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Críticas

Cineplayers

Sobre a construção de um ícone pop.

8,0

Recentemente, uma agência de publicidade de Porto Alegre veiculou um anúncio em um dos jornais de maior circulação da cidade com o objetivo de divulgar a conquista de mais um prêmio recebido pela empresa. A peça trazia, além do título “A história se repete”, nada mais além da foto de uma simpática marmota. Tratava-se, claro, de uma referência a Feitiço do Tempo (Groundhog Day, 1993), comédia lançada há quase vinte anos sobre um repórter de TV obrigado a viver sempre o mesmo dia, o Festival da Marmota de uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos. Após um razoável sucesso na época em que chegou aos cinemas, o filme cresceu na opinião pública, ganhou milhares de novos fãs e, pouco a pouco, passou a fazer parte da cultura popular, a ponto de uma agência de publicidade do Sul do Brasil acreditar na capacidade de seu público-alvo de entender a sutil homenagem sem necessidade de mais explicações.

Não deixa de ser curioso o fato de que Feitiço do Tempo tenha conquistado esse status de cult. Afinal, em sua essência, a produção de Harold Ramis é uma comédia leve e despretensiosa, que provavelmente nem o próprio diretor ou o astro Bill Murray acreditavam que pudesse ser lembrada e reverenciada tantos anos depois. No entanto, foi o que ocorreu, e basta uma revisitada à obra para compreender que não se trata de exagero. Feitiço do Tempo não é apenas uma comédia divertida e esquecível, mas sim um filme original, terno, inteligente e repleto de boas sacadas, que consegue algo raro no cinema: partir de uma premissa interessante e desenvolvê-la ao máximo de seu potencial, empilhando uma ideia inspirada sobre outra.

Nesse sentido, um dos grandes méritos da produção é, sem sombra de dúvida, o roteiro escrito pelo próprio diretor e por Danny Rubin. De forma extremamente habilidosa, Ramis e Rubin conseguem escapar daquela que poderia ser a maior armadilha do projeto – a repetição – ao transformá-la em um dos pontos centrais da trama. Assim, acompanhar Phil Connors vivendo incessantemente o mesmo dia e as mesmas situações se revela divertidíssimo em função da forma com a qual o personagem lida com cada uma delas: são três, quatro reações diferentes para cada momento, algumas se divertindo às custas das pessoas (uma vez que ele sabe que, no dia seguinte, elas não lembrarão), outras se revoltando com o absurdo do que está acontecendo e, em outras, ajudando aqueles que cruzam seu caminho. Ou seja, o maior perigo de Feitiço do Tempo acaba por se tornar uma de suas maiores forças e fonte de risadas graças à criatividade do roteiro.

Aliás, a transformação das repetições em algo a favor do filme também deve ser creditada a dois outros fatores: a lógica da direção de Ramis e, obviamente, ao trabalho impecável de Bill Murray. No caso do primeiro, o cineasta acerta ao filmar as situações que se repetem de forma praticamente idêntica, utilizando os mesmos ângulos e movimentos de câmera: cenas como a que traz Connors no café da manhã ou aquela que envolve Ned e a poça d’água são iguais em sua forma, variando apenas na reação dos personagens e nos diálogos. Com isso, o cineasta deixa o espectador familiarizado com cada um destes momentos e, pelo fato de a plateia já ter visto aquilo uma ou mais vezes, faz com que a nova atitude de Connors em uma situação antiga se torne ainda mais destacada – e, consequentemente, divertida, ao ressaltar o absurdo de tudo aquilo.

Enquanto isso, Bill Murray realiza em Feitiço do Tempo um de seus melhores trabalhos no cinema, o que, convenhamos, não é pouco. Carismático ao extremo, o ator consegue fazer com que até mesmo o Phil Connors do início do filme – arrogante, insensível e egocêntrico – parecer uma pessoa interessante, ou, ao menos, alguém divertido para o espectador. Como se não bastasse, Murray exibe aqui um domínio completo da comédia, com um timing preciso na forma de entregar suas falas ou nas pausas a cada reação de seu personagem. Na realidade, por mais que o roteiro seja inventivo e tenha suas boas tiradas, é da interpretação acurada de Murray que provêm as maiores risadas do filme. Aliás, mesmo que seja difícil saber ao certo o que estava no roteiro e o que surgiu nas filmagens, é fácil ver que em diversos momentos da produção a piada parece surgir da imensa capacidade de improviso do ator, como a cena na qual enfia um pedaço inteiro de bolo na boca, para espanto de Andie MacDowell.

De certa forma, Feitiço do Tempo pode até ser considerado um conto de fadas, por se tratar de uma fantasia sobre um homem em busca do amor ideal e de sua redenção – e a associação com A Felicidade Não se Compra (It’s a Wonderful Life, 1946), já feita algumas vezes, não parece injustificada. A transmissão de uma mensagem ou de uma moral, porém, não soa como o principal objetivo de Ramis. Sim, o filme pode ser interpretado de diversas formas (como cada minuto é especial, que é preciso fazer o melhor com o tempo que se tem, etc.), mas nada disso é jogado goela abaixo do espectador. Se tais questões estão presentes, são abordadas em segundo plano, sendo o principal a jornada dos personagens, retratados pelo diretor e pelo roteiro sempre com ternura, em um ótimo equilíbrio entre o aspecto cômico da trama e um desenvolvimento capaz de fazer a plateia se importar com o que acontece àquelas pessoas.

Ainda que nem tudo seja perfeito – o sentimento de Connors pela sua produtora aparece de forma repentina, por exemplo –, é praticamente impossível não se deixar levar pela história bem construída de Feitiço do Tempo e pela forma agradabilíssima e inteligente com a qual ela é contada. Divertido e romântico, doce e original, a produção conseguiu de forma surpreendente se tornar uma espécie de xodó do público cinéfilo. E de forma merecida. Até porque transformar uma marmota em um ícone pop não é tão fácil assim.

Comentários (13)

Vinícius Aranha | sexta-feira, 18 de Maio de 2012 - 22:26

Uma das melhores comédias de todos os tempos. Bela crítica.

Lucas Castro | sábado, 19 de Maio de 2012 - 14:09

mas esse filme é muito superior a it's a wonderful life

Cristian Oliveira Bruno | terça-feira, 26 de Novembro de 2013 - 15:25

O carisma de Murray é impressionante. É só olhar pra cara do sujeito e você já começa a sorrir de imediato.
Filmaço!!!! Um clássico pra rever todos os dias!!!!

Samuel Nascimento | sexta-feira, 07 de Março de 2014 - 14:50

Filmaço, lindo filme e Murray esta genial

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