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Críticas

Cineplayers

O triunfo da fabulação.

9,0
O primeiro Batman (idem, 1989) detonou uma revolução em termos de marketing e reinvenção dos blockbusters, legando para o bem e para o mal uma marca profunda no cinema que se seguiria. Ainda era um filme de autor, mesmo que o então jovem Tim Burton não tivesse inteira liberdade para comandar uma superprodução, tendo que se submeter ao aval do estúdio. O sucesso estrondoso permitiria que Burton rodasse um pequeno projeto bastante pessoal, Edward Mãos de Tesoura (Edward Scissorhands, 1990), e tivesse a sonhada carta branca para dirigir Batman - O Retorno (Batman Returns, 1992). Poucas vezes um cineasta de obra tão excêntrica (ainda que hoje não se tome como tal, dada a assimilação dela por parte do público através de constante visibilidade e exibições) dispôs de tanto poder e orçamento numa produção cinematográfica.

As consequências se refletem na tela com o maior espaço dado não aos vilões, mas aos monstros sociais e aberrações, como se o plano fosse sessenta anos depois refilmar Monstros (Freaks, 1932), o mais maldito filme saído da indústria hollywoodiana, dentro de um filme de super-herói. E isso não apenas em relação à Mulher-Gato e ao Pinguim, mas extensiva à família e toda trupe do circo em que este último foi criado, incluindo a gangue de motoqueiros com cabeças de caveiras que aterrorizam as ruas de Gotham City. A escória da escória, os rejeitados e desprezados pela sociedade, habitantes de um buraco negro, mutilados, aleijados e disformes indivíduos que representam o grotesco humano, e despertam sentimentos que vão da repulsa à compaixão. O próprio Pinguim parece continuar Edward do filme anterior de Burton, também disforme, aleijado e mutilado, desde a sequência de abertura em que o bebê primogênito é jogado no fundo de um rio, até o retorno ao submundo depois dos inevitáveis ciclos de desprezo, aceitação, popularidade e, por fim, rejeição e fuga em um natal tomado pela neve e em meio às esculturas do jardim zoológico que remetem aos arbustos gigantes esculpidos no outro filme. Só que se Edward quis ser aceito pelo bem, Pinguim opta pela destruição.

O verdadeiro vilão, entretanto, é o magnata interpretado por Christopher Walken (Max Shreck, em homenagem ao vampiro de Murnau), o capitalista odioso e aproveitador, o único da imensa galeria bizarra de personagens de Batman - O Retorno cuja caracterização não possui nada de irreal, e que se aproxima dos autênticos vilões em meio à ganância e hipocrisia dominantes dos chefes de grandes corporações em Robocop - O Policial do Futuro (Robocop, 1987) de cinco anos antes. Exclusiva compaixão que pode sentir é pelo filho como a indicar que não nutre compaixão alguma por nada que esteja longe do próprio patrimônio. Chantageado e ameaçado pelo Pinguim, sabe que tudo se pode negociar, e como um Barão de Frankenstein e sua criatura devolvida ao mundo, faz do outro o seu candidato a prefeito, e mantê-lo como fantoche político, disposto a afastar o atual com a popularidade em baixa e articular eleições fora de época. É de uma das vítimas de Shreck que aparece a Mulher-Gato, por trás da secretária neurótica, Selina Kyle, que após sobreviver a uma queda, sofre um surto psicótico e ressurge pelo contato com gatos que a trouxeram de volta à vida. Morrer para nascer de novo, esta parece ser a tônica das histórias de fantasias que realmente importam.

É o grande personagem de Batman – O Retorno, em que muito da neurose do mundo contemporâneo é pintado com tintas góticas. Não há uma fala sua que não seja dotada de graça, e de duplo sentido ou ironia ferina ao lidar consigo própria ou com qualquer outra personagem, além do subtexto sexual (Batman – O Retorno é um filme bastante pervertido por parte de seus “vilões”). A sequência em que ela entra numa boutique de luxo e com seu chicote destrói com produtos de consumo tipicamente femininos é tão emblemática quanto a que o Coringa borra os quadros e quebra as esculturas na invasão ao museu no filme anterior. A Mulher-Gato de Pfeiffer explicita a Cat People de Jacques Tourneur dando vazão a feminilidade reprimida depredando o que encontra pela frente. O carisma de Pfeiffer e os detalhes de sua interpretação fazem com que por um momento lembremos que existe um Oscar que perdeu a oportunidade de lhe agraciar com o reconhecimento do prêmio. Pior para o Oscar.
 
Batman – O Retorno repete a concepção visual fascinante do primeiro filme, com sua direção de arte expressionista e mundo de sombras que remetem ao universo fantasioso dos noir (Batman é um personagem criado à beira da década de quarenta), onde tudo pode ser sonho e pesadelo, sem necessariamente seguir as leis da lógica, ao contrário do pragmatismo das últimas encarnações do super-herói no século XXI. A esta dimensão Burton acrescenta uma outra, enchendo o seu filme de elementos de clássicos do terror cinematográfico. A psicopatia de uma aberração que parece saída de um circo como o Pinguim em querer se prevalecer numa cidade inteira para melhor dominá-la é próxima das loucuras vistas nos filmes de José Mojica Marins na década de sessenta. E coadjuvantes famosos nos filmes da Hammer repetem papéis que haviam feito no Batman de 1989 (Michael Gough como Alfred e Pat Hingle fazendo o comissário Gordon).

Batman é só outro dentre os personagens principais, sem discursos de moral ou heroísmo nem lances de maiores machezas, ele apenas se encarrega de restaurar a ordem estabelecida. Tão isolado quanto os vilões que combate, de milionário entediado até justiceiro que se disfarça de homem-morcego, nunca deixa de ser um outsider. Joga-se com o espelhamento, a ambiguidade, diminuindo a distância entre a carne putrefata do Pinguim e a armadura reluzente de Batman. E se os demais tipos aberrantes como o Pinguim e a Mulher-Gato manipulam para que Batman perca a simpatia dos habitantes de Gotham, e o herói possa ser visto apenas como um dos monstros rejeitados socialmente, Shreck responde ao ódio de Bruce Wayne proclamando não ver tanta diferença entre a sua realidade e a do “rapaz certinho que vive de rendas”. Ainda quanto ao subtexto sexual, Bruce Wayne e Selina são os únicos que aparecem sem máscaras em um baile à fantasia perto do final, e sem máscaras já não é possível se relacionar nesse mundo. Resta a tentativa de destruição do outro enquanto travestidos de seus respectivos alter egos.

Uma história de mitos, fantasias e máscaras só atinge grandeza se operar um desvendamento da confusão moral da desordem do mundo em que vivemos, e é assim desde o teatro grego ou na literatura infanto-juvenil e adulta. Construir um aparato de compreensão desse mundo. Batman – O Retorno o faz sem prejuízo algum de suas qualidades como filme de aventura e de super-herói. Tornar esse universo de fantasia preso a uma concepção hiperrealista seria renunciar à fabulação e perder o que pode haver de mais concreto em seus símbolos, reduzindo esse universo a uma experiência entorpecedora, porém insípida. Batman – O Retorno é o melhor filme feito com o personagem do Homem-Morcego.

Comentários (57)

Italo | sexta-feira, 08 de Abril de 2016 - 01:30

fiquei não, lindo.

vocês todos aqui estão no meu S2

Vlademir Lazo | sexta-feira, 08 de Abril de 2016 - 03:46

Com as últimas revisões tenho o achado o melhor filme do Burton então é justo que a nota seja a mesma dos seus outros melhores. Essa fase do seu cinema na década de noventa é maravilhosa.

Pedro H. S. Lubschinski | sexta-feira, 08 de Abril de 2016 - 10:06

"Wlademir voltou!"

porra matheus, o nome dele tá escrito ali e tu me dá uma dessas?!

Italo | sexta-feira, 08 de Abril de 2016 - 18:51

Sr. Waldemar voltou

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