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Bacurau

(Bacurau, 2019)
8,3
Média
81 votos
?
Sua nota

Críticas

Cineplayers

Objeto politicamente identificado

9,5

O cinema brasileiro é político desde que Nelson Pereira dos Santos filmou negros à margem, desde que Glauber Rocha filmou nordestinos à margem, desde que Suzana Amaral filmou mulheres à margem. Kleber Mendonça Filho é um animal político que tenta com suas obras rir do poder ridículo, mas que não duvida de sua capacidade de destruição, Hoje ou Ontem, e que apenas dá continuidade a uma obra que não podia se distrair das origens do nosso próprio cinema num momento como o nosso. Se em O Som ao Redor ele refletiu o passado escravagista em quem ainda vive do seu lucro histórico e se em Aquarius condena o futuro construído sob os escombros, o projeto Bacurau que concebeu com seu diretor de arte Juliano Dornelles (diretor do desconcertante Mens Sana in Corpore Sano) é uma exacerbação raivosa das potencialidades unidas dos dois autores, alegorias políticas porque simplesmente entendem que o cinema nasce do conflito natural da sociedade em seu tempo corrente.

O que intensificou no cinema de Kleber Mendonça Filho com a chegada de Juliano Dornelles? Provavelmente a visceralidade e a corporalidade, de atores e proporções espaciais, dois fatores que agregam intensidade emocional e são elaborados também através do visual para imprimir impacto. Esses elementos não eram estranhos a Kleber, mas a proximidade de Juliano por fora da direção de arte para realizar esse projeto conjunto deles de tantos anos expande esse caráter, reclassificando o olhar de um cineasta que ainda guardava uma sutileza para o resultado da investigação do cinema de gênero que ele, Kleber, faz desde seus curtas; enfim, o horror pede licença rápida ao social para se mostrar além dos signos em toda sua majestade cruel. O cinema de Kleber e Juliano nos olha com carinho enquanto povo, com inteligência enquanto cinéfilo e cheio de traquinagem enquanto provocador, juntos, esses cineastas dizem que toda tensão terá reação drástica.

A política trespassada no cinema de gênero que Kleber sempre filmou ganha um contorno a mais, quando a violência perpetrada tanto fisica quanto emocionalmente pela narrativa encontra o seu ponto culminante na reunião que os americanos fazem para interpelar brasileiros, onde a polarização de hoje é claramente percebida e verbalizada em um filme rodado há mais de um ano, que vaza da sua centralidade ininterruptamente para esclarecer sua pujança narrativa; como entender rivalidades territoriais em momentos de crise? Bacurau se entende como microcosmos do que deveria ser o Brasil em processo de ressignificação com o seu povo, que se une contra o poder instituído independente de qualquer desacerto local. Utilizar as bases do terror, construir um faroeste político em solo pernambucano, flertar com um deboche alienígena para associar também a ficção científica na salada, além da distopia futurista - que sempre será um retrato do presente - regida pela falta d'água, são também uma forma consciente para, acima de tudo, realizar Cinema, e não plataforma panfletária.

A parceria com Pedro Sotero continua contribuindo com planos exemplares do contemporâneo como nos longas anteriores, tanto a título de iluminação (a sequência infantil noturna é um caso) quanto de movimentação como em todo pensamento em torno da chegada dos motoqueiros na cidade. Essa simbiose entre as soluções de enquadramento com as decisões estéticas de direção é um dos setores onde Kleber, Juliano e toda equipe promovem catarses imagéticas, além da colaboração de Eduardo Serrano na montagem ser mais do que ditar o ritmo do filme, mas precisamente permitir que o ele seja minucioso com seus personagens e com seus planos sem jamais perder a agilidade.

Toda esse lugar de excelência não seria suficiente se Kleber e Juliano não contribuíssem com o melhor elenco possível mais uma vez, escalando os profissionais mais acertados e promovendo os desafios esperados a peças estratégicas. Em meio a inúmeros nomes de qualidades inegáveis, tais como Thomas Aquino, Thardelly Lima, Luciana Souza, Karine Telles, Antônio Saboia e o internacional Udo Kier - sempre magnético -, não tem como dizer que os destaques são outros que não Sonia Braga e Silvero Pereira. Ela em mais um trabalho de desconstrução promovido por Kleber, que quase a desfigura por completo e faz nascer uma atriz superior; ele, das maiores revelações do teatro e TV na década, chega ao cinema absolutamente dono da cena. No coletivo, se junta a No Coração do Mundo e Inferninho, mais uma vez, esse ano nossos talentos individuais provam que constroem coletivos extraordinários.

Em determinado momento de 'Bacurau', lá pela abertura do ato final, o clássico romântico dos anos 80 da banda inglesa Spandau Ballet 'True' toca em cena e os versos dizem "with a thrill in my head and a pill on my tongue", que sublinham (sem querer?) passagens do filme vistas em extremo close, além da cena em si ser uma exposição definitiva da 'verdade' para dois personagem-chave: esse também é o cinema de Kleber, que até encontra espaço para subverter e brincar com um dos clássicos clichês do filme de terror (aquele onde o casal transa logo antes de morrer), e que encontra na voz plus de Juliano uma potência reverberada com poder o suficiente para ser ouvido de maneira interplanetária... Quem sabe? Um cinema que independe de prêmios para imprimir voz independente e que continua a se provar em diversidade, aqui traduzida como um caldeirão de referências de meninos, que se transformaram em homens e entenderam que nem todo ato político nasce em um palanque, e que alguns fervem melhor se cozidos ao molho pardo.

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