obra Inteligente, atmosférica, elegante e muito bem interpretado.

O final, impecável narrativamente e ainda hoje impactante, é apenas a cereja do bolo.

And like that, poof, he’s gone.
Verbal Kint

Comentários (4)

Victor Hugo Paiva Coelho | segunda-feira, 07 de Novembro de 2011 - 21:55

Final absurdo!!! Sem noção e sem comentários.
Mas o desenrolar do filme, não deixa você tirar o olho do filme. As sacadas de câmeras são geniais. Merece ser visto de novo!

Araquem | terça-feira, 03 de Fevereiro de 2015 - 13:47

Depois de Planeta dos Macacos(68),é o final mai surpreendente que já vi!!!
Ah sim,o filme é ótimo!

Jardel Fermiano | domingo, 24 de Abril de 2016 - 16:26

Levando em conta toda essa enganação citada na crítica acabei adivinhando sobre Soze na metade do filme e não tive a experiência da surpresa (se analisarmos, estava meio que na cara; atuação do Spacey; sua posição na trama, etc.), mas sim consegui apreciar o momento. Bem envolvente.

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