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Sexta-Feira 13

(Friday the 13th, 1980)
6,5
Média
309 votos
?
Sua nota

Críticas

Cineplayers

O horror contemporâneo

4,0

Se existem filmes que provocaram, ou melhor dizendo, acompanharam uma mudança no processo cognitivo das pessoas, Sexta-Feira 13 e suas continuações (e imitações) podem ser considerados alguns deles. Pela deliberada ausência de desenvolvimentos narrativos e psicológicos, no que reduz o espetáculo a uma condição de esqueleto, de um arcabouço mais do que básico não maior do que o entrevisto pela sua própria essência. No que influenciaria até mesmo os filmes de ação que se seguiriam, com personagens que provocam destruição ao mesmo tempo que parecem indestrutíveis, quebrando as regras não somente de lógica quanto de plausibilidade. Sexta-Feira 13, enquanto terror, obedece a essa estrutura em que a ação precisa avançar, a ação não podendo parar depois de um relativo tempo de intervalo, além de uma relação de custo e ganho de “quanto pior, melhor”. O que se caracterizaria como uma ousadia justamente pela falta de densidade e de preocupação estéticas e com o psicológico.

A partir do sucesso de Halloween – Noite de Terror (Halloween, 1978), que seguia as lições de Alfred Hitchcock de manipulação do olhar e de perspectivas com seus movimentos de câmera, tornando-se o filme independente de maior sucesso até então (no sentido de o que menos custou e mais faturou), Sexta-Feira 13 retoma algumas ideias de Psicose enquanto argumento: a de uma mãe psicótica a assassinar um a um os invasores do território em que se enclausura com a sua demência. E quando muito com alguma referência no uso bem mais pobre da trilha sonora. Tudo o que era sugerido em Psicose (Psycho, 1960), as grandes quantidades de assassinatos que poderiam ter ocorrido, e que estimulavam a nossa imaginação (e emoção), em Sexta-Feira 13 era materializado em tela com certo abuso gráfico para com a sanguinolência, dispensando uma classe e domínio da linguagem cinematográfica pelo qual prezava o primeiro Halloween. Além de que grande parte do terror do cinema americano mais sanguinolento surgido por volta de 1980 era uma diluição do terror italiano, por vezes suavizado, pasteurizado, e sem o mesmo brilhantismo.

O espaço em Sexta-Feira 13 era  transposto para o isolamento de uma colônia de férias no Crystal Lake, com o lago e a floresta por perto, delimitando o confinamento no qual seria difícil a fuga ou solicitar auxílio, remetendo a uma ideia de um clássico dos anos setenta, Amargo Pesadelo (Deliverance, 1972), em que executivos bem-sucedidos da cidade enfrentam os habitantes dos arredores de um campo onde vão passar o fim de semana. Ainda assim, o primeiro Sexta-Feira 13 reforça uma sensação de irrealidade levando em conta quem comete os assassinatos (muito mais do que a conhecida suspensão da descrença, da qual se deve levar em consideração no contato com qualquer obra de arte), e quando a figura do assassino divide a cena com a última vítima, numa dimensão quase camp, o ridículo toma conta por inteiro.

Não se trata da luta do bem contra o mal, típico nas grandes obras do horror na literatura e no cinema, e bastante presente em filmes como os de John Carpenter – inclusive no próprio Halloween, com o personagem do médico interpretado por Donald Pleacense – ou nos do britânico Terence Fisher, não apenas em suas releituras de clássicos do gênero, como também em obras como A Górgona (The Gorgon, 1964) e As Bodas de Satã (The Devil Rides Out, 1968), em que Christopher Lee ocupa uma posição de destaque ao interpretar o combatente das forças do mal, reperspectivando o nosso olhar quanto à sua figura icônica. Os exemplares de Sexta-Feira 13 e na maior parte do terror contemporâneo beiram a abstração, um encolhimento do mundo, e não a expansão de uma forma de consciência. Onde o mal é onipresente, está em toda a parte, e os demais personagens existem unicamente como vítimas, e representantes de uma inocência próxima da alienação, do próprio vazio, não sendo estereotipados além de uma maneira rasa (no caso de Sexta-Feira 13, figuras bonitas e simpáticas). Mesmo os que sobrevivem no fim raramente encarnam o espirito de luta contra o mal, somente estão imbuídos pelo esforço da sobrevivência. E suas vitórias se caracterizam como uma breve derrota desse mal, mais como um intervalo justamente para que ele possa ressurgir e continuar a sua fatura nos exemplares posteriores. É o horror esgotado e diminuído à sua estatura menos significativa, mais pobre.

Rever em alta definição este primeiro filme da série nos faz perceber um cuidado na composição de cores na fotografia, que passava despercebido quando o assistíamos com imagem desbotada em velhos VHS ou reprises na televisão. Muito da mitologia em torno da série se formou principalmente em suas constantes exibições nos canais de TV e no auge dos videocassetes, que ocupavam um espaço popularesco ainda mais amplos anteriormente destinados aos drive-ins. Nenhuma das sequências rendeu tanto nas bilheterias quanto o primeiro filme. São filmes razoavelmente divertidos, especialmente para ver em grupo ou em casal, levando em conta que o espetáculo da violência ali contido possui algo de pornográfico. O seu legado é negativo pela grande quantidade de espectadores que o tinham como suprassumo não somente do gênero, mas muitas vezes de todo o cinema. Muita coisa se perderia a partir de Sexta-Feira 13 nos últimos quarenta anos, num estrago (acompanhado de uma inegável diversão) talvez maior fora do que o estrago irreal acompanhado na tela.

Comentários (9)

CitizenKadu | terça-feira, 09 de Junho de 2020 - 12:17

Discordo dessa análise. Primeiro que há um elitismo por trás. Segundo que há uma má interpretação do legado de Hitchcock, considerando que a influência italiana, que tu citaste, mas contrapondo a algo mais sem sofisticação e pasteurizado(ora, se não tem características próprias do barroco típico da Itália, a comparação pejorativa é rasa),bem, se dissertar para outro lado, considerando o trabalho que viria com os italianos e com o próprio Carpenter, a maior lição de Hitchcock no cinema, exposta por ele na entrevista com o Truffaut, de que o enredo pouco importa em frente ao visual e em frente à manipulação fácil do público estava atingindo orgasmos em 1980.Se não é sofisticado essa visão, então perante a obra de Hitch, o próprio giallo seria algo vulgar...mas é uma distorção que se faz entre diferentes países e entre diferentes visões autorais.

CitizenKadu | terça-feira, 09 de Junho de 2020 - 12:19

Pegando "Halloween", as técnicas hitchcockianas estão muito acima da coerência do roteiro e até mesmo dessa restrição de que tem que haver um maniqueísmo bem vs mal para se construir o que eu chamo de experiência sensorial dentro da estética.O problema é o preconceito em relação ao Cunningham, que não criou uma base sólida filmográfica durante anos como Carpenter. Cabe lembrar que a referência à Psicose está inclusive nos primeiros brilhantes minutos, o prólogo, onde quem aparenta ser protagonista é eliminada.Assim como na trilha sonora/colagem/experimental.É um trabalho tão "estudantil" e "jovem" em matéria de experimentar sobre os ombros dos ídolos quanto o do Carpenter, e a técnica de câmera de Cunningham por vezes supera o próprio Carpenter por criar uma aleatoriedade entre o subjetivismo do diretor com a visão do assassino, confundindo o espectador e criando tensão em planos-sequências estáticos.

CitizenKadu | terça-feira, 09 de Junho de 2020 - 12:20

Quanto ao conteúdo pornográfico da violência, esta é uma visão muito conservadora em relação ao cinema que se tentava criar naquela época, que seria uma explosão dos herdeiros de Antonin Artaud que descarregavam tanto a violência quanto a pornografia no surrealismo, quanto alguém como Lucio Fulci que como um historiador de arte transpôs o conceito de, se tu tem um parque de diversões, não subestime e não intelectualize toda hora o trem-fantasma, afinal o cinema é um parque de diversões, de sensações, ou de reflexões: cada uma destas características se combinam dependendo do autor, da proposta e do contexto social-histórico. Cunningham vinha da boca do lixo, e inspirado pela moda da época usou essa sensação e esta ideia hitchcockiana e italiana de visual sobre o enredo como um dos maiores exercícios técnicos no slasher americano contra o obstáculo do verossímel.Suas vertentes poderiam resultar no torture porn, mas na época de Tom Savini o que havia era subversão...

CitizenKadu | terça-feira, 09 de Junho de 2020 - 12:21

...e não gratuidade.

CitizenKadu | terça-feira, 09 de Junho de 2020 - 12:22

Só quero me corrigir em relação a Fulci, que não era historiador da arte, ele era crítico...mas pra mim todo crítico tem que ser ao mesmo tempo: cronista, historiador e sociólogo.Senão resulta em superficialidades, e é importante destacar isso.Além disso, devido à sua vida turbulenta ele ainda foi expressou seus sentimentos na violência. O enredo nem sempre importa dentro de experimentações técnicas, principalmente de exemplares desta geração, que já sofreram perseguições, como o ato fascista de Gene Siskel que divulgou e promoveu ataques ao endereço de Betsy Palmer por ter participado do filme com o aval do pseudo-intelectual Roger Ebert.

Ted Rafael Araujo Nogueira | terça-feira, 09 de Junho de 2020 - 17:18

O giallo partia para a estética e pro resultado final do choque com mais ênfase do que quaisquer preocupações com roteiro (quando se detinha ao texto não tinha o mesmo impacto das imagens), mas com inventividade de cores e sons. Plasticidade. O slasher tirou esta plasticidade e seguiu pelo exploitation apelativo e, sim, objetivo. No Sexta-feira 13 há certa preocupação na subjetividade do assassino. Cria certa tensão nisso, e alopra nas mortes. Mesmo sendo menos violento que outras peças do período da mesma chave. O Maníaco(1980) é um. A violência se justifica pela escolha do fiapo de roteiro. A necessidade do choque. Independentemente de quem fosse o matador, a metodologia era manter o suspense e focar na violência. É funcional. Que se lasque a verossimilhança. O filme mesmo nem se importa com isso. O foco principal do terror/horror é causar pavor, desconforto, tesão, choque e nojo. Sendo brega ou não, isso pouco importa, porque a preocupação com o resultado final é uma. Medo apelativo

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