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Cópias - De Volta a Vida

(Replicas, 2018)
4,2
Média
11 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Afundado em ruindade

0,5

A expressão 'guilty pleasure' caiu no campo popular e hoje é empregada com normalidade em várias áreas artísticas, e fora delas também. Nasceu pra denominar um tipo muito específico de produto, aqueles sem medo de seus defeitos aparentes, quase orgulhosos deles, e de como o espectador faria uso de tais produções. A simples tradução ('prazer culpado') é o suficiente para entender onde se quer chegar ao admitir apreciação por coisas como Flash Gordon, Anaconda e O Guarda-costas, chegando alguns a conseguir ressignifição com o passar dos anos. Alguns filmes no entanto não fornecem nem prazer em sua sessão, por mais que se esforce. Há preciso um charme de alguma esfera, um carisma extra que salve o projeto da amargura, um link direto que abra espaço pra subjetividade particular e embale a experiência. Desprovido de qualquer um desses elementos, resta única e simplesmente um filme ruim, a despeito da mesma subjetividade já citada. 

A sensação de ter encontrado uma dessas pérolas inigualáveis é o que fica claro com meros 20 minutos de Cópias, produção de lavra indizível dirigida por Jeffrey Nachmanoff. Não faz muito sentido procurar defesas no longa, tendo em vista que a cada nova cena sobram inúmeras tentativas em nos provar seu insucesso absoluto; antes do desfecho, o filme terá conseguido. Bebendo de fontes do cinema B que existem desde sempre, não há como justificar seu desenrolar para esse lado e salvar a produção, porque tanto nos três exemplos citados acima quanto na filmografia de ficção-científica dos anos 50, 60 e 70, por mais absurdos que fossem seus roteiros, por piores que fossem sua mise-en-scene, haviam uma dose inegável de sedução em cada mulher gigante, em cada mutação genética vindas dessas formas; Cópias é uma colcha de clichês reutilizados da maneira mais sem graça possível, que além de entendiar, deixa clara a sensação de perda de tempo.

O filme erra em tudo que se propõe. Ao criar a escaleta temporal no roteiro, o que é empilhado no espaço físico de uma noite é simplesmente inacreditável: um acidente de carro, nesse acidente morrem todos os seus integrantes - menos o pai Neo, quer dizer, Keanu Reeves - e, com a aparente inexistência de dor, ele tem uma ideia de recuperar todos os seus entes vivos. Também nessa noite ele vai até a empresa onde trabalha, rouba todo o maquinário de clonar seres, monta tudo isso na garagem de casa, e começa o processo de multiplicação de mulher e filhos. Ah, não esquecendo da 'escolha de Sofia' que precisa fazer (nessa mesma noite) ao deixar de fora um deles - são esposa e três filhos, e ele não tem quatro cápsulas. Como ele realiza essa escolha? Com um sorteio de papeis dobrados, como em um amigo oculto. Sim, vocês leram certo.

O roteiro de Chad St. John a partir de uma história de Stephen Hamel, não consegue criar nenhuma situação, cena ou plano sem utilizar a maior quantidade de lugares comuns batidos possíveis (que nunca são um problema cinematográfico per se; a situação de como é utilizado, empregado e alinhavado tem mais importância do que a utilização simples dos mesmos, e aqui é só desastre), e igualmente conta com diálogos deprimentes repletos de frases de parachoque de caminhão - "talvez humanos precisem de almas" é um mero exemplo - deixa claro porque esses dois moços foram responsáveis por tentativas de homicídio como A Justiceira e Passageiros. Infelizmente nenhuma das passagens citadas nesse parágrafo ou no anterior são tratadas com o deboche que fariam tudo funcionar, pelo contrário, um ar sério e dramático é utilizado durante toda o longa, ainda que o filme até tenha um personagem cômico-escada... que também ele é ejetado da narrativa da maneira mais absurdamente pesada, indo pro lado oposto ao que personagem representava.

Além da linha escolhida pra executar um roteiro tão absurdamente ruim não fazer sentido em seu tom, Keanu está em momento particularmente ruim, assim como sua partner de cena Alice Eve. Talvez o trabalho desleixado da direção, dos efeitos especiais amadores, da edição assustadora de Pedro Muñiz e Jason Hellman (esse segundo um nome promissor que entregou excelentes trabalhos em 'Deja Vu' e 'A Perseguição' e sabe-se lá como chegou a isso aqui) fossem a deixa para que todo o clima geral fosse mudado, optando por algo mais leve ou jocoso mesmo, pra tentar criar no filme uma ideia de pastiche ou paródia. Como foi apresentado, 'Cópias' consegue ser apenas é o pior filme visto em muito tempo, e ainda mais grave, uma sessão aborrecida e interminável. A não ser que você anote cada absurdo de curva "dramática" que o filme apresenta e depois monte um filme superior na sua imaginação.

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