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Grande Mentira, A

(The Good Liar, 2019)
6,3
Média
12 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Para além das reviravoltas

7,0

Filmes sobre golpes e golpistas formam quase um gênero à parte no cinema de língua inglesa hoje. Há uma fórmula narrativa que se coloca em cena: geralmente, o personagem golpista é algo como um gênio do crime, suas intuições são sempre precisas e ele nunca perde a mão do seu próprio talento para o engano. A história se desenvolve com algumas surpresas e viradas na trama que servem para reafirmar o controle da situação nas mãos desse vigarista. Inicialmente, A Grande Mentira (The Good Liar, 2019) se adequa a essa narrativa – ou, pelo menos, faz uso dela para repensar o objetivo dessa própria fórmula.

O trapaceiro do filme é Roy Courtnay (Ian McKellen), que se envolve em uma série de negócios escusos enquanto corteja Betty McLeish (Helen Mirren). Ter McKellen fazendo o papel de embusteiro é uma escolha que não poderia ser mais apropriada. O ator tem o carisma e a qualidade de charme que o personagem exige: é preciso que ele seja um tipo de camaleão, mas que ao mesmo tempo te faça se encantar por ele e entrar, como espectador, no seu jogo de sedução. E é isso que a elegância britânica de McKellen produz – como aponta, em forma de aviso, Stephen (Russell Tovey), o neto de Betty.

A personagem de Mirren, por outro lado, é uma vítima incerta. Nós nunca temos a verdadeira dimensão da sua vulnerabilidade. O que é interessante nela é a sua dinâmica com Roy, o modo como se relaciona com ele. Parece que, em algum momento, ele será revelado pela luminosidade que emana dela. E é essa a tensão que o filme cria na ação entre os dois. A casa em cores bege de Betty é como uma prisão para Roy e um esconderijo para ela.

A direção de Bill Condon, infelizmente, não explora essa energia que surge da interação entre os principais atores em toda a sua potência. O que ele termina criando é um filme sobre reviravoltas, mas há muita pouca consideração visual em relação ao que essas reviravoltas significam. Embora possamos apreciar o estilo muito hollywoodiano e televisivo da condução dele (tem algo de contar com o nosso carinho por esses atores, uma prática que vem de Hollywood e da televisão, que funciona muito bem aqui), ele parece ter dificuldade em alcançar formalmente os temas que são mais caros ao roteiro. Diferentemente do que acontece em seu excelente Deuses e Monstros (Gods and Monsters, 1998), também estrelando McKellen, ele não consegue conciliar essa visualidade aprazível do cinema como entretenimento a um envolvimento estético com os temas mais graves da obra.

Ainda assim há muito de intrigante no filme. A Betty de Mirren, por exemplo, me causa uma impressão semelhante ao Frank de Robert De Niro em O Irlandês (The Irishman, 2019) no sentido de que ver esses personagens em cena implica em contemplar, com alguma perspectiva, a carreira desses atores. Mirren é uma atriz que teve seus primeiros trabalhos no cinema em filmes de diretores como Ken Russell e Lindsay Anderson, que incorporavam anarquia ao cinema britânico nos anos 1970. Quando A Grande Mentira articula essa interpretação da senhora inglesa bem comportada e, principalmente, quando rompe com isso, a história de Helen Mirren parece ser colocada em cena.

Um último aspecto que favorece a obra talvez seja a atualidade do texto. Há ali uma reflexão muito considerada e rigorosa sobre como nós nos produzimos como sujeitos hoje articulando tanto traumas do passado (o nazismo, no caso do filme) como um crescimento para fora desses traumas. E por isso a personagem de Mirren me parece tão interessante. A Grande Mentira, com todos os seus tropeços, consegue ser um filme sobre a identidade que nós construímos para nós mesmos diante de construções identitárias coletivas, como as nacionalidades e a História. Embora não chegue ainda onde poderia chegar, ele nos leva longe o bastante para reformular questões sobre um presente que se forma à sombra do passado.

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