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Noite dos Mortos-Vivos, A

(Night of the Living Dead, 1968)
7,8
Média
288 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Preto e branco do horror zumbi lotado de invocadas camadas sociais cinzentas

10,0

Parte um da trilogia original de George A. Romero na temática zumbi, que serviu como introdutório popular ao tema, começando a estabelecer regras que seriam determinantes ao subgênero. O plot aqui prima pela simplicidade. Uma horda de figuras esquisitas passa a querer se alimentar de carne humana, onde se foca nalgum grupo que tenta resistir numa casa em pequena cidade do interior norte-americano.

Aqui mais um exemplo em que a precariedade é usada em prol do gênio criativo. Com uma grana mínima para fazer o longa (cerca de 115 mil dólares), Romero teve de suar sangue a fim de ver seu material pronto, tanto que assumiria diversas funções não creditadas, tais quais fotografia e montagem. Com o intuito de atingir seu objetivo, o diretor decide usar câmera na mão para movimentos a favor de uma tensão mais estraçalhadora. A construção do horror com planos em contra-plongée e com enquadramentos não-usuais ao padrão tradicional da época, com personagens mostrados em cena na diagonal cortando a tela ao meio num local fechado. Usando o espaço, criando uma atmosfera de tensão claustrofóbica preparada e muito bem calculada.

A trilha sonora macabra – feita por músicos variados e lançada no vinil somente no ano de 1982 pela Varèse Sarabande – propõe uma soma ao climão foda. Das melhores do gênero, essa trilha acompanha a fotografia no desespero dos personagens, não dando trégua e acachapando seu volume até o talo nos ensejos finais de cena. São planos fechando e a trilha aumentando. União de primeira qualidade. Isso só seria possibilitado com uma montagem inteligente. Escolha acertadíssima nos cortes, deixando o que é possível ser mostrado sem esconder nada e sem subterfúgios, o que até surpreendeu pela brutalidade, já que é datado de 1968. Um bom exemplo desta junção ocorre num ataque dos cadáveres à casa principal no primeiro terço do filme, onde os seres vão caindo e outros vindo por trás, com a imagem nas faces horrendas e uma edição esperta e ágil se aproveitando bem disso, entre planos gerais e seus contraplanos fechados, dando o tom de urgência brutal que é tão caro à fita.

O artifício narrativo da comunicação. Rádio e TV. Forma esperta, e ininterrupta até, de expor informações esparsas – não se expõe a real origem daquilo tudo – sobre as criaturas que estão atacando o país, aumentando a loucura. As ações, soltas ou objetivas, dos personagens são entrecortadas na narrativa radiofônica, e televisiva, dando o tom de tensionamento daquela situação forçando os mesmos a confabularem soluções para, primeiro, se posicionarem na casa e, segundo, se organizarem com a intenção de saírem de lá com toda a ameaça a espeita. Uma confusão controlada pelo Romero. Total domínio de situação.

Temos aqui um protagonista negro, Ben (Duane Jones). Aliás, os 3 primeiros filmes de Romero da saga têm personagens negros fortes e essenciais à trama. Bom lembrar que este fora lançado em 1968, no auge das lutas civis pelos direitos dos negros, com figuras como Malcolm X e Martin Luther King como líderes dos movimentos, e que haviam morrido pela causa nos últimos anos, King meses antes do filme estrear. Ora, se já não era comum o papel do negro ter tanto vulto, menos ainda o debate sobre racismo no cinema. Isto fica na pauta quando um personagem, açambarcando o estereótipo do redneck americano, começa a querer impor seus intentos e vontades à turma e, quando tem oportunidade, acusa Ben, e somente ele, de ser responsável por mortes e pela desordem instalada na casa. O importante é que a liderança de Ben se consagra através do acerto de decisões e riscos assumidos, com os planos sempre enaltecendo seu tamanho, físico e de liderança, em relação aos demais.

Essa liderança incomoda e o desastre é inevitável, mas não somente pelo racismo, mas sim pela incapacidade humana de se colocar no lugar do outro e de conseguir agir no grupo frente aos seus objetivos particulares. Ponto chave da obra de Romero são essas relações humanas e o que elas implicam, ainda mais quando as restrições moralmente estabelecidas, via de regra, estão suspensas, sejam nos tradicionalismos da competência humana básica, seja nas noções e regras de estado pré-estabelecidas. O instinto de sobrevivência frente à hecatombe tende a prevalecer. Que seja ele somado ao racismo e outras chagas sociais. A inevitabilidade da falha humana no coletivo diante da destruição é uma crítica ácida. Serve como pauta por excelência num período político tão conturbado, com a paranoia da Guerra Fria à espreita com suas nuances de pandemônio nuclear, tal qual uma infestação de zumbis, com os cidadãos enclausurados em suas casas esperando o Estado lhes dizer o que fazer. Romero mostra sua genialidade ao costurar todos estes elementos numa obra única, servindo como microcosmo social de um país envolto em perturbações geopolíticas, raciais e morais. Ainda contando com um final absolutamente cínico e pessimista.

Não tem conversa mole, a obra quer o incômodo contínuo, passando esta sensação ao espectador. Com humanos no eterno conflito independentemente da atrocidade que se aproxima. É um meio comum de ação por pegada extremada. O apocalipse. Como agir diante disso? Que resultado se pode obter? O coletivo equivale ao civilizatório de bons costumes e respeito – em teoria – mas, frente ao mal comum, o que persiste é a sobrevivência daquele que conseguir atirar primeiro. Não condeno. É humano. É nosso. É da galera.

Texto integrante do Especial Monstros no Halloween

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