Instinto Selvagem é um daqueles filmes que logo no início já deixa claro: "Se isso não é pra você, pode parar por aqui mesmo." A primeira cena, considerada por muitos como uma das melhores transas que o cinema já viu, é importante, impactante e bela. Mas o aviso foi dado.
Não é exagero. "Basic Instinct", que esteve na seleção oficial do Festival de Cannes, é um filme restrito para aqueles que realmente curtem cinema e para quem aprecia obras do mesmo gênero. A mistura grotesca de erotismo com suspense, a qual Paul Verhoeven apresenta sem dó nem piedade (mas com indiscutível beleza), pode desagradar muitas pessoas. Não foi o meu caso. "Instinto Selvagem" é um filme que gera tensão e interesse a todo o instante, o que nos leva a concluir que, por ser um suspense, o resultado dessa mistura de Verhoeven não deu nada errado.
O filme começa com a tal cena de sexo. O espectador só é capaz de identificar o rosto do homem, enquanto a mulher permanece com o rosto oculto, por motivos óbvios. Enquanto rola a transa, a mulher, loira, amarra as mãos do parceiro na cabeceira da cama com uma echarpe branca. Ela curva-se para trás, apanha um picador de gelo, e perfura todo o corpo do homem, incapaz de se defender. No dia seguinte, o detetive Nick Curran é chamado para o local do crime. Ele identifica a vítima como o antigo astro de rock, Johnny Boz, e fica encarregado das investigações. Ele e o companheiro Gus, então, vão até a casa de praia da namorada do roqueiro morto, a fim de conseguir maiores informações à respeito do assassinato. É a primeira vez (ou não) que nos deparamos com a figura mítica de Sharon Stone como Catherine Tramell. Sedutora e fatal, a jovem passa a ser peça fundamental para o desenrolar do mistério. Ela é chamada para interrogatório, é submetida ao detector de mentiras, depõe sem mostrar qualquer vestígio de culpa, mas mesmo assim Nick ainda não está convencido de que ela não tem participação no crime. Além disso, Catherine parece saber muito da vida do detetive, incluindo detalhes que somente ele e sua antiga parceira sexual e atual colega de trabalho, Beth, tinham acesso. Isso o instiga ainda mais para saber quem está por trás do assassinato do astro do rock, mas ele não sabe onde está se metendo. Aos poucos, Nick e Catherine iniciam um caso, mas a situação já ficou fora de controle.
Eu pretendia discutir os possíveis finais de "Instinto Selvagem" nessa crítica, mas não valeria a pena sugerir hipóteses para o que quer que tenha acontecido na realidade. Tudo o que o leitor que ainda não assistiu ao filme precisa saber é que o final do filme pode ser interpretado de muitas maneiras. Apesar do caso ter sido solucionado lá pelas tantas, a última cena mostra que nem tudo é o que parece. E essa é justamente a graça de "Instinto Selvagem". Não é preciso que se saiba quem é o verdadeiro assassino, mas não deixa de ser interessante especular sobre os mais diversos motivos que levariam o culpado a cometer o crime. Nenhum deles parece viável, mas talvez seja esse o propósito do roteiro.
Para desenvolver o conflito e chegar à esse final ambíguo, o roteirista Joe Eszterhas escreveu um texto afiado de diálogos sórdidos e diretos. A qualidade do script, em geral, deve-se principalmente à trama. Ela possibilita diversas interpretações e é capaz de manter o interesse do espectador até o final. O mais curioso de todo o filme é que as atenções do espectador não ficam voltadas somente para a resolução do mistério, mas sim no relacionamento entre Nick e Catherine. São os típicos "jogos perigosos", onde há muito sexo, prazer e violência envolvidos. E não é apenas o assassinato de Johnny Boz que ronda a história de investigações e tentações. Uma situação sem explicação aparente acaba levando o filme a diversas perguntas sem respostas, as quais nos são fornecidas com o andamento da narrativa, mas para logo depois serem colocadas em dúvida novamente ao final. Assim, fica a sensação de que o enredo não tem fim. E essa situação é muito bem trabalhada por Eszterhas. Aliás, dizem que, para finalizar o roteiro, ele ouvia direto aos sucessos da banda Rolling Stones. Inclusive, a primeira versão do script deixava em aberto a opção de se colocar "Sympathy for the Devil" na primeira cena do longa. Mas é claro que isso não interferiria em nada na interpretação final do filme.
Se o destaque fica por conta da história, o elenco em si trás a caracterização perfeita para os personagens. Aqui os olhares se voltam todos para a dupla formada por Michael Douglas e Sharon Stone. Enquanto ele esboça o detetive viciado, Stone compõe uma Catherine Tramell fatal, sedutora, insinuante e perigosa. Os dois em cena são espetaculares. São duas grandes atuações. Ele, que já fora consagrado com o Oscar por Wall Street - Poder e Cobiça, e ela, que deve à Paul Verhoeven a personagem que a levou para o estrelato. Depois de "Basic Instinct", Stone brilharia em Cassino, de Martin Scorsese.
Enfim, Instinto Selvagem é um filme forte e extremamente eficiente como suspense. Possui diversos aspectos técnicos que só favorecem o andamento do filme, como a trilha sonora de Jerry Godsmith, mas nenhuma delas merece tanto destaque quanto o tratamento excepcional dado à história e aos vários conflitos que a trama carrega.
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