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Annabelle 3: De Volta Para Casa

(Annabelle Comes Home, 2019)
5,8
Média
23 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Desfile de assombrações

6,0

A Blumhouse Productions é uma das melhores coisas que aconteceram ao cinema de terror nos últimos anos. Mais que um modelo de produção, Jason Blum definiu um modelo de negócios consistente, amparado em projetos de baixo orçamento baseados em high-concept e ótima estratégia de lançamento em parceria com os grandes estúdios. O exemplo tem feito muito bem ao gênero e seus fãs. Mas, como quase tudo no mundo, existe um contrapeso que cobra seu preço.

Desde a explosão de Atividade Paranormal, a produtora transforma seus filmes originais mais bem-sucedidos em franquias. Assim sugadas ao máximo em uma lógica de faturamento em detrimento da criatividade. O fenômeno (comum em toda Hollywood, mas regra absoluta no cenário de horror) foi obviamente replicado pela New Line e suas parceiras — as modestas Safran Company e Atomic Monster  após lançar Invocação do Mal. O resultado é uma das maiores cinesséries da história em arrecadação, porém incapaz de justificar a qualidade de seu filme inaugural — um dos melhores do gênero na década.

Annabelle é absolutamente desnecessário, o que me desmotivou a ver Annabelle 2: A Criação apesar de a crítica especializada avaliá-lo como sendo melhor que o anterior. Invocação do Mal 2 é bom, mas não o suficiente para empolgar para a estreia de A Freira. Nesse cenário, vale ressaltar dois aspectos principais que resumem Annabelle 3: De Volta Para Casa. De modo geral, trata-se de um compêndio das qualidades positivas e negativas de toda a franquia. Em específico, é um filme surpreendentemente bom por causa da equipe de profissionais que tem por trás — mas não tão bom quanto poderia ser porque nem anseia sê-lo, haja vista que, antes do valor artístico, a New Line visa ao valor financeiro de uma produção industrial.

Roteirista dos dois primeiros spin-offs e do excepcional It: A Coisa, Gary Dauberman estreia na direção com uma inspiração muito clara: James Wan, grande força criativa que mantém o padrão de qualidade da franquia como produtor ao lado de Peter Safran. Tendo ainda o compositor Joseph Bishara e o diretor de fotografia Michael Burgess ao seu dispor, Dauberman consegue repetir os bons aspectos técnicos que fazem de Invocação do Mal uma obra de horror envolvente, completa. Tal como o original, Annabelle 3 tem uma mise-en-scène potente, que mantém o espectador vidrado devido às suas cenas de longa duração, seus planos-sequências sofisticados, suas transições (raccords) dinâmicas e seu pleno domínio dos gatilhos de tensão em uma narrativa de horror. Nos momentos de maior apreensão, o design de som usa o que há de mais moderno em tecnologia para destinar canais de áudio próprios para cada objeto em cena, e em seu clímax invadir os sentidos sem economia, com uma trilha sonora violenta. Enfim, todo um aparato para Gary Dauberman fazer mais que uma estreia segura, fazer uma estreia realmente boa.

No prólogo que apresenta Lorraine (Vera Farmiga) e Ed Warren (Patrick Wilson), por exemplo, Annabelle 3: De Volta Para Casa aposta em todo o legado do casal: sua habilidade como demonologistas, na química entre eles, pratica uma marca visual da franquia ao realçar os olhos azuis penetrantes de Lorraine com uma luz que se destaca em meio à escuridão… E aí, através do vidro de um carro parado em frente a um cemitério de portão aberto, explora a profundidade de campo para angustiar o espectador com o perigo que irá despontar naquele ponto distante. Porém, este signo em particular se repetirá não uma ou duas, mas incontáveis vezes. A todo momento, uma vidraça ou um espelho abre o campo para a iminência de uma ameaça, assim banalizando uma técnica essencialmente refinada. Quando não, é o posicionamento de um personagem no primeiríssimo plano de um ambiente longo, em geral feito de sombras em seu ponto mais afastado, que repete o mesmo artifício. 

Essa tautologia denota uma falta de inspiração que o diretor novato também demonstra no roteiro de Annabelle 3: De Volta Para Casa. Por um lado, o argumento é repleto de sagacidades: evoca a popularidade de Ed Lorraine, baseando um filme inteiro no museu oculto da casa deles e explorando as dezenas de artefatos malignos ali guardados. Da mesma forma, essa sequência se localiza cronologicamente no tempo exato em que o casal soluciona o caso da obra original, consequentemente evocando no espectador o medo de três meninas que terão de lidar sozinhas com entidades demoníacas. A partir daí, porém, o roteiro cria pouco. À exceção de uma televisão maldita que transmite tudo que Daniela (Katie Sarife) fará nos instantes seguintes (ideia pouco lógica para um objeto que tem a finalidade de fazer mal, mas incrivelmente cinematográfica), Annabelle 3 se apropria de lugares-comuns do gênero e da comédia adolescente, e só.

Então, o que se segue é um verdadeiro desfile das assombrações que habitam o Museu Oculto dos Warren. Como que cavando, a todo momento, um novo spin-off baseado neles. Pior é notar que, apesar de dotados de toda uma história própria — o vestido da noiva, o bracelete de luto — ou se inspirarem em uma mitologia famosa (o barqueiro Caronte, um cão do inferno como Cérbero), quase nenhum deles desperta expectativa para um filme solo. (A armadura do samurai é o artefato mais interessante, pela originalidade de uma história de horror sobrenatural no tempo do império japonês.) Pois Annabelle 3: De Volta Para Casa é um arremedo de clichês servindo de escada para o próximo susto. Com pontas soltas (a alma penada de um padre não diz a que veio), demônios em excesso e efeitos visuais questionáveis. O que compensa e torna o resultado final satisfatório são a qualidade de seu argumento, sua execução caprichada e capacidade de driblar limitações autoimpostas e alcançar o objetivo maior de um filme de terror: causar medo no espectador.

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