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Filmografia Comentada - John Carpenter (Parte II)

Os anos oitenta foram para Carpenter uma década definitiva para a sua carreira, onde conheceu seus maiores sucessos comerciais, amargou fracassos, procurou alternativas na indústria e afetaram direta e indiretamente a construção de seus filmes, explicitando sua relação com política e sociedade na época e sendo um campo para expandir sua estética autoral e minimalista sobre os mais variados gêneros de cinema. Carpenter firmou o pé como um dos grandes diretores populares da segunda metade do século vinte, realizando filmes icônicos cultuados até os dias de hoje, em uma fase que em seus auges e percalços, persistiria até a década seguinte.

 

O Enigma de Outro Mundo (1982)

Lugar isolado. Uma única ameaça. Indivíduos quase em toda sua totalidade despreparados. Em sua refilmagem de O Monstro do Ártico (The Thing From Another World, 1951), Carpenter investe novamente na ficção científica e faz um filme sobre um alienígena ameaçador que persegue habitantes de uma base polar, os executando, assimilando-os e assumindo sua forma. Uma população que passa a explicitar seu caráter dominador e xenofóbico uma vez que o clima de paranoia está instalado. Ponto cinza escuro de concreto em meio a um deserto branco, a base polar é um dos campos de batalha definitivos de Carpenter neste primeiro filme da Trilogia do Apocalipse, deslizando a câmera de forma calculada por seus corredores mal iluminados com segredos escondidos. Aqui temos uma das cenas mais famosas de sua filmografia: a do teste de sangue, onde Carpenter põe o corpo como protagonista e faz seu jogo de espelhos dilatando e concentrando o tempo tornando claro que, a qualquer momento, se encontrará a verdade desagradável: naquele grupo de seres humanos, todos são suspeitos de não serem humanos. Filme sobre corpos frágeis, sejam eles sociais ou físicos, e como um ímpeto homicida primitivo, desconhecido e indiferente aos nossos dogmas e tradições pode despedaçar tudo isso facilmente. O início do apocalipse.

 

Christine, O Carro Assassino (1983)

Em sua adaptação de Stephen King, Carpenter faz em Christine mais uma história de horror cotidiano. Da mesma maneira que enquadra o bicho-papão Michael Myers ele enquadra Christine, um carro dos anos 50 que ao ser restaurado torna seu dono um obsessivo psicótico. O protagonista é dominado por um símbolo de uma geração anterior à sua, do auge do sonho americano, onde os automóveis coloridos e confortáveis eram símbolos dos EUA. O recorte de Carpenter do universo colegial abusa de arquétipos de filme adolescente para longo tingir os tons sombrios e violentos que os adolescentes detestam: a sensação de controle, posse e dominação, que em Christine é uma ameaça que surge das sombras, em luzes altas, com seu rosto metálico sempre furioso e com sede de poder. Novamente temos o tema do passado com Carpenter  materializando o generation gap em forma física, onde ferro retorcido e vidro quebrado e são filmados de maneira tão próxima e tão explícita quanto contemporâneos faziam com indivíduos. Nesse sentido, não há filme gore/slasher tão identificado com o século que foi feito como Christine. O mito ainda é o mesmo, mas a problemática do tempo onde se insere metaforiza tudo o que Carpenter e seu cinema lutam contra.

 

Starman – O Homem das Estrelas (1984)

Como o pretenso “realismo” cinematográfico parece não só desinteressar, mas ser combatido por Carpenter, há algo a se observar em Starman, filme da leva dos alienígenas retratados não como predadores ou defensores de território, mas como visitantes e observadores perseguidos por uma xenofobia quente e irracional de figuras de autoridade, utilizando do deslocamento e da fuga constante como mecanismos de uma jornada de descoberta. Equilibra-se aí, novamente, noções de libertarianismo dos filhos da contracultura e o conservadorismo “careta”. Carpenter utiliza dos efeitos visuais e da música para romper com o recorte do real: os poderes milagrosos do Starman são também luminosos e o clímax ao final é puro delírio plástico: vão-se embora as locações, a luz natural, tudo é tingido com cores duras, de contrastes chamativos. Há uma necessidade em se acreditar no milagre, em tornar o inacreditável visível.  Quando existe, a comunhão no cinema de Carpenter é individual; como o ato de assistir ao cinema e nossas relações com os afetos oferecidos. Starman, o mais próximo que Carpenter aproximou-se do melodrama, é sua síntese de sua eterna aposta em estilização, como a única saída e contestação possível frente à alienação.

 

Os Aventureiros do Bairro Proibido (1986)

Um caminhoneiro malandro lutando contra antigos demônios. Pistolas, chutes e raciocínio rápido contra raios, rituais malignos e conhecimentos milenares. Caldeirão que inicialmente muitos pensaram estar tentando embarcar na onda de Caçadores da Arca Perdida (Raiders of The Lost Ark, 1981), o roteiro que unia filmes fantásticos de kung fu que incorporavam o folclore chinês e diálogos rápidos e descontrolados que lembraram de Carpenter de filmes como Levada da Breca (Bringing Up Baby, 1938) e Jejum de Amor (His Girl Friday, 1940) de Hawks, tinha uma progressão de “descortinamento”, de começar a notar elementos estranhos no mundo normal e antes que se note tentar retornar ao mesmo, e Carpenter na realização parece não resistir em opôr o  “sagrado” com o ácido e bagunceiro secular – herança mais hawksiana impossível. Explodindo em luzes saindo de todos os lugares nas mais diferentes cores e opacidades, abusando no design de produção de cenários, do ritmo vertiginoso e maluco impresso através das obstinações dos seus personagens, Carpenter casa desavergonhadamente cérebro e músculos, os diálogos na ponta da língua e a correria e conflitos irrefreáveis. Aventureiros... é, acima de tudo, a grande tiração de sarro com tudo que cheira à mofo e um convite constante para a desestabilização como um sinônimo possível de liberdade.

 

Príncipe das Sombras (1987)

O apocalipse continua neste segundo filme da trilogia e naquele que é por excelência o mais Lovecraftiano dos filmes de Carpenter. Ainda que não se aproprie da mitologia de aberrações cósmicas do autor – aqui  o conflito é judaico-cristão, Deus e Diabo – toda a estrutura de homens curiosos – religiosos e cientistas - sendo utilizados como marionetes por forças além de sua compreensão estão lá. Com hordas de possuídos semelhantes a zumbis, sonhos ruins influenciando a realidade e gore detalhado e explícito tornando a ameaça física, urbanismo sujo e violento e horror gótico que domina tudo com as sombras, Carpenter arma um cerco de medos antigos e contemporâneos, todos eles convergindo para um único caminho: o medo primordial de aniquilação. Nas tomadas externas, o medo se avizinha, silencioso e cada vez mais próximo; nas internas, mentes são estilhaçadas, conhecimentos proibidos revelados e o que estava há muito tempo adormecido começa a acordar; vamos dos mais simples jumpscares de portas e corredores à set pieces demoradas, quase contemplativas, onde o efeito plástico e sensorial importa tanto quanto a ação. Príncipe das Sombras expressa esse infortunado fascínio pelo desconhecido – armadilha para a qual seus arquetípicos personagens são atraídos, sina a qual estão condenados.

 

Eles Vivem (1988)

A fúria de Carpenter contra a indústria após o fracasso de “Os Aventureiros do Bairro Proibido” e a observação do delírio consumista e pensamento retrógrado cada vez maior na sociedade que vivia desembocou em Eles Vivem, onde John Nada encontra um óculos escuros que mostra a realidade como ela é: humanos são desempregados e marginais, enquanto os poderosos donos do dinheiro e das comunicações são alienígenas. O mundo colorido é preto-e-branco pelas lentes escuras, onde cada placa, revista  e cédula têm mensagens subliminares que incentivam a obediência cega, o gasto descontrolado e a alienação absoluta. Não há filme mais Carpenter: nessa atualização do conflito de Hawks de “minoria contra a maioria”, compartilhando do senso de dever contra invasores opressores, Nada sai no braço com o mundo, promovendo ataques a símbolos de poder e lutando para acordar os outros miseráveis da realidade que não os representa. Se os primeiros minutos são puro vislumbre paranoico na descoberta dos avisos imperativos e aliens de terno caro, design de produção utilizado de maneira descortinadora, o segundo ato investe em abundante violência gráfica, um excruciante plano sequência de luta e um ritmo frenético de perseguição, orquestrado pela misé-en-scene que transforma símbolos de prosperidade em campos de batalha. A provocação mais direta e agressiva de Carpenter, legítimo dedo do meio em riste.

 

Memórias de um Homem Invisível (1992)

O tal “filme incompreendido” da carreira de Carpenter, filme com Chevy Chase, o maior fracasso comercial da carreira do diretor, filme este feito numa queda de braço entre cineasta, astro e produtora. Aqui temos o protagonista fútil e materialista tornando-se invisível devido a um acidente ocorrido durante um seminário de um grande laboratório passando à vítima do próprio sistema que era agente ativo e colaborador. Carpenter lança um olhar clínico através dos efeitos visuais sobre benefícios e empecilhos da invisibilidade naquilo que é quase um “Lado B” de Eles Vivem, tendo aqui a mudança de um indivíduo como catalisador da sociedade revelando seu lado desumano e a única forma de sobreviver é justamente sendo um pária. Entre muitas set-pieces e gags, temos um sofisticado jogo de ponto de vista da montagem entre a visão do espectador, do protagonista e dos outros personagens. Chevy materializa-se aos nossos olhos para criar graça ou suspense; some para  expôr sua condição ou criar suspensões narrativas. Onde também somos observadores e cúmplices invisíveis Carpenter investe em pura criação visual e humor de acidentes para uma fábula sobre alienação e anacronismo, onde a atmosfera de descobrir um mundo estranho ao virar uma esquina nunca é deixada de lado.

 

Trilogia do Terror (1993)

O pequeno projeto pessoal de Carpenter é uma antologia de terror, uma clássica possibilidade do gênero onde ele como figura proeminente e fã junta forças com Tobe Hooper para contar três histórias que terminam em um assassinato. A paixão pelo pequeno projeto faz Carpenter também atuar como a figura de um “mestre de cerimônias” - um defunto sarcástico que se levanta para contar como três invólucros pretos chegaram ao necrotério. Em “O Posto de Gasolina”, mostra a força de uma situação simples onde, em um lugar isolado, a vítima resiste às investidas de seu perseguidor – exercício de tensão, distensão temporal e composição de quadro que simplifica os fatos e concentra mais ação física que em qualquer filme seu. Já em “Cabelo” repete seu lado farsesco, ironizando ideais sociais criando monstros e obtendo através da elipse uma contemplação da degradação. “Olho”, de Tobe Hooper, é ao gosto do diretor: um catalisador quase simplório detonando uma maré de violência gráfica filmada sem sutilezas na relação narrativa quadro e extra-quadro – a câmera mostra tudo. Além disso, temos também pequenas participações de lendas do filão como Roger Corman, Wes Craven, Sam Raimi e Greg Nicotero, tornando o trem fantasma cheio de gore e humor negro um deleite para o fã do gênero.

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Parte I

Parte III

Comentários (17)

Cristian Oliveira Bruno | sábado, 02 de Maio de 2015 - 19:36

E vem aí "À Beira da Loucura", "Vampiros de John Carpenter", "Cidade dos Amaldiçoados", "Fuga de L.A." "Pesadelo Mortal"!

Thyago Militão | segunda-feira, 04 de Maio de 2015 - 07:16

Príncipe das Sombras é um dos filmes mais sinistros que já assisti. Carpenter é um FDP!!!

Felipe Nicéas Carneiro Leão | segunda-feira, 04 de Maio de 2015 - 09:51

Rever filmes dirigidos por John Carpenter é sempre um deleite, diversão garantida!

Marlon Tolksdorf | quarta-feira, 06 de Maio de 2015 - 09:32

Os Aventureiros do Bairro Proibido que delícia!!! É bom demais!!!!

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