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Artigos

Filmografia Comentada - Hayao Miyazaki

Grande mestre japonês, Hayao Miyazaki é um nome fundamental no cinema de animação. Depois de anunciar nesse ano sua aposentadoria (embora haja a esperança dos fãs de que ele mude de ideia), o cineasta acaba por deixar um vazio no coração daqueles que viram através de seus traços e cores um portal para um universo ilimitado de fantasia e aventura. A equipe Cineplayers, em sua homenagem, decide fazer um pequeno especial comentando todos os longas de sua filmografia, além de um documentário sobre a produção de seu mais recente trabalho.

 

O Castelo de Cagliostro (1979), por Heitor Romero

O Castelo de Cagliostro foi a primeira animação de Hayao Miyazaki para o cinema, antes mesmo da fundação do Estúdio Ghibli, e que ainda trazia consigo muito dos maneirismos dos desenhos animados matutinos de televisão, de onde o personagem Lupin saiu. Alguns esnobam o filme por suas influências da TV, suas cores saturadas para o padrão Miyazaki e todo o convencionalismo unidimensional do roteiro, que é todo estruturado nos padrões de castelos encantados, princesas indefesas, mocinhos corajosos e vilões maquiavélicos. Até certo ponto, tudo isso realmente pode contar como um conjunto de desvantagens, mas vale lembrar que até então Miyazaki não possuía experiência nenhuma com o cinema e não teve toda a liberdade que pretendia com sua história, e mesmo assim conseguiu driblar as limitações e entregar uma linda aventura à moda antiga, com direito de abusar de todos os clichês possíveis e ainda assim se manter interessante e diferente. Foram necessários anos até que ele amadurecesse como animador, como cineasta e como contador de historias, mas independente disso, O Castelo de Cagliostro é mágico e dono de uma pureza e ingenuidade encantadoras, atingindo pelos caminhos mais simples o coração do espectador.

 

Nausicaä do Vale do Vento (1984), por Cesar Castanha

Nos últimos anos, a ficção-científica adquiriu um caráter mais ambientalista, aproximando-se de aflições contemporâneas. Nesse sentido, é comum que se lembre de Avatar, do James Cameron, ou até de outros blockbuster menos populares com a crítica, como O Dia Depois de Amanhã. O ambientalismo nesses filmes é ingênuo e cheio de contradições. Nausicaa – A princesa do Vale dos Ventos traz para o cinema uma discussão muito mais madura acerca do ambiente. Não tendo equivalente na ficção-científica ou até no documentário ambientalista contemporâneo (porque Uma Verdade Inconveniente é cheio de problemas), a única comparação justa pra complexidade do que é dito em Nausicaa deve estar em O Diabo Provavelmente, de Robert Bresson. Aqui, Miyazaki não faz concessões na crítica ao agronegócio e às medidas ambientais do chamado capitalismo sustentável.

 

Laputa: Castle in the Sky (1986), por Pedro De Biasi

Com O Castelo no Céu, Miyazaki aborda os rudimentos de temas e conflitos que desenvolveu ao longo dos anos. O garoto mineiro Pazu encontraria ecos nas protagonistas de O Serviço de Entregas de Kiki e A Viagem de Chihiro, devido ao processo de amadurecimento que encara nas vias do trabalho e da aventura. O ambientalismo, que cruza boa parte dos filmes do japonês, tem traços fortes em seu terceiro longa-metragem, com o castelo de Laputa guardando uma mensagem poderosíssima sobre a relação da humanidade com a natureza. Já as questões militares, bélicas e políticas, igualmente notáveis aqui, são aprofundadas e relativizadas em Vidas ao Vento. E a complexidade moral deste seu último trabalho, assim como Princesa Mononoke, remonta também a figuras e ideias conflitantes de O Castelo no Céu, como os piratas afetuosos e os robôs capazes de delicadeza e devastação extremas. Tudo embalado pela linda música de Joe Hisaishi e pontuado por sequências assombrosas de ação e destruição. Não é dos trabalhos mais elaborados do cineasta, e isso não faz falta: ser uma animação tão encantadora e grandiosa é mais que suficiente.

 

Meu Amigo Totoro (1988), por Rodrigo Cunha

As crianças e seus mundos particulares são realmente algo único, mas talvez não haja um filme que ilustre melhor o tema do que Meu Vizinho Totoro. Elas, sem noção da real gravidade daquilo que as envolve - sua mãe está doente no hospital - esquecem por um momento disso através de um mundo mágico que só elas conseguem ver, mundo este com direito a bichos simpáticos, gatos gigantes que servem como ônibus e um imenso urso coelho ou sei lá o que é aquilo, só sei que é muito carismático, chamado Totoro. Ele ri, meio bobalhão, de olhar perdido, mas está lá, presente em suas vidas. Seria real? Não sei, não interessa. Na mente delas é e é o que importa. Pra mim, esse mundo vai ficando cada vez mais distante a cada dia que passa e a idade vai chegando, mas é bom ver, rever e rever de novo o filme e sempre lembrar de como é maravilhoso ser criança, período sem preocupação alguma, com todo o mundo de imaginação à flor-da-pele e uma vida inteira pela frente. Ah, que sentimento nostálgico que Totoro consegue resgatar...

 

O Serviço de Entregas da Kiki (1989), por Alexandre Koball

Assisti – desculpe, a palavra certa é “saboreei” - "Majo no takkyûbin" em 2003. Desde lá, essa animação tem lugar guardado em meu coração. Apesar de Totoro ser o ápice do trabalho de Miyazaki (e pra mim, indiscutivelmente com justiça), é “O Serviço de Entregas de Kiki” que proporciona uma sensação de paz e de alegria inexplicável. A união das cores, movimentos e sensibilidade encontrada nos quadros da Ghibli satisfez este voraz fã de Cinema e apaixonado (e crítico ferrenho) de animações. Kiki é arte e é entretenimento. Kiki (e isso serve para quase toda a filmografia do mestre) não entrega bichinhos fofos por entregar, e nem de forma gratuita. Temos aqui uma história de amadurecimento, de como uma criança – ou uma adolescente – pode e deve se virar em um mundo novo, estranho a ela, e como a visão única dessa idade (ainda com a mente aberta, dividida entre a inocência da infância e a maldade da idade adulta) oferece soluções aos desafios do dia-a-dia, mesmo de forma destrambelhada. Kiki é uma obra mágica, em vários sentidos.

 

Porco Rosso - O Último Herói Romântico (1992), por Cesar Castanha

Quem fala que a obra-prima Vidas ao Vento contradiz a filmografia de Miyazaki certamente nunca viu Porco Rosso. Está tudo aqui (como em vários outros de seus filmes): o romantismo ingênuo e complexo lamento pela paz e o lirismo do vento. O diretor nunca poderia dirigir um live-action porque, mesmo nos seus filmes menos fantasiosos e surrealistas, a estética do vento, animado à Miyazaki, é essencial para entender o quixotismo de seus personagens, seja Porco, Kiki, Nausicaa ou Jirô. Porco Rosso tem a classe de Asas, rara mesmo nos melhores épicos de guerra. O subtítulo é claro: “O último herói romântico”. E deve ser mesmo. Podemos ver Clark Gable como Rosso, Rosalind Russel como Fio, Marlene Diertrich como Gina, num tempo de tanta aparente simplicidade que o realismo e a verdade social poderiam ser dispensados.

 

Princesa Mononoke (1997), por Guilherme Bakunin

A articulação mitológica que Miyazaki desenvolve em suas histórias é fascinante. Muitos teóricos entendem que os mitos são representações secularizadas de inquietações humanas. Na possibilidade dessa definição, assistir a um filme de Miyazaki em plena forma é ter os olhos abertos a uma profusão de sentimentos despertados por narrativas sublimes e fantástica, e por uma animação que ninguém, repito, ninguém até hoje conseguiu rivalizar. Em Princesa Mononoke, a obra chefe desse diretor, sua história desenvolve-se pacientemente enquanto nos tornamos testemunhas privilegiadas no contato com personagens e lugares cheios de cores e energia. Mononoke seria essencialmente um filme de contemplação, não fosse a apreensiva e cativante jornada do príncipe Ashitaka na busca de curar uma maldição que o aflingiu por conta de sua entrega, de sua honra.

 

A Viagem de Chihiro (2001), por Francisco Carbone

Uma porta aberta para o fim da inocência. Às vezes sinto que o cinema de Miyazaki é feito desse tema único, destrinchado numa obra exemplar. Um microscópio colocado em suas aquarelas nos permite observar a passagem nem sempre tranqüila do fim de um tempo, uma passagem de bastão poética e literalmente encantada. Em Chihiro, sua protagonista rege a síntese dessa mecânica, atravessando sua inocência e retirando a de outros personagens e universos, moldando sua sensível imaginação de acordo com cada etapa vencida no jogo que ela mesma criou, jogo de espelhos em que realidade e ilusão se refletem e se confundem, onde todos conseguem se identificar facilmente. Uma heroína tão fascinante que parece não querer se despedir de ninguém... nem de Miyazaki, nem de Sem Face, nem de nós.

 

O Castelo Animado (2004), por Régis Trigo

Àqueles que se habituaram a ver filmes de animação pelo padrão Disney de qualidade, certamente precisarão de um tempo para se acostumar com as obras do japonês Hayao Miyazaki. Em vez dos modernos efeitos digitais, traços à mão; no lugar das tramas lineares, histórias surreais, meio sem pé nem cabeça (às vezes com muitos pés e muitas cabeças); os heróis têm algo de vilão e os vilões, algo de herói; os coadjuvantes “fofinhos” abrem espaço para seres estranhos, bizarros, e em sua maioria sem forma definida; a tecnologia 3D não dá as caras; e as crianças normalmente sentem mais temor do que admiração. O Castelo Animado tem tudo isso e mais um pouco. Sétimo longa-metragem de Miyazaki e lançado logo após o seu maior êxito de crítica, A Viagem de Chiriro (até hoje a primeira e única animação a ganhar o Urso de Ouro de Berlim), o filme é baseado em romance da escritora britânica Diana W. Jones, e traz elementos que o aproximam de A Bela e a Fera, Orfeu e O Mágico de Oz. Mesmo com essa salada cultural, Miyazaki mantém-se fiel ao seu estilo visual e temático. Embalado por um show de cores e sons, o diretor passa sua mensagem antibélica (no sentido amplo, já que o roteiro não especifica quem está guerreando nem pelo quê), reafirma seu apego à tradição familiar (a protagonista abre mão da sua vida para seguir a chapelaria do pai), demonstra sua paixão pelos aviões antigos (que ocuparia o centro da história, anos mais tarde, em Vidas ao Vento), constrói protagonistas humanos (o herói é um meninote egocêntrico, covarde, narcísico e meio metido a rock star) e coadjuvantes funcionais (o espantalho, o foguinho Calcifer, e o próprio castelo ambulante, uma espécie de portal espacial e temporal, que vira um dos personagens mais carismáticos do filme); e, o mais importante, não se prende tanto à trama nem se preocupa em responder a todas as perguntas que ficam soltas no ar. A paixão pelos filmes de Miyazaki não costuma ser à primeira vista, e com O Castelo Animado provavelmente não será diferente. Para aqueles que apostarem numa segunda ou até terceira chance, certamente terão com esse cineasta um duradouro relacionamento pela frente.

 

Ponyo - Uma Amizade que Veio do Mar (2008), por Heitor Romero e Guilherme Bakunin

Embora o público-alvo das animações de Hayao Miyazaki sempre tenha sido o infantil (com a exceção de Vidas ao Vento), foi apenas em dois de seus filmes que ele se focou exclusivamente nas crianças bem pequenas: Meu Amigo Totoro e Ponyo. No segundo, ele simplesmente ignora qualquer padrão narrativo ou linha de raciocínio para adentrar no universo das criancinhas através da completa abstração. Ponyo parece regido pela imaginação de uma criança durante uma brincadeira, com as situações mais loucas e psicodélicas se desenrolando sem pé nem cabeça. A princípio a história de um menino que faz amizade com “uma peixinha” sapeca, filha dos donos dos mares, se transforma numa policromática alegoria da infância, quando o oceano invade todos os cenários e tudo de mais ilógico e nonsense vai se expandindo ao ritmo frenético da projeção turbinada e ilimitada de uma criança que inventa uma brincadeira com seus brinquedos ou com seus lápis coloridos. Ponyo tem gosto de infância, e é a animação mais doce e inocente dos últimos anos (talvez desde o surto colorido do número musical dos elefantes cor-de-rosa em Dumbo), um triunfo narrativo e uma delicada ode à imaginação louca das crianças. Prova definitiva de que Hayao Miyazaki, mais do que ninguém, entende a fundo esse universo frenético.

Em termos de animação, Ponyo talvez seja o filme mais espetacular de Miyazaki, fazendo isso de uma catástrofe natural para provocar ruptura no tempo e espaço, dando vida a apaixonantes e gigantescas criaturas pré-históricas, a uma flora exótica e variada e seres mitológicos característicos de seus trabalhos mais notáveis. Até mesmo inadequações e estranhamentos são absorvidos pelo espetáculo visual e sensorial de um filme que se direciona para crianças, portando o que nelas há de mais fascinante: a imaginação. Não tem o peso e a profundidade dos filmes mais comentados de Miyazaki, mas compensa com o vigor de uma história vibrante, mágica e exuberante.

 

Vidas ao Vento (2013), por Marcelo Leme

Esta é uma romântica cinebiografia de Jiro Horikoshi, um engenheiro aeronáutico e designer que serviu o Japão durante a Segunda Guerra Mundial. Sua vida é contada com a tradicional minúcia característica das animações do Studio Ghibli. Com essa obra que detém uma dramaturgia comovente, perpassamos décadas da história japonesa a partir de um homem subjugado a sonhos de menino e sua infinitude diante os assolamentos de acontecimentos pouco virtuosos. Os desenhos, o romance, as guerras, tudo é retratado de maneira incrivelmente sólida comparado às animações anteriores e sucedem num tom imaculado, restringe a performance da fantasia aos delírios de concepção de um jovem sonhador – um desenhista assim o é. É pura projeção pessoal do cineasta. Justamente os sonhos se chocam com os horrores da guerra, ambos coexistem em cena numa abordagem tênue, sempre questionada, tanto pelos espectadores quanto pelos personagens. O discurso do meio se funde na justificativa de feitos e Jiro Horikoshi permanece sóbrio frente às decisões desse meio, o que lhe conforta, ainda que vá para casa ciente dos resultados amargos dos feitos. As elaborações narrativas da obra seguem linearmente comprometidas com uma história pessoal, funcionando como intersecção a de seu próprio realizador. É o último filme de Hayao Miyazaki, e, conforme o vento do título, voa alto e longe, ainda que seja seu trabalho mais firme e menos fantástico. Vidas ao Vento é uma corrente valorosa de emoção e melancolia.

 

Estúdio Ghibli, Reino de Sonhos e Loucura (2013), por Pedro Tavares

Durante o processo de produção de Vidas ao Vento, a jovem documentarista Mami Sunada transparece a relação de Hayao Miyazaki com a memória afetiva que vai de encontro ao tema de seu último filme. Entre as obrigações profissionais – planejamento de lançamento do filme, escolha de dubladores, etc. – e o fantasma da aposentadoria, Miyazaki se mostra um homem muito mais preocupado consigo e suas regras (incluindo a produção do filme) para sua sobrevivência, contraditoriamente fumando um cigarro após o outro.  Tudo isso não passa de um escudo no qual Sunada, incansável, espera a baixa guarda do diretor – que vem na cena mais protocolar e curiosamente mais terna do filme, onde enfim encontramos com sua obra e o motivo principal para elas existirem. Este gesto serve de espelho para toda filmografia de Miyazaki e na relação dicotômica com o diretor IsaoTakahata e com o passado.

Comentários (20)

Sergio Gregorio Araujo Silva | quarta-feira, 03 de Dezembro de 2014 - 17:37

Meu Top 10 do Miyazaki:

1- A Viagem de Chihiro (2001)- Nota 9,0
2- Meu Amigo Totoro (1988)- Nota 8,5
3- Laputa: Castle in the Sky (1986)- Nota 8,5
4- Princesa Mononoke (1997)- Nota 8,0
5- O Serviço de Entregas de Kiki (1989)- Nota 8,0
6- Ponyo - Uma Amizade que Veio do Mar (2008) Nota 8,0
7- Vidas ao Vento (2013)- Nota 8,0
8- Nausicaä do Vale do Vento (1984)- Nota 8,0
9- O Castelo de Cagliostro (1979)- Nota 7,5
10- O Castelo Animado (2004).- Nota 7,5

Gustavo Antocheski | quarta-feira, 03 de Dezembro de 2014 - 18:02

Meu top Miyazaki: http://www.cineplayers.com/lista/hayao-miyazaki-/23273

Gustavo Antocheski | sexta-feira, 05 de Dezembro de 2014 - 15:07

Aqui em São Paulo também vai ter mostra do Miyazaki. http://vejasp.abril.com.br/atracao/o-universo-de-miyazaki-otomo-e-kon 😁.

Luiz Fernando de Freitas | sábado, 06 de Dezembro de 2014 - 14:45

Meu TOP do Hayao Miyazaki:

http://www.cineplayers.com/lista/top--hayao-miyazaki/25426 😁

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