Aqui jazem os ossos quebrados de L.B. Jefferies.
Ora, mas se não é o mestre do suspense!
Não há surpresas, não há incredulidade. Janela Indiscreta não passa de mais uma obra-prima que vai direto para a conta do cineasta inglês Alfred Hitchcock, comprovando aquilo que todos já sabiam: um dos diretores mais geniais e completos do cinema nunca entregou um trabalho tão original e magistral (com o perdão da rima) como esse.
É fácil entender o quão gigantesco, mas ao mesmo tempo simples, “Rear Window” consegue ser, ainda mais com Sir Alfred por trás das câmeras. Não tem grandes cenas do suspense, nem uma música esquemática e muito menos assassinatos macabros, espionagem e suspeitas. Não, eu não enlouqueci. Sei muito bem que o filme tem tudo isso e mais um pouco, mas não da forma como era antes, ou pelo menos da forma como ficou conhecido o suspense depois de Hitchcock. 'Janela Indiscreta' abusa e usa da originalidade de um roteiro primoroso de John Michael Hayes, tanto no desenvolvimento dos personagens como em situações curiosas que mostram de uma maneira diferente e divertida o cotidiano das pessoas, aproveitando para apresentar os outros personagens, ainda que não tenham uma participação ativa no longa, ajudam-o a se tornar um trabalho muito mais interessante e excelente.
E para ser atrativo, Hayes escreveu uma história, que a meu ver, é humildemente brilhante. E ela conta como Jeff (James Stewart), um jornalista que começa a suspeitar que um de seus vizinhos de frente está envolvido no assassinato da esposa, uma mulher inválida. O filme já começa impressionando. As persianas do apartamento de Jeff vão se abrindo, em uma analogia perfeita aos cinemas daquela época, cujas cortinas revelam a telona de baixo para cima. E a câmera vai mostrando a visão que ele tem da sua janela. Como diz o próprio título, de forma totalmente indiscreta, o repórter fotográfico tem uma vista panorâmica para as janelas dos vizinhos, observando sempre que pode as suas atividades. Ao contrário do que possa parecer, Jeff não é um personagem vagabundo, que passa o dia inteiro sentado em sua cadeira, xeretando a vida alheia. Na verdade, ele é um personagem digno de pena, pois foi vítima de um acidente de trabalho no qual quebrou a perna, e está terminantemente proibido e até mesmo, incapacitado de se locomover. Para piorar ainda mais sua situação, sua perna quebrada coça, ele tem que apelar para a ajuda de uma colher de madeira, sempre disposta ao seu lado. E como se não bastasse, está um calor simplesmente infernal, e o pobre coitado com a perna engessada há três semanas, enquanto os vizinhos dormem de roupas íntimas, janelas abertas ou então, na varanda de seus apartamentos. Jeff recebe a visita constante de Stella, a sempre magnífica e por coincidência, em papéis de empregada doméstica Thelma Ritter, que com seus diálogos retos e sinceros, que a atriz sabe fazer como ninguém, garante as risadas dos espectadores. Além da também indiscreta empregada, o jornalista tem um relacionamento com a belíssima Lisa Carol Freemont, interpretada pela futura princesa de Mônaco, Grace Kelly. Ela, que pretende dar um passo além da perna quebrada de Jefferies no namoro, é atenciosa, trabalhadora e bem vestida. E é em mais um dos dias que Jeff passa sem fazer nada por causa de sua perna, e já que o calor está mais uma vez, insuportável, ele não vê outra saída para se distrair, que não seja vigiar os vizinhos, a fim de ter um pouco de diversão. E é nesses olhares para fora da janela, que ele vê uma mulher do andar de baixo, sozinha, que se veste elegantemente para receber alguém, que ela finge estar lá. Uma bailarina, que recebe a visita de vários homens e fica ensaiando os seus paços de lingerie, um casal de recém-casadas, um vizinho pianista que sempre fá festas, um outro casal que tem um cachorro, e um vendedor ambulante, que é casado com uma mulher doente. Em uma das quentes noites que ele não consegue durmir, ele percebe que a esposa dele sumiu, do nada, enquanto o homem fazia diversas viagens para fora do apartamento durante a madrugada. Cismado com o que quer que tenha acontecido, Jeff passa a suspeitar que esse homem misterioso tenha assassinado a sua mulher, e cortado-a em pedaços, desfazendo dela aos poucos.
Depois de me alongar muito contando a sinopse do filme, e me exaltando quase a ponto de contar detalhes mais do que importantíssimos, vou passar a analisar o trabalho genial de Hitchcock. O diretor inglês tem um desempenho simplesmente perfeito e ousado. Abusando da originalidade, ele comanda as cenas com maestria e todas ficam, além de divertidas, com um misto de tenso generalizada no ar. Durante o filme todo, a câmera simplesmente não sai de dentro do apartamento de Jefferies. E justamente por isso, permitiu a Hitchcock uma jogada inteligente com a fotografia, com a música e com a montagem, permitindo situações inusitadas. A luz da noite que entra pelas janelas do apartamento do protagonista é tão intensa como a luz do dia, e o jogo com as sombras e a penumbra da uma sensação de calor até pra quem está assistindo.
A ação do filme em si demora pra chegar, mas quando ela finalmente vem, é como um encantamento. Os caminhos conduzidos pelo roteiro até o momento do clímax são brilhantes e coerentes, deixando o espectador preso como nunca à sua cadeira. E como já foi dito, durante essa cena esperada tão ansiosamente pelo público, a fotografia é mais uma vez impecável, praticamente não revelando o rosto de um dos presentes, enquanto o outro está completamente envolto pela luz do luar, (in)tensa.
Agora, o filme é praticamente todo das atuações. James Stewart está mais uma vez radiante, carismático e perfeito. Um dos atores mais sublimes da história do cinema está simplesmente impagável, com modos de falar e de s comunicar que exprimem toda o seu sofrimento como incapacitado de andar, ele também dá um show como um homem amigo e inteligente, e que não tem nada de bobo. Uma interpretação humilde, mas extraordinária. Quem segue na mesma linha é a beldade Grace Kelly, além de ser um dos rostos mais lindos do cinema (dá pra perceber que o filme coleciona ícones da sétima arte), ela é charmosa, discreta, meiga, apaixonada e carismática, que na verdade, parece ser a característica dominante dos personagens de “Rear Window”. Além do casal, temos Thelma Ritter mais uma vez muito bem e Wendell Corey, como o detetive amigo de Jeff, que também está ótimo.
Janela Indiscreta é uma obra-prima única do cinema de Hitchcock, um suspense de primeiríssima qualidade, que merecer ser visto, revisto contínuas vezes. A sensação de se ver um filme como esse: tenso, divertido, interessante e original, é inexplicável.
Comentários (0)
Faça login para comentar.
Responder Comentário