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Cadê Você, Bernadette?

(Where'd You Go, Bernadette, 2019)
6,0
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Críticas

Cineplayers

Iconoclasta em fogo brando comanda dramédia indie convencional

6,5

Maria Semple é uma escritora de Seattle que tornou seu trabalho conhecido principalmente na televisão, escrevendo tanto para humorísticos como Saturday Night Live, Mad About You e Arrested Development quanto o drama adolescente Barrados no Baile. Já seus romances falam sobre pessoas abastadas enfrentando crises pessoais em suas vidas, como é o caso de seu livro de maior sucesso popular e crítico, Cadê Você, Bernadette? (2012), que agora ganha adaptação com a lendária força do cinema independente de Richard Linklater (Boyhood: Da Infância à Juventude) na direção e a prestigiada Cate Blanchett (Blue Jasmine) como a personagem-título.

O filme, produzido pela Annapurna Pictures (desde 2012 uma verdadeira “mãezona” do cinema indie atual) em sua segunda colaboração com Linklater, conta a história de Bernadette Fox, uma mulher que abandonou a profissão de arquiteta em Los Angeles, onde era um prodígio, para cuidar da filha Bee Branch (Emma Nelson) em Seattle, enquanto o marido Elgin Branch (Billy Crudup, de Watchmen - O Filme) arranjou um emprego como programador da Microsoft e, apesar do respeito na profissão, passa cada vez mais tempo fora de casa. As coisas pioram quando a filha pede uma viagem à Antártida, o que desencadeia uma crise de insônia em Bernadette, que já atormentada por uma severa ansiedade social causada pelas mães dos colegas de escola de Bee, a leva ao limite.

O filme “traz para a frente” a personagem de Bernadette, que no livro era conhecida de maneira quase epistolar através de transcrições de seus e-mails, bilhetes e correspondências. Portanto, Linklater se afasta do didatismo necessário para um filme de mistério e filma um roteiro mais aproximado a um didatismo obtido através de diálogos expositivos, narrações em off e montagem paralela. Da forma que ficou, a personagem de Bee Branch acaba ficando por bastante tempo apenas como personagem de apoio e ganhando um destaque tardio, o que acaba inclusive criando uma personagem unidimensional com adoração incondicional pela figura da mãe e de pleno julgamento contra o pai. Da forma que o filme organiza, fica uma história um tanto simplista sobre uma “vítima das circunstâncias” que finalmente toma uma ação plena de justificativas.

Dentro dessa história de crise de meia-idade, Linklater filma com sua típica elegância de planos e torna cada conversa cheia de significado. Seus longos planos que descrevem trocadas de frases ritmadas que partem de incômodos cotidianos e escalam para incômodos frontais. Os personagens de Linklater vivem o que falam, mas também vivem os estímulos cênicos, o que sempre desenha cenas muito interessantes e o tornaram um dos melhores diretores de atores do seu tempo. Quando “colhe para plantar”, repetindo elementos cênicos associados aos seus personagens para prenunciar sua chegada, vemos que não estamos diante de qualquer diretor, mas de um que sabe comunicar suas ideias visualmente - e se atrapalha quando tenta explicá-las textualmente.

Surge quase como um sonho, portanto, vê-lo dirigir Cate Blanchett, lidando com os incômodos que atravessam sua vida, como o marido distante e pretensamente preocupado; a vizinha chata (Kristen Wiig, de As Caça-Fantasmas, sempre hilária) e tendo pouca chance de desabafar - talvez apenas com o ex-professor da faculdade que não vê há muito tempo (Laurence Fishburne, subaproveitado e unidimensional). Bernadette é a personagem mais explorada e tridimensional da película, carismática e cheia de razão até em seus maiores destemperos. E Blanchett sabe infundir caricatura na personagem - mas nem tanta. Fox é divertidamente rabugenta e ocasionalmente dramática, o que acaba lembrando uma versão mais acessível de sua protagonista Blue Jasmine, menos limítrofe e mais neurastênica.

A partir desse “casamento”, Linklater sabe, além de dirigir diálogos pungentes como ninguém e fazer alguns momentos de verdadeiro ouro, obrigatórios para todo cineasta que quer trabalhar artisticamente relações humanas na contemporaneidade, arrancar momentos pequenos de intimidade que acrescentam todo um colorido ao filme. Tudo bem que podem acusar o cineasta de apelar sempre ao mesmo tipo de cena - tanto esse filme quanto Escola do Rock e Jovens, Loucos e Mais Rebeldes têm uma cena de empolgada cantoria em um veículo, mas todos servem de propósito específico à sua dramaturgia. Nesse caso, é particularmente tocante o momento em que Bernadette “quebra” em frente à filha que a idolatra após cantar de peito aberto o clássico oitentista “Time After Time”, de Cindy Lauper.

Cadê Você, Bernadette? é puro Linklater. Um Linklater menor, é verdade, mas ainda com a marca indefectível de seu autor. Talvez absorto no carisma da personagem escrita, Cadê Você, Bernadette? jamais decola e acaba como um típico filme indie. Posto ao lado de clássicos do Linklater parece pálido, sem muita substância. Com seus destaques, é claro, mas um tanto clichê e já satisfeito consigo mesmo. Uma acomodação pontual de um eterno iconoclasta.

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