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Parasita

(Gisaengchung, 2019)
8,6
Média
83 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Teatro de máscaras se choca com circo de horrores em candidato a clássico moderno

9,0

Por muito tempo, Bong Joon-ho foi um daqueles cineastas de que se falava maravilhas quando seus filmes eram exibidos em festivais. Filmes como Memórias de Um Assassino e O Hospedeiro causaram furor onde passaram pela facilidade do cineasta em fazer uma abordagem muito autoral de gêneros cinematográficos. Era, ao lado de Chan-Wook Park, uma das estrelas da “invasão sul-coreana” iniciada com Oldboye, quando foi para os Estados Unidos filmar, reconhecidamente sua adaptação de romance gráfico O Expresso do Amanhã foi a mais bem recebida em comparação com outros conterrâneos.

Já a fantasiosa aventura Okja, sua produção seguinte em colaboração com a Netflix, carregava o luxo de um elenco estelar no ocidente, mas talvez tenha sido sua produção menos elogiada, com críticas ressaltando um certo tropeço no tom do filme. Ainda assim, ninguém foi louco de negar momentos impressionantes e uma temática social abordada de maneira muito particular. E Parasita, novo vencedor da Palma de Ouro em Cannes, carrega toda essa bagagem meteórica para firmar Joon-ho como mestre do cinema de seu tempo.

O suspense satírico (ou sátira tensa) idealizado, roteirizado (ao lado de Han Jin-won) e dirigido por Bong é talvez a crítica social mais incisiva já feita pelo cineasta. Se O Hospedeiro ou O Expresso do Amanhã, por exemplo, se apropriaram de embalagens como “filme de monstro” e “distopia futurista” para fazer seus comentários sociais, o cineasta fala aqui com uma franqueza sem filtro que não era visto desde seu debute em Cão Que Ladra Não Morde.

Se há algo a ser relacionado com seus outros filmes na história de uma família à margem da sociedade — que graças à indicação do filho como tutor de inglês para uma garota rica passa a conspirar para tomar vagas como trabalhadores de lar para a família da mesma  é o profundo ressentimento de classe e a sensação de que há não “santos” em lugar algum, mas, antes de tudo, meros seres humanos.

Explorando esse cinema de contradições e confrontos entre indivíduos imperfeitos de forma profundamente espacial repare quanto do filme é dedicado a “conhecer” a casa da famíla rica e como ela contrasta com a da família pobre, desvendando pouco a pouco desde a superfície até as estranhas daquela casa , Joon-ho não esquece de tornar seu filme cruelmente engraçado com seu humor farsesco, explorando um jogo de máscaras onde pessoas são gentis cara a cara para se apunhalarem pelas costas. Os eventos, de tão rápidos e entrecortados por elipses, conferem um ritmo amalucado em que Joon-ho, sabiamente, insere as primeiras sementes de seu surpreendente final.

Tais construções são um feito, parando para pensar, pois opera tanto no nível cômico e instrumental, quanto em um nível subjetivo e tonal. Pensemos nas relações entre o pai da família pobre que trabalha como motorista para o pai da família rica (ambas as famílias formadas da mesma configuração: dois homens e duas mulheres, quase como espelhos). É nítida a falsa cordialidade do primeiro para com o segundo, enquanto tenta fazer que empregue sua esposa. Mais sutil é a anatomia de poder, dentro do carro, onde o trabalhador pode, claro, tomar liberdades e influenciar o patrão — mas desde que seja dentro de uma lógica perversa onde o empregado motorista também é uma espécie de faz-tudo, de carregador a terapeuta, sujeito aos comentários ácidos e sutilmente classistas.

A composição frontal de Bong sempre escancara uma inevitabilidade. O cineasta frequentemente filma sem perspectiva tridimensional, sem objetos de bloqueio, que confiram aquela sensação ilusória de “personagem em cena” que se convencionou a filmar no cinema hollywoodiano. Mas esse é um filme sobre a perda das máscaras ou ao menos um suspense onde vemos a construção dessas máscaras para depois ver a resistência das mesmas. Todos estão desnudados, vendo e sendo vistos, mesmo quando são vistos de perfil ou por cima. 

A ação encenada é limpa, aberta, por vezes cômica, frequentemente chocante, ocasionalmente ambos, quando o cineasta configura a farsa familiar e o suspense de infiltração sob o mesmo teto. O desconcerto que já sabia como produzir desde cedo em Memórias de Um Assassino e seus interrogatórios que acabam em brigas homéricas segue em plena forma aqui, onde uma governanta cozinha e serve os patrões ao mesmo tempo que dá cabo de uma vítima, fazendo bocas se abrirem de espanto ou se contorcerem de riso amarelo, e certamente não deixando a quem assiste passivo. 

Já por sua vez, a conclusão de Parasita não é apenas uma conclusão, mas também uma ampliação de todos os temas discutidos até então. Bong muda de chave, e toda a brutalidade subliminar que provocou risos até então vem à tona na forma de outros finais reconhecidamente violentos que já criou como em Mother - A Busca Pela Verdade e Okja. A partir do seu início simples, direto e brutal, a sequência evolui para um espetáculo burlesco e inesperado, no qual uma celebração de status torna-se um circo de horrores e o diretor organiza um caos cheio de pequenos detalhes, muitas vezes abertamente interpretativo pela narração visual. Não há a sensação de “bizarrice tonal” perceptível em outros filmes, mas a de caminho inexorável como se fossem desdobramentos naturais de decisões conscientemente anti-éticas com base na usurpação ou afirmação de poder. 

É verdade que, em seus minutos finais, Parasita se torne um tanto contemplativo, emotivo, distanciado do cinismo, mais aberto e idílico. Mas se torna a obra mais lenta, e assim também ninguém pode acusar o diretor de odiar aqueles monstros cômicos e amorais, mas sim de abordá-los de maneira humana, como o são e sem fazer juízo de valor da palavra, mas só admitindo a maré de sentimentos que sentem, independente de suas ações, como é possível ver na cena da chuva. Admitir a tragédia pessoal e social em meio a um circo de mentira e violência torna a obra ainda mais densa em matéria de construção. 

E é desse estilhaço autoral de flertes com os tons do gênero que Joon-ho emerge como um dos grandes nomes da geração e, pode-se dizer, se afirma como um mestre do seu fazer, onde sua filosofia de composição torna-se referência e assistir aos seus filmes, necessário para se entender a cinematografia de nossos tempos. Parasita transparece as preocupações temáticas e estéticas de sua sociedade, de seu tempo e de seu diretor, conjugando em si potencialidades bem passíveis do que talvez seja um marco de seu tempo. Quem tem olhos que veja o cineasta resumir o que vê com uma encenação tão hilária, trágica, brutal e, principalmente, poderosa.

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