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Críticas

Cineplayers

Mentiras suspensas.

8,0
Chan-wook Park é um dos grandes nomes do cinema sul-coreano. No início do século, uma gama de filmes do país fez sucesso, chamando atenção do mundo. Park, naquela ocasião, lançou Oldboy (Oldboy, 2003), parte de sua impetuosa Trilogia da Vingança. Foi uma obra memorável que atraiu a atenção do público e da crítica, e rapidamente consolidou o nome do cineasta que apresentava um cinema brutal e misterioso. Esteve recentemente em Hollywood onde filmou um terror que não fez jus ao seu talento; agora ele retornou ao seu país natal.

Park é um artista que se atém fortemente à imagem de seus longas. Seus filmes são exponentes visuais, exuberantes em cada detalhe. E não é só. Poucos diretores decidem por trilhas tão eficientes, partindo de instrumentos que remetem à cultura oriental, ao mesmo tempo em que se apropria de grandes composições clássicas, como as de Vivaldi. A imagem e o som se equilibram sobre histórias pungentes. O coreano mantém uma ligação com seu público a partir de temas envolventes, e demonstra um estranho interesse pelo cômico. A comicidade não existe como alívio, mas como sátira de seus próprios personagens. 

Seu novo filme, The Handmaiden, livremente baseado no romance Fingersmith, de Sarah Waters, reúne os atributos autorais de seu diretor. É uma dramatização luxuosa com a magnificência da aristocracia japonesa num casarão isolado em meio a uma floresta. Se passa na década de 30 e envolve quatro importantes personagens. Dois deles, homens. Ambos em busca do poder, ambos alimentados por interesses artísticos: um, Kouzuki (Cho Jin-woong), investe em literatura e se orgulha de uma enorme biblioteca de manuscritos; o outro, o Conde Fujiwara (Ha Jung-woo) que dá aulas de pintura. E há duas mulheres. Lady Hideko (Kim Min-hee) cujo patrimônio é incalculável; e a sonhadora manipulável Sook-hee (Kim Tae-ri), dedicada a serviços domésticos. Os quatro convivem numa história de romance dividida em 3 capítulos com diferentes pontos de vista. Mas é um filme de interesses, mentiras e traições. É um filme de farsas! E sendo farsa seu assunto, há margens para o roteiro encontrar reviravoltas, algo que Park costuma tratar habilmente. 

A primeira parte se desenrola mostrando o Conde tramando um golpe com Sook-hee. A jovem acaba sendo contratada para trabalhar de criada no casarão de Hideko. O Conde planeja casar com a moça a fim de acessar seus bens e precisa da ajuda de alguém que possa convencê-la, mas a Lady está prometida a seu tio, Kouzuki, um colecionador de livros inveterado. A história parece simplória e quase parte de um melodrama, todavia há imprevisibilidade nas relações e os encantamentos infringem o trato arquitetado: a paixão proibida sempre incendiou romances no cinema. 

A primeira parte da história é ótima, bem contada, e dispõe da primazia da imagem de Park que assoberba com a fotografia, combinada à arte suntuária da arquitetura japonesa e inglesa dos cenários, juntamente aos figurinos de cores marcantes. São planos célebres atrás de planos célebres; e são eles o que há de melhor em toda a obra. Uma cena em que as duas mulheres adentram por uma porta e a câmera, num único plano, as acompanha por cômodos para depois se lançar sobre a casa a fim de encontrá-las do outro lado do local é um exemplo do trabalho magnífico da direção de fotografia. 

O roteiro conclui a primeira parte de maneira estrondosa. Parte para a segunda, mas tem dificuldade em manter o nível da anterior, tudo por que demonstra uma neurótica vontade de sempre justificar-se. É a exploração dos personagens e o que levou-os até ali. Cada um ganha dimensão particular. Os diálogos são certeiros.  A segunda parte tem início e diante a primeira – e ainda conhecendo a filmografia de seu realizador – é possível prever o que virá, o que diminui o impacto. Porém, felizmente o filme detém tanta coisa que as soluções são apenas parte de uma trama costurada aos pedaços, tendo no meio o sentido que o diretor quer dar a obra, algo como um grito de libertação pelo desejo – e aqui não diz respeito unicamente ao desejo carnal.

O cinema asiático já trabalhou com diferentes títulos que traziam as criadas como centro de suas histórias. A Criada Hanyo (Hanyo, 1960), de Ki-young Kim, que ganhou remake recente, é um dos mais emblemáticos filmes com o tema. É impossível não recordar. Na estética, Park suga Nagisa Oshima com seu O Império dos Sentidos (Ai no corrida, 1976) e estabelece um paralelo com a recente polêmica obra de Abdellatif Kechiche, Azul é a Cor Mais Quente (La Vie d'Adèle, 2013), a qual inevitavelmente iremos lembrar pela natureza performática de algumas cenas com as duas belas mulheres. O sexo é explanado intensamente em sublimes cenas eróticas, remetendo a uma linha discutida ao longo da projeção, com literatura pornográfica. 

The Handmaiden é um irresistível filme sobre paixões e interesses. Ilustra os custos da avidez. É um filme de performances, de encenações sobre atuações. Se a farsa irrompe na trama, acontece por representações ambiciosas. O embuste, conforme ressaltado, ganha metáfora dentro da história, nas ações de Kouzuki, que deseja tornar-se japonês e que enriquece com falsificação de livros. Tudo é mentira, aparentemente. Os atores são sensacionais, e tem em Kim Min-hee seu ponto mais forte. Seus tempos, seus olhares, sua voz dosada em diferentes níveis lhe torna dona da personagem mais complexa, compelida a memória do espectador que certamente não esquecerá do filme tão cedo.

Visto na 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Comentários (3)

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