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Dilema das Redes, O

(The Social Dilemma, 2020)
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Apocalipse virtual

7,0

Quem trabalha com cinema, mais particularmente com curadoria, deve estar cansado dessa nova tendência chamada "docudrama". Ou seja, filmes que aliam ficção e documentário — por motivos diversos, com propostas variadas. Pessoalmente, a maioria que eu vi se encontra dentro de uma mesma proposta artística "diferenciada": filmes independentes, típicos do circuito de arte, que modulam o registro documental numa chave de ficção a fim de realçar seu caráter artístico pela inserção do lúdico no real. Dado esse retrospecto de experiências recentes, e por seguir uma linha incomum dentre os documentários da Netflix, a primeira coisa que me chamou atenção em O Dilema das Redes (The Social Dilemma, 2020) foi ser um docudrama de proposta socioeducativa.

A parte documental de O Dilema das Redes se dedica a contar a evolução (ou involução) das maiores redes sociais mundiais do ponto de vista de seus desenvolvedores. Um grande time de profissionais da maior relevância revelam, sempre de forma articulada, como esses produtos são pensados e desenvolvidos, por que são um sucesso e por que tão nocivos. Os meios usados para manipular os usuários, mantendo-os conectados e viciados, colher seus dados, e como as inteligências artificiais moldadas para isso se desenvolveram sozinhas e se tornaram tão mais perigosas ao longo dos tempos. Um cenário perturbador e urgente.

No intuito de reforçar a importância dessa mensagem, o diretor Jeff Orlowski e seus corroteiristas Davis Coombe e Vickie Curtis optam por dramatizar os efeitos deletérios do consumo excessivo de redes sociais. Uma típica família de bem do subúrbio americano, curiosamente composta por entes de diferentes tipos raciais (assim evocando  — ao menos buscando — a identificação de todos), integra o centro da ação. Um adolescente e uma criança comuns sendo tomados pelo vício e transformados em cena. Uma jovem mais madura, que utiliza a internet com mais responsabilidade, é vista como chata. O arquétipo do pai bonachão e relapso e da mãe atenciosa e preocupada também estão lá. E os mecanismos de redes sociais responsáveis por enviar sinais para os seus usuários (notificações, sugestões de amizade baseadas em localização, indicação de vídeo com alto poder de engajamento etc), personificados como figuras intencionadas a transformar o ser humano em produto. Um misto de Matrix (The Matrix, 1999) com "Isso é muito" Black Mirror (2011).

Assim, a equipe de direção e roteiro se apropria das ferramentas de manipulação mais grosseiras para reforçar seu ponto — que já era claro. Uma estética terrível toma conta toda vez que o ficcional de O Dilema das Redes entra em cena. O que deixa clara a proposta de convencimento do longa-metragem como um todo. E também revela o anseio, digamos, bélico de Jeff Orlowski. O que é compreensível. Ora, estamos falando de um cineasta que se propôs a fazer todo um documentário sobre as artimanhas de um inimigo furtivo, perigoso, bilionário, quase imbatível, e o que o move é a ousadia de convencer seu espectador sobre a importância de combatê-lo, e logo. Nesse contexto, é uma demonstração de coerência do projeto que sua estética seja a de convocatória para a batalha. Que não se luta com flores, como seria se articulasse sua mensagem com uma narrativa elegante, sutil, moldada para a crítica conceder elogios e os festivais, menções e prêmios. The Social Dilemma  foi feito para ser uma arma, daí a conformidade de ser um filme com uma estratégia de comunicação tão manipulativa.

O Dilema das Redes é, portanto, combativo e coerente. Mais: é inteligente, haja vista que adota uma mesma ferramenta que vem sendo utilizada com sucesso pelo inimigo que denuncia: a paixão. Um dos dados levantados pelo documentário é o fato de notícias falsas terem um poder de engajamento 6 vezes maior que notícias reais. Isso ocorre porque é da motivação e da natureza das fake news esse anseio irrestrito em despertar as emoções de seu interlocutor. Essa também é a principal base de comunicação dos líderes de extrema-direita denunciados ao longo da obra como grandes beneficiários da "evolução" das inteligências artificiais, que identificaram nas notícias falsas, nos discursos de ódio e toda forma de radicalização o melhor meio de manter seus usuários conectados, e por isso transmite mais esse tipo de conteúdo. A Semiótica teoriza a esse respeito e comprova o maior efeito desse discurso. É por isso que, goste ou não dessa abordagem, o sujeito da enunciação apaixonado do filme é condizente e eficiente em sua proposta comunicativa.

Ademais, O Dilema das Redes capricha no que talvez seja o aspecto mais fundamental de um longa documentário: a montagem. Ainda que o espectador não perceba tantas novidades no que é relatado, é a primeira vez que se vê todos aqueles argumentos reunidos, e com tamanha fluência, de modo a resultar num discurso tão consistente. A edição ainda reúne com coesão e de maneira complementar todas as entrevistas dos personagens envolvidos figuras de autoridade que concedem peso pelo que dizem e como dizem, com ênfase e clareza, arrependimento e medo do que as redes sociais e suas inteligências artificiais podem fazer no futuro: uma versão piorada, acumulada do mal que já fazem no presente.

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