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(500) Dias com Ela

((500) Days of Summer, 2009)
7,8
Média
1006 votos
?
Sua nota

Críticas

Cineplayers

Muito mais do que apenas uma comédia romântica juvenil.

7,0

(Atenção: este texto contém detalhes importantes da trama. Recomenda-se a leitura apenas a quem já assistiu ao filme.)
 
A comédia romântica é um dos gêneros mais populares do cinema. Em todo o mundo, pessoas se unem para assistir a história de casais que, quase inevitavelmente, terminam juntos no final. Não importa que a fórmula seja sempre a mesma: rapaz conhece a garota, rapaz perde a garota, rapaz recupera a garota. Esta clássica – e cansada – estrutura é um ponto de conforto para estúdios e cineastas, que temem ousar para não correrem o risco perder a fórmula e, por consequência, os milhões de dólares. O que, usualmente, faz uma comédia romântica funcionar ou não é a química entre o casal. São raros os filmes nos quais algo além disso é oferecido.

(500) Dias com Ela é um deles. A obra aborda 500 dias na vida de Tom Hansen, um romântico escritor de cartões comemorativos. O primeiro dia da história contada aqui é aquele no qual ele conhece Summer, sua mais nova colega de trabalho. Fascinado com a garota, Tom aos poucos começa a se aproximar dela, o que acaba virando uma espécie de relacionamento. O problema, para ele, é que a moça não está disposta a oficializar essa relação, o que acaba gerando problemas entre os dois.

A trama, no entanto, não se desenrola de forma cronológica e previsível como essa sinopse pode levar a entender. Desde o início, uma narração deixa claro que não se trata de uma história de amor comum como a que os cinemas estão acostumados a receber. O diretor Marc Webb e os roteiristas Michael H. Weber e Scott Neustadter estão mais dispostos a brincar com as expectativas da plateia do que oferecer aquilo que ela espera. (500) Dias com Ela é um filme repleto de pequenas ideias que, somadas, acabam resultando em uma obra original, divertida e, como toda comédia romântica deve ser, simplesmente adorável.

A grande sacada do filme é a forma com a qual subverte as regras do gênero. Quando (500) Dias com Ela tem início, o espectador encontra Tom em um momento depressivo, logo após ter encerrado o relacionamento com Summer, que considerava ser a mulher da sua vida. Ele afirma categoricamente: “Não quero esquecê-la, quero recuperá-la”. Logo em seguida, o filme leva a plateia de volta até o “dia 1”, quando Tom e Summer se conheceram. Neste momento, parece que (500) Dias com Ela seguirá a seguinte estrutura: o público acompanhará o início do romance entre os dois para, no ato final, presenciar a forma com a qual Tom convence a garota a voltar para ele.

Nada, porém, poderia ser mais equivocado. Em primeiro lugar, os roteiristas Weber e Neustadter apostam em uma narrativa não-linear, utilizando-se de diversas idas e vindas no tempo. Assim, a plateia é convidada a montar, junto a Tom, o emaranhado de lembranças sobre o relacionamento, colocando-se lado-a-lado com o personagem na busca por tentar montar o quebra-cabeça. Nesse sentido, o recurso utilizado por Webb de colocar os cartões com os respectivos dias nos quais os fatos aconteceram passa de apenas um exercício de estilo para se tornar uma ferramenta extremamente adequada e útil para a total compreensão do filme – sem contar que ela é utilizada de forma criativa, como quando o cineasta usa uma única imagem para ilustrar diversos dias, como se o cotidiano de Tom não tivesse saído daquilo durante o período.

Aliás, esse é um exemplo do estilo através do qual (500) Dias com Elas é realizado. Marc Webb utiliza diversos recursos para contar a sua história e ilustrar os sentimentos dos personagens. São inserções de desenhos animados, filmes dentro do filme, dessaturização de cores, telas divididas e diversos outros, o que imprime maior dinamicidade à obra e fluidez à narrativa. Por vezes, fica a sensação de que este é o tipo de filme que Jorge Furtado faria caso fosse um cineasta norte-americano: uma história juvenil, criativa, repleta de sacadas e com várias referências à cultura pop.

E é impossível escrever sobre (500) Dias com Ela sem comentar algumas das “brincadeiras” de Webb. O cineasta constrói algumas cenas que não apenas funcionam isoladamente, mas se encaixam de maneira orgânica à trama, mesmo que a natureza indique que o contrário irá ocorrer. É o caso, por exemplo, da cena musical e dos filmezinhos aos moldes da Nouvelle Vague e O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman, perfeitos em sua homenagem ao cinema e na forma como representam o estado de espírito de Tom naquele instante. Mas o momento mais inspirado de Webb talvez seja a cena na qual ele apresenta, ao mesmo tempo, a presença do personagem em uma festa, separando a tela entre suas expectativas para o evento e o que realmente aconteceu. Além de ser divertida e uma ótima ideia em termos visuais, ela leva o espectador para mais perto do personagem, deixando ainda mais claro os sentimentos dele em relação a Summer.

Este, por sinal, é um dos méritos da direção de Marc Webb. O diretor emprega, sim, uma série de artifícios visuais em sua história, mas nenhum deles é gratuito ou chama a atenção por si só. Pelo contrário, têm função definida dentro de um contexto, ajudando a levar a trama adiante e construindo identificação entre o casal e a plateia. O já citado recurso da não-linearidade, por exemplo, além de funcionar para estabelecer a confusão das memórias de Tom, ainda permite Webb criar algumas rimas visuais interessantes, contrapondo cenas idênticas em momentos diferentes dos personagens: é difícil não se divertir quando o cineasta utiliza exatamente os mesmos planos de Zooey Deschanel em dois momentos distintos, um com o protagonista dizendo o que gosta em Summer e outro, após o fim da relação, com ele afirmando que odeia exatamente o que antes amava.

Mas, para realmente dar certo, uma comédia romântica precisa fazer a plateia acreditar no relacionamento daqueles personagens. (500) Dias com Ela atinge esse objetivo principalmente pela presença de Joseph Gordon-Levitt e Zooey Deschanel. Ele, um ator interessante que vem demonstrando talento através de uma série de filmes independentes, compõe Tom com uma mistura de leveza e ingenuidade, tornando-o vulnerável e extremamente divertido. Deschanel, por sua vez, segue uma atriz adorável e competente, acertando ao manter o tom misterioso da personagem. E Webb demonstra, aqui, mais uma vez, saber o material que tem em mãos, não se cansando de explorar os grandes e chamativos olhos azuis da atriz – as roupas azuis dos figurantes na cena musical, aliás, é uma referência de como o personagem está encantado com a beleza desse olhar.

O mais importante, porém, é o fato de que ambos funcionam maravilhosamente quando estão juntos em tela. A química entre o casal é perfeita e a aproximação entre os dois é realizada de forma crível e gradual. A plateia realmente tem motivos para acreditar na paixão daquelas duas pessoas, o que faz com que torcer pelo final feliz do casal se torne muito mais fácil. Assim, o público é completamente envolvido na trama e nem mesmo os pequenos deslizes da trama chegam a incomodar, como é o caso da irritantemente evoluída irmã de Tom ou das inevitáveis piadinhas envolvendo os personagens coadjuvantes, outra característica comum do gênero.

E o destino do casal é mais uma opção de coragem de Marc Webb e dos roteiristas, o que também acaba ajudando para diferenciar (500) Dias com Ela da grande maioria dos filmes do gênero. Ao invés de fazer a plateia apenas acompanhar as dificuldades deles até ficarem juntos ao final, o filme prefere uma abordagem mais realista e original, surpreendendo o espectador pela intransigente dureza com a qual se encerra. (500) Dias com Ela não é uma obra sobre um casal que se conhece para viver feliz para sempre, mas apenas uma história sobre duas pessoas que passaram um tempo juntos e aprenderam muito com isso. De certa forma, é a história de um ex-relacionamento e não do verdadeiro amor, o que é extremamente raro de ver no cinema: para Summer, Tom não passou de mais um caso antes de conhecer seu homem ideal e, ainda que ele tivesse outra esperança, o relacionamento teve que ser assim também para ele.

É dessa forma madura que Marc Webb encerra um filme que se esperava ser básico. Obviamente, a forma com a qual apresenta a sua história, através de uma linguagem videoclíptica e do humor, torna a obra acessível ao público mais jovem, o que justifica seu sucesso. (500) Dias com Ela, porém, tem mais pretensões, nas quais é extremamente bem-sucedido. É um filme que não respeita as regras do gênero ao qual deveria estar inserido e ousa apresentar originalidade e novas ideias. E, por isso, merece ser lembrado não apenas como uma comédia romântica juvenil, mas um grande filme por si só.

Comentários (2)

Carlos santos | sábado, 28 de Janeiro de 2012 - 15:03

Um dos melhores do gênero

Wolgonon miranda alves maciel | sábado, 29 de Abril de 2017 - 01:13

Diferente de quase todas as comédias românticas, é um filme que vale a pena ser assistido por a forma crua que trata como um relacionamento pode ser

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