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Críticas

Cineplayers

É só o começo.

8,0

Até encontrar, finalmente, em 14 de dezembro de 2012, as salas de cinema, O Hobbit passou por uma longa jornada, ele mesmo, como produção. Desacordos, mudanças na equipe de produção, problemas com a família de Tolkien, divisão dos direitos para o cinema... Mas, enfim, quase 10 anos após a trilogia "O Senhor dos Anéis" deixar o grande público maravilhado com sua grandiloquência como cinema de ação e aventura - não equiparada em escala até hoje -, O Hobbit: Uma Jornada Inesperada (The Hobbit - An Unexpected Journey, 2012) chega ao espectador trazendo ao mesmo tempo uma clássica história e uma ousada evolução tecnológica. Será que, novamente, o cinema nunca mais será o mesmo?

A trilogia "O Senhor dos Anéis" reaqueceu o mercado para o cinema de fantasia (talvez aproveitando-se da necessidade de escapismo do público após o 11 de Setembro) e definiu a forma de se produzir esse gênero até hoje. Lançado em uma época onde os efeitos especiais já estavam evoluídos e maduros o suficiente para reproduzir em tela a imaginação de Tolkien (oito anos já haviam se passado desde Jurassic Park - Parque dos Dinossauros [Jurassic Park, 1993]), o antes "infilmável" chegou arrebatando público, crítica e prêmios. Centenas deles ao redor do mundo. O arriscado projeto de Peter Jackson de filmar os três filmes simultaneamente, de fato, deu certo, trazendo muitos louros a todos os envolvidos.

Mas... o mundo mudou! O Hobbit encontra um cenário menos propício do que a trilogia anterior para o cinema de fantasia. Produções multimilionárias às vezes não encontram retorno financeiro e, na maioria dos casos, não se veem abraçadas pela crítica. Estamos em um ambiente mais cínico, onde, por exemplo, a atmosfera fantasiosa dos Batman, de Tim Burton, teve que ceder ao realismo de Nolan, na nova trilogia do homem-morcego, para poder se vender (e com admirável sucesso). Por outro lado, os milhões de fãs de Tolkien, ou simplesmente o público que aderiu de coração à trilogia original - agora mais velho, cansado e, em boa parte, provavelmente com a mente menos aberta para histórias fantásticas - certamente estavam ávidos por este filme.

A estreia tão aguardada enfim passou e a primeira coisa a se notar é que esta é muito fiel ao livro. É difícil imaginar como o resultado final poderia ser diferente. Há poucas cenas gratuitas, e a necessidade de manter o texto original do livro faz cadenciar seu ritmo, isso porque Jackson trata os personagens, cada um deles, com absoluto carinho. É impossível não pensar, nesses momentos, que Uma Jornada Inesperada é uma homenagem a Tolkien e um presente a seus fãs, que lhe trouxeram fama como cineasta de primeira linha no início da década passada por causa do sucesso retumbante daquela trilogia. Ele talvez esnobe o público que desconhece ou irreleve Tolkien, trazendo à obra canções originais do livro, subenredos que tomam desvios da aventura principal - de Bilbo e os anões até a Montanha Solitária -, apenas para contextualizar o mundo - como Tolkien fez tão bem em suas obras escritas.

As comparações seriam inevitáveis, e não há porque fugirmos delas. Há de se ter cuidado, todavia. O Hobbit pode ser comparado à trilogia O Senhor dos Anéis em partes, mas ao mesmo tempo é uma aventura totalmente distinta, incomparável. Seu teor é outro; seu público também. É uma aventura mais genuína, não tanto um filme épico de batalhas (apesar delas existirem), talvez a própria definição da palavra "aventura". Jackson tenta engrandecer, em dados momentos e talvez por questões comerciais, a jornada de Bilbo, Gandalf e os anões, mas não há essa necessidade, ela já é grande por si só, independentemente do que signifique para o mundo ao seu redor. Mostrar o impacto global das ações daquelas pessoinhas é a função da trilogia O Senhor dos Anéis, não a de O Hobbit.

Os efeitos especiais foram favorecidos pelo tempo: muito mais evoluídos, estão muito à frente da outra trilogia, por motivos óbvios, e à frente das outras produções recentes de ação e aventura. Eles dão densidade e realismo inesperados às cenas, seus personagens raramente são enfeites ocos na tela, como quase sempre ocorre em filmes de aventura baseados em efeitos especiais. Fiquei impossibilitado, por questões geográficas, de assistir ao filme em 48 quadros por segundo, limitando-me ao 3D, que, assim como 99% dos filmes nesse formato, demonstra-se absolutamente inútil. Felizmente, Jackson segura a mão e em apenas raríssimos momentos explora isso de forma gratuita, jogando objetos no espectador.

Há alguns vícios que diminuem a força da narrativa: o fato de nossos aventureiros sempre salvarem-se no "último momento" acaba ficando repetitivo, por exemplo. Mas o roteiro é ágil ao não dar um único momento para respirarem, intercalando situações menores (o jantar dos trolls) com momentos verdadeiramente épicos (a batalha das montanhas de pedra). Uma Jornada Inesperada é um capítulo que entrega muita ação e aventura - esta sempre foi a sua proposta. Talvez o lado ruim de ser Jackson o diretor sejam os seus maneirismos já conhecidos da trilogia original e de outras obras suas - há cenas aqui virtualmente idênticas a King Kong (idem, 2005), como a queda de nossos heróis abismo abaixo, agora em cima de uma frágil ponte orc de madeira. Felizmente, as limitações são poucas, principalmente advindas das redundâncias de estilo produzidas pelo diretor - por isso, outro nome na cadeira principal talvez teria sido interessante para trazer um olhar renovado ou pelo menos ligeiramente diferenciado para a obra-prima literária.

Uma Jornada Inesperada termina em uma sucessão de cenas de tirar o fôlego, nossos heróis estão, mesmo sem imaginar, apenas no início de sua aventura, e o melhor certamente ainda está por vir (veremos em 12 meses). Com interpretações divertidíssimas de Martin Freeman e Ian McKellen, além de um elenco de apoio igualmente encorajador e algumas participações especiais surpreendentes, esta primeira parte da trilogia fez sim jus à sua longa espera. O Hobbit não é uma nova revolução no gênero, e sua evolução tecnológica (infelizmente para poucos ainda) só poderá ser avaliada com o passar dos anos. Independente disso, hoje o mundo está um pouquinho mais rico em imaginação... Graças a Tolkien e a Peter Jackson.

Comentários (53)

J Correa | quinta-feira, 03 de Janeiro de 2013 - 00:59

Até porque a maioria deles não tem personalidade.
No livro os anões são diferenciados pela cor da capa, apenas.
O que o Sr. Jackson fez foi até primoroso de colocar a guerra dos anões e dando assim profundidade ao Thorin.

Cristian Oliveira Bruno | quarta-feira, 27 de Novembro de 2013 - 15:01

Um filmaço!!! Tinha medo de ficar comparando as duas obras (sou fã ferrenho de O Senhor Dos Anéis) e não curtir a aventura por si só. Que nada!!! Jackson faz, não um filme, ele entrega sua alma num projeto que é a realização dos desejos de todos os fãs. Tanto O Hobbit, como O Senhor Dos Anéis são como um filho para Peter Jackson. Ao final desta trilogia, tenho certeza, a sensação de dever cumprido dominará o diretor que será imortalizado e idolatrado por duas ou mais gerações. Se Tolkien voltasse de seu descanso merecido, daria dois tapinhas nas costas de Jackson dizendo: \"obrigado, meu amigo.\"
Belíssima cítica, Koball

Ted Rafael Araujo Nogueira | quinta-feira, 08 de Janeiro de 2015 - 21:59

Excelente reconstrução de um universo conhecido, mas peca pelo exagero do tom de auto importância de tudo, além da infantilidade do roteiro e da narrativa, onde não se prima pelo combate das personalidades e sim em demasiado no deslumbre da ação exagerada

Pra quem se interessar escrevi a crítica no meu Blog:

http://cinemaapocalypze.blogspot.com.br/2015/01/o-hobbit-uma-jornada-inesperada.html


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