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Aquarius

(Aquarius, 2016)
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

O espaço, a memória e a busca de novas narrativas.

8,5
O texto a seguir comenta certas passagens do filme.
Leia por sua conta em risco.

O apartamento é o campo de batalha de Kléber Mendonça Filho; o sinônimo de lar e refúgio da era contemporânea é um coletivo de emoções contraditórias. O Som ao Redor e suas muitas tramas exploravam o espaço para compôr uma atmosfera singular, onde o apartamento explicitava a dominação de uma classe sobre a outra e vidas de desespero silencioso que as pessoas construíam em volta de si para garantias de segurança e conforto. Na hora do tal “batismo de fogo”, Mendonça visitou de novo o seu terreno de contradições e de lá tirou Aquarius, que não poderia ser mais diferente nem mais parecido com O Som ao Redor.

Se o espaço era quase tudo que importava na construção do terror ao avesso no primeiro longa do diretor, em Aquarius o tempo também carrega igual importância. Ele está nas transições (ou raccords) entre sequências; é percebido na construção da trilha sonora; chega até mesmo a invadir o espaço de maneira fantástica, com o passado sempre vindo martelar.

Ao invés da estrutura multitrama, onde várias tramas pareciam casar e dizer algo sobre um mesmo tema, Aquarius é puramente character-driven. Não há estímulos frequentes de reviravoltas, apenas um único conflito: conseguirá a crítica musical aposentada, única moradora do prédio Aquarius, resistir às investidas cada vez mais ousadas e menos éticas dos arquitetos que querem comprar seu apartamento, derrubar a construção e projetar um moderno e luxuoso condomínio no lugar?

Clara, a personagem interpretada por Sônia Braga, já resistiu muita coisa: um câncer na juventude, a viuvez, os conflitos com os filhos, e a nova provação reafirma o apartamento como seu lugar de resistência, onde guarda história e memória de gerações. O flashback do ano 1980 que abre o filme já equaciona o afeto familiar, os dramas pessoais e o valor emotivo conferido ao mundano, tal como o móvel onde uma tia lembra ter subido para fazer sexo com o namorado no início do século 20; tal como sua imensa coleção de discos de vinil e a própria disposição do ambiente, que atravessam décadas praticamente intocados, para então sofrer uma investida final da ganância de gente mais poderosa.

Os contornos sociais que permeiam a obra do cineasta não são exatamente um segredo - muitas vezes não são ao menos sutis. Ainda que em casos como o do curta-metragem Recife Frio a sátira da organização social é extremamente funcional e necessária, certas cenas dos seus longa metragens (a cena da Veja em O Som ao Redor, a discussão que Clara tem com um jovem arquiteto aqui) discursam antes de metaforizar, o que compromete um pouco a sutileza simbólica do conjunto.

Mas mesmo partindo de tais contornos, Kléber evita fazer uma mera denúncia e veste também a roupa do gênero, narrando Aquarius como uma história de cerco, das forças invasoras que tentam demover ou aniquilar a força residente. Admirador do cinema de John Carpenter a ponto de fazer uma referência explícita em O Som ao Redor (a Escola João Carpinteiro), Mendonça em sua obsessão de perturbar o espaço urbano mostra a admiração confessa por uma das figuras centrais do grande cinema de gênero setentista: Aquarius é inspirado diretamente em filmes que aliam a formatação de gênero ao character-driven, como Alguém Me Vigia! (Somebody’s Watching Me!, 1978).

Na história de Carpenter dos anos 70, uma mulher em seus 30 anos, independente e com um futuro promissor à frente, passa a ser atormentada por um stalker que planeja desestabilizá-la mentalmente. Na história de Kléber na década de 2010, uma mulher com um passado a contar enfrenta uma alternativa de um futuro predatório, com suas ferramentas para perturbar o passado de resistência e de afeto.

A medida de forças assume formas de ofensiva - os colchões queimados, a festa que termina em sexo grupal no apartamento superior abandonado, o segredo revelado no ato final - e de autos de resistência - Clara manda repintar a fachada do prédio sem autorização, afronta os proprietários enquanto pesquisa o passado da firma familiar de arquitetos e continua conhecendo homens e se relacionando sexualmente mesmo após enviuvar e envelhecer, algo socialmente desaprovado.

Obviamente, ser uma mulher independente e de espírito livre, com suas próprias ideias, vem a um custo - frequentemente é considerada excêntrica por não querer vender seu apartamento e tem uma relação conflituosa com a filha, que tenta negociar a avaliação do prédio sem sua permissão. O câncer de mama cujo tratamento lhe fez perder um dos seios é uma barreira que ainda custa a atravessar, interrompendo as preliminares com um homem que conheceu no bar para avisar da cirurgia feita. 

Esse passado cheio de questões é posto em xeque e se transforma então quando chega o conflito principal do filme. A sequência da orgia espanta e repulsa a protagonista que observa por uma fresta, mas também a faz transformar-se, relacionando-se com um homem mais novo e permitindo-se sentir prazer pela primeira vez em algum tempo após embebedar-se ao som de Queen. Nesse instante, se liberta ao papel de “idosa excêntrica e tradicionalista” onde insistem tentar enfiá-la e ganha a tal “força jovial” que precisa para enfrentar as táticas progressivamente degeneradas e amorais dos proprietários de outros apartamentos. Se eles ouvem música, consomem álcool e fazem sexo para o choque, para causar o desagrado, Clara o faz para resistir e para continuar viva, recusando-se a resignação e morte em vida às quais os antagonistas querem condená-la.

Esteticamente, Kléber ainda adota zooms, closes e faux raccords que promovam uma estilização de nossa percepção de espaço, mas como já dito, esse também é um filme sobre o tempo, e os frequentes enquadramentos semelhantes em diferentes situações, diferentes contextos e diferentes épocas mostram a polivalência dos significados que o espaço pode exibir. O móvel da sala para Clara é um símbolo de quando boa parte de sua família era viva e unida; para sua tia, era a lembrança de erotismo e vitalidade; a fachada azul do Aquarius é um símbolo de resistência e, pintada de branco, um símbolo de enfrentamento. Ao mesmo tempo em que a dona do apartamento cuida do neto ainda pequeno, sua empregada há décadas lida com a morte recente do filho. 

Filhas da história, vida e morte são uma constante na vida cotidiana em Aquarius; estão ali para simbolizar encerramento e abertura, encerrando narrativas inteiras não contadas dentro de si. Todos esses momentos citados tem apresentação, desenvolvimento e conclusão fragmentada, pontual; para cada elemento do espaço, o tempo guarda uma história esperando ser contada. Longe da intenção totalizante de O Som ao Redor, com sua voz, olhares e perspectivas múltiplas, Aquarius agarra-se a um afeto emocional (o de Clara) e oferece apenas vislumbres de outros, admitindo a potencial incompletude dessa e de qualquer história.

Momentos diametralmente opostos também carregam a mesma força simbólica: a visão onírica que tem com uma antiga empregada após passar a tarde vendo álbuns de fotografias denuncia a abertura de antigas feridas; a relação que tem com personagens mais jovens (o salva-vidas, o sobrinho), onde dá e pede conselhos para vida cotidiana e para situações limítrofes mostram seu esforço não só em aprender um novo mundo (quando declara ser a favor do MP3 para a entrevista de um jornal, quando é apontada para quem são as figuras foras-da-lei de seu bairro), mas também fazer suas memórias e paixões resistirem (sua coleção de discos de vinil, seu prédio onde mora há décadas, seu passado como crítica musical).

A câmera cola Sônia Braga e observa a exposição de sua alma, dirigida de maneira naturalista, com diálogos mais explicativos sendo introduzidos com o cuidado de terem a informalidade de uma conversa ou de uma discussão. Observamos seus discursos e ações, mas também seus silêncios e olhares e compartilhamos pontos-de-vista pelo cinema, mostrando a maneira como vê o mundo - as sombras que envolvem seus adversários, os limites entre a parte rica e pobre da cidade. Vemos a vida de Clara, mas também vemos com Clara, enxergamos sua concepção de mundo, os problemas que identifica, as contradições sob as quais se equilibra, seus desejos e seus medos, suas forças e fraquezas. Filma-se sobre Clara, mas também filma-se com Clara.

Isso denota que Aquarius, empático com sua protagonista, também tem sua carga ideológica. Não ideológica apenas no sentido de ser materializada e instrumentalizada através de doutrinas (o que chega a ocorrer, como no já citado caso em que Clara discute com um dos arquitetos), mas também no senso comum, um ideário, um conjunto de ideias, com personagem e filme sustentando certos valores únicos, por motivos particulares, que o mundo atual onde está inserida torna-se progressivamente incapaz de respeitar valores, paixões e memórias individuais. Esse choque de valores logo se desequilibra quando um dos lados mostra-se menos ético que o outro, retirando a parcialidade do filme; Aquarius torna-se todo pela preservação, pela identidade e singularidade, todo contra a massificação, o expansionismo e o recrutamento propostos por novos e gigantescos modelos de negócio.

Se abrimos com um flashback e temos sonhos e registros do passado durante o filme é porque este é um filme sobre dois tempos, tempos que coexistem, que pensam de maneira divergente e são passíveis de choque a qualquer momento; por vezes se relacionam de maneira harmônica - como vemos com o relacionamento com seu sobrinho e a namorada dele e Clara seu relacionamento bastante franco com o salva-vidas, ou ainda a cômica atividade em grupo onde todos deitam uns sobre os outros, suam e riem; a aparição de jovens negros e pobres querendo participar gera uma tensão momentânea, mas logo todos voltam a se unir ao jogo proposto, passando a importar por um momento a comunhão daquele instante.

Por outras vezes, os dois tempos não transitam, escrevendo e retornando mensagens com as lembranças do passado e aspirações do futuro formando o presente; este também é um filme de gênero, e como tal, mais cedo ou mais tarde perspectivas históricas de um passado próximo e projetos de um futuro que se avizinham entrarão em uma disputa constante, o que costura no filme uma trama concreta.  

Quando entra no terreno da disputa, da fábula de gênero (com seus protagonistas prodigiosos, com seus antagonistas engenhosos, com os coadjuvantes que sintetizam pontos de vista), o filme segue suas regras de introdução, demonstração, provocação e catarse, ainda que à sua maneira.

Como o final, por exemplo. Observe-se que O Som ao Redor explicava (quase) todas suas multitramas em um plot twist final, alcançando de certa maneira ares bíblicos (os seguranças se vingando do homem rico tais como anjos da morte). Aquarius também tem algo a explicar (os documentos que Clara descobre que sujam o nome da firma de arquitetura). É o ato mais corrido e mais apressado de Aquarius, e o que mais quebra as convenções normais, de maneira praticamente esbaforida. Sem a mesma atmosfera lenta, aproveitando da construção e desconstrução já tão praticada nos outros dois atos do filme, Aquarius “acerta as contas”, atinge sua catarse e se interrompe, em cima da marca fatal.

Em um momento, protagonista e antagonista atingem seu ponto máximo de tensão, a confrontação explode em sua maneira final, ocorrem as retaliações finais; e o filme acaba, talvez sugerindo uma situação cíclica, não apenas com a personagem em específico mas com tantos outros de histórias não-narradas ou que não resta nada da história a ser contada. Aquarius, Clara e os arquitetos atingiram seu limite. Ainda assim, quando não há a resolução para o clímax, confirma-se uma arriscada aposta na incompletude, que de sua maneira ambígua, põe um ponto final mas abre tantas outras portas.

Aquarius é um filme ambicioso, com a sua diversificada trilha sonora nos jogando para frente e para trás no tempo, personificando a memória tanto como celebração quanto como arma; é excessiva, ilustrativa e está ali para sintetizar, nem sempre de maneira sutil, os conflitos do filme. Seu tempo-espaço encapsulado naquela personagem, naquele ambiente e naquele conflito quer metaforizar com uma história tantas outras, denunciando uma nova Pernambuco ao olhar do diretor nascendo em meio à velha, catapultando sua protagonista à condição de agente ativo como transformador da sociedade fazendo frente aos outros agentes ativos; é um filme sobre resistência e manutenção, mas também sobre descoberta e transgressão. Desafiam-se os papéis sociais que nos são designados, luta-se por manter o espaço onde nos descobrimos, reinventam-se narrativas recorrentes.

Em sua ambição de revelar por indução, de metaforizar pelo cotidiano, nem sempre é sutil ou fluido e cai até mesmo em algumas armadilhas fáceis; mas essa ambição mesmo em suas falhas é benéfica, encarando temas singulares e relações pouco óbvias. Pratica-se modulações e narrações de gênero de maneira autoral, admitindo e lapidando a prática de um dilema ambulante entre a narrativa fechada e o recorte. Aquarius é como Clara, incerto e desencontrado, em busca constante de um caminho, mas com uma sólida posição e visão sobre o que pretende tratar. E justamente por isso, uma das obras mais curiosas do ano.

Comentários (6)

Davi de Almeida Rezende | quinta-feira, 09 de Novembro de 2017 - 01:48

Cara, eu estava disposto a ler, mas vc escreve muito! PQP! Chegou na metade e desisti, até pq começou a enrolar com filosofias....pulei direto para a última estrofe.

Seja mais direto nos próximos textos, aqui era só pra escrever uma crítica, não um tratado de filosofia.

Davi de Almeida Rezende | quinta-feira, 09 de Novembro de 2017 - 01:49

Olha só....tentei ler outra vez e tive a mesma reação kkkkkk de meses atrás q eu nem lembrava q já tinha comentado aqui 😏

Bernardo D.I. Brum | quinta-feira, 09 de Novembro de 2017 - 09:39

Oi Davi, sugestão anotada. Produziram várias lupinhas e tem mais outras duas críticas, acho que essas cabem mais nas suas expectativas de extensão. Valeu!

Josiel Oliveira | quinta-feira, 09 de Novembro de 2017 - 14:51

Porra.. o cara dedica um puta tempo estudando, aprofunda, reflete, escreve a parada de graça pro público.. e ainda tem que aguentar um babaca desse, analfabeto funcional metido a besta, e carente... vai ser carente assim no inferno coisa chata!
Davi, dá um tempo cara, além do ridículo a que você se submete o tempo todo, você vem aqui e comete uma puta falta de respeito com quem tá afim de compartilhar conhecimento, de discutir, pela simples paixão por cinema, sem cobrar nada por isso.
Caramba.. ninguém aqui acha graça nisso, respeita o espaço.. é um desperdício de bytes e de tempo de quem frequenta o site.
Na moral, se toca mano... menos... respeita o trabalho alheio

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