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Star Wars Episódio IX - A Ascensão Skywalker

(Star Wars: Episode IX - The Rise of Skywalker, 2019)
6,0
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125 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

A conclusão satisfatória

4,5

O que é Star Wars, essa saga de fantasia tão presente na configuração do cinema hollywoodiano? A minha referência, no Brasil, é de um conjunto de filmes chamado Guerra nas Estrelas, mas esse título em português já não existe: uma aparição local das várias renomeações pelas quais os filmes passaram. Capítulos renumerados, o aviso de que estávamos acompanhando uma “Saga Skywalker”, de nove partes, e um cânone reformulado são algumas das transformações que não apenas preparam o terreno para produções novas, mas estão sempre ressignificando o que já foi visto (algumas vezes, editando obras anteriores para produzir uma coesão renovada).

Star Wars pode ser, e já foi, coisas muito diferentes. Há diversas formas de se apropriar da saga, como percebemos no conflito entre distintos cânones e gerações (e outros indicadores de identidade) de fãs. Em parte, isso é possibilitado pela simplicidade da história original: uma jornada do herói que abre caminhos para dentro de um universo e mitologia mais amplos. Desse modo, quando J.J. Abrams, diretor de Star Wars: A Ascensão Skywalker (Star Wars: Episode IX – The Rise of Skywalker, 2019), afirma que está dando uma conclusão coerente para a saga, devemos entender antes que saga é essa a partir da qual a coerência pretende ser produzida.

É notável, já antes do filme, que essa suposta coesão narrativa com a série se opõe a Os Últimos Jedi (Star Wars: Episode VIII – The Last Jedi, 2017). Há muito que parece incomodar Abrams no tratamento de Rian Johnson para a trama. E isso é compreensível: são apropriações diferentes de Star Wars, ambas coerentes, ambas possíveis. Enquanto Johnson recusa a dualidade da força – o bem e o mal incorporado pelos Jedi e Sith, respectivamente –, Abrams abraça esse resquício da simplicidade do que hoje chamamos de Uma Nova Esperança. Mais do que isso, no entanto, ele o torna simplista.

O enredo de A Ascensão Skywalker se desdobra da seguinte maneira: Palpatine está vivo, sua presença é sabida através da galáxia, e os heróis, especialmente Rey (Daisy Ridley) embarcam numa jornada para encontrar a localização do antigo imperador e confrontá-lo. O que ocorre, enfim, é uma série de eventos que parece ter a função única de nos fazer chegar, com o filme, em um determinado lugar. A Ascensão Skywalker, porém, parece estar muito satisfeito com o modo como se organiza em direção a uma conclusão dita “satisfatória”.

Esta, todavia, é mais uma restauração de temas menos interessantes da saga. Enquanto Os Últimos Jedi aponta para uma ruptura (uma que, inclusive, é bastante coerente com a trilogia de prólogo), o novo busca um retorno ao ponto de partida. Há pouca complexidade nesse retorno. O dualismo é restaurado, contradizendo algo que aparece até nesse mesmo filme. A força é duas divididas em duas (bem e mal), e não duas em uma (ou múltiplas, como algumas das ramificações mais interessantes desse universo sugerem).

É muito evidente a tentativa de devolver essa simplicidade aos fãs. Há aí uma ideia de “se dar ao público o que o público quer” que é não apenas terrivelmente condescendente, mas que conta com uma falsa universalidade dos espectadores de Star Wars. E essa tentativa se manifesta em uma sequência de acontecimentos que procuram apenas provocar uma nostalgia que não é compartilhada ou distribuída com a homogeneidade que A Ascensão Skywalker espera que seja. O resultado é uma série de apelos que parecem encontrar menos recepção afetiva do que era planejado – o que é compreensível, considerando que o texto do filme tem uma dificuldade de até sustentar muitas dessas provocações.

Para além disso, A Ascensão Skywalker está tão imerso nessa jornada por uma conclusão satisfatória que, no caminho, desconsidera alguns momentos cruciais para nossa ideia de Star Wars como um grande legado (a moral a que o filme procura chegar). A morte de Carrie Fisher, um acontecimento que se interpôs na nova trilogia, é considerada de forma mais respeitosa em relação ao que a atriz significa para a saga em Os Últimos Jedi – e até Rogue One (Rogue One: A Star Wars Story, 2016), concluído antes da morte da atriz, faz uma reflexão mais interessante de seu legado. A Ascensão Skywalker, se consegue ser aquilo que silenciosamente prometia – um retorno ao Star Wars amado pelos fãs (essa massa sem corpo, sem outra identidade além de “fã”) –, a configuração da saga que restaura é aquela que menos me interessa. A galáxia, no entanto, é de fato ampla – e podemos esperar que novas histórias descobertas nela encontrem rumos mais corajosos.

Comentários (7)

CitizenKadu | sexta-feira, 20 de Dezembro de 2019 - 00:08

Bernardo Brum e Rodrigo Cunha, gostaram dos dois filmes anteriores da mesma maneira que eu. Não "da mesma maneira",não sei, mas deram bons ratings. Então o que o Cunha quis dizer é que este filme é que transforma a trilogia nova numa zona, isso?
Se for assim, temos dois filmes bons(ainda não vi esse, e estou meio "whatever");para 3 péssimos ruins das prequels, nós temos 2 filmes bons nas sequels. O primeiro eu achei um ótimo equilíbrio entre fan-service e reboot, talvez a única forma de startar uma nova trilogia. O segundo é bonito, mais original, cheio de conflitos e com um final poético: foi a força voltando, não miticlorions ou seja lá o nome daquelas merdas de lactobacilos vivos. Eu quero que Kathleen Kennedy(Disney não tem nada a ver com as escolhas)ganhe em pontuação do estéril George Lucas, estéril em todos os sentidos.

CitizenKadu | sexta-feira, 20 de Dezembro de 2019 - 00:14

E eu já apostava aqui que o filme ia ser mediano por uma razão: cederam à pressão de um monte de nerd de 40 anos que se vestem igual ao Kevin Smith e não deixaram o roteirista e diretor de "O último Jedi" concluir.Tudo isso por besteiras tipo: "O que fizeram com o Luke foi uma afronta!!", que é coisa meio de moleque que reclama do Luke novo, mas volta a ver o Darth Vader que bate puneta durante 10 anos para uma princesa que ele não vê desde os 8 anos, enquanto ele devia estar treinando o corpo e a mente, porque era pra ele ser o JEDI MAIS FODA DA GALÁXIA!!Mas não, ele virou um fascista que escuta Linkin Park no quarto.

Rodrigo Cunha | sexta-feira, 20 de Dezembro de 2019 - 07:30

Acho os dois primeiros filmes dessa nova trilogia, individualmente, muito divertidos. O 7 tem aquele ar nostálgico, muito fã service, introdução dos personagens e várias boas cenas de ação. O 8 segue por um caminho diferente, mostra a dualidade da força e como as pessoas comuns podem também tê-la, como aquele menino no final, além de visualmente ter uma personalidade muito forte (aquele salão vermelho do Snoke, por exemplo) e visualmente é absurdo (a nave sendo usada na velocidade na luz contra outra, a luta no solo de sal). O 9 não tem nada disso. É emocionalmente raso, a história, que sempre foi uma bagunça, não vai a lugar algum, as cenas são mais fracas e falta algo visualmente marcante.

A nova trilogia é desorganizada. Faltou planejamento sobre qual história queria se contar, não se vai de um ponto A e chega um ponto B. O 7 arranhou a história de um novo DV despreparado, o 8 reforçou isso mas não saiu muito do lugar, além de ter sido diferente, e o 9 tenta corrigir.

Rodrigo Cunha | sexta-feira, 20 de Dezembro de 2019 - 07:34

O que me parece é que esse 9 simplesmente tenta corrigir os conceitos que foram criados no 8 ao invés de tentar contar alguma história, que nessa trilogia nova falta um foco principal e acaba sendo uma reunião de acontecimentos sem um fio condutor forte. Faltam os conceitos da série, os diálogos auto ajuda acabaram ficando rasos demais e a conclusão da relação entre os personagens foi insatisfatória.

Como eu disse, claramente faltou planejamento, uma história principal e, principalmente, comando de alguém que sabia o que estava fazendo e para onde a série deveria ir.

São filmes ruins? Não. Mas falham como obra maior conjunta.

CitizenKadu | sexta-feira, 20 de Dezembro de 2019 - 12:17

Eu entendi e concordo com a definição dos dois primeiros, talvez com a diferença que fui meio bitch para estes filmes. Não ache que o segundo tenha algo a "ser corrigido", talvez a "ser continuado", porque como tu disse não era só o visual, mas a última cena com o garoto usando a força para pegar a vassoura e antes disso encenando o duelo do Luke que nos deixava alertas de que eles realmente estavam conseguindo criar algo novo em cima da trilogia inicial, sem aquela sensação de reboot do primeiro.
Mas saí entra aquela questão do coração.Alguém aqui acha que "O Retorno de Jedi" atrapalha o conjunto da obra?Eu adoro. Mas Star Wars é a franquia que todo cinéfilo que é fã gosta mesmo é de 2 ou 3 filmes....e são 9.
E eu tenho uma confissão a fazer pai, espero que isso não decepcione o lado conservador do senhor:"Eu gostei de "Solo"'.

CitizenKadu | sexta-feira, 20 de Dezembro de 2019 - 12:19

Mas pelo o que eu conheço do teu perfil cinematográfico Cunha, ou o que tu deixa transparecer, o filme deve ser fraco mesmo. Porque tu não cai nem na idolatria e nem na iconoclastia.

Alan Nina | sexta-feira, 20 de Dezembro de 2019 - 16:31

Cunha, como exigir planejamento de uma trilogia que é explorada de acordo com o ânimo da crítica/ dos fãs? Isso me parece com as novelas da Globo tendo que mudar o roteiro por conta da recepção do público. Não que isso seja ruim. Mas no caso , está sendo.

Rodrigo Cunha | sexta-feira, 20 de Dezembro de 2019 - 18:17

Me parece que foi o seguinte:

7 - Excelente introdução aos novos personagens e uma boa dose de nostalgia. Excelentes cenas visuais.
8 - Trouxe algo novo, também era muito forte visualmente, mas faltava uma história principal como tinha nas duas outras trilogias.
9 - Voltou o primeiro diretor pq o segundo mudou demais a franquia, o conceito da força, renegou personagens criados e mais uma vez apelou pra nostalgia - que é linda de se ver, óbvio, mas num contexto GERAL, é falho. Cagaram a origem da Rey, ignoraram a Rose, enfiaram uma personagem negra só pra estar com o Finn, voltaram com um personagem clássico por voltar e por aí vai.

Sobre o que é essa terceira trilogia, afinal? De novo a luta contra o Império?

Gosto dos filmes individualmente, mas vejo essa falha como saga. Ainda assim, é Star Wars e um filme ruim do Star é muito acima da média. É como um jogo do Mario ou Zelda ruins, ainda são melhores do que a maioria que sai no mercado hahaha.

Rodrigo Cunha | sexta-feira, 20 de Dezembro de 2019 - 18:19

Eu não ligaria pra isso tudo se o filme fosse divertido e tivesse, assim como os dois primeiros, set pieces divertidos, cenas que fossem emblemáticas e lembradas. O 9 é o mais fraco dos 3 nesse ponto e a conclusão dos protagonistas ficou nível novela das 6. Isso que a galera tá revoltada.

Por isso que eu digo que faltou planejamento... Os acontecimentos principais que deveriam ter para poder deixar na mão dos roteiristas desenvolverem. É uma trilogia que sai do nada e chega a lugar nenhum. Pelo menos os dois primeiros são divertidos, esse também é, mas numa escala bem menor.

Ted Rafael Araujo Nogueira | sexta-feira, 20 de Dezembro de 2019 - 21:27

Se conseguirem fazer algo mais medíocre que o Despertar da Força, merecem uma medalha. Mas, desde já, o JJ Abrams é fraco na direção.

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