Um filme tenro, sincero e humanizado. Flor do Deserto fala sobre a história de vida de uma mulher que não queria ser mulher.
"Por que tem que ser tão triste e tão doloroso?". É a pergunta que Waris Dirie fazia-se quando tinha apenas três anos de idade. Quando perguntada sobre o dia que mudou sua vida, muitos anos depois, quando Waris já era considerada um ícone da moda, ela refaz essa mesma pergunta, mas desta vez tentando convencer o mundo a olhar com outros olhos um grave problema que afeta a África ainda nos dias de hoje. Ainda criança, a menina passa por um ritual, onde o clitóres e os lábios internos e externos são cortados, e a pele ao redor costurada. Faz parte de uma tradição africana, a qual visa manter a virgindade e pureza da mulher até a noite de núpcias, quando o marido pega uma faca ou um outro objeto pontiagudo para desfazer os nós. Trata-se de uma prática dolorosa e primitiva, extremamente criticada pelo órgão da ONU, a Organização Mundial de Saúde. Segundo eles, o ritual é uma ofensa gravíssima aos direitos humanos, que permite à mulher se desenvolver psicossexualmente de forma natural e saudável, sem sofrer abalos como os causados por esse tipo de circuncisão. A também conhecida como Mutilação Genital Feminina (MGF), ainda pode causar sérios problemas de saúde, tal como infecções. Além disso, a prática ainda pode provocar danos psicológicos na mulher, sem falar na dor que esta sente e no risco do processo ser fatal.
Waris Dirie, hoje embaixadora da ONU e principal responsável pela discussão do problema, também teve sua genitália mutilada quando criança. Waris, que deixou seu povo na Somália em busca de liberdade e de uma vida melhor, chegou a Londres pensando que ser mulher é sofrer, ser submissa ao marido e sentir dor.
Apesar dessa ser a discussão essencial do filme, o trauma que levou Waris a ingressar na ONU só passa a ser discutido depois. Durante boa parte do filme, o roteiro se preocupa em contar como a menina pobre e ignorante da Somália se transformou em uma top model de sucesso. Para fazer isso, o roteirista e também diretor Sherry Horman decidiu fazer uso da velha e boa fórmula de outras cinebiografias. Começando da infância da protagonista e vivendo de idas e vindas, o roteiro esquemático conta como Waris Dirie foi descoberta pelo fotógrafo Terry Donaldson na lanchonete onde trabalhava, e como ela foi, aos poucos, se adaptando ao inglês e à vida de modelo. Claro que, como toda biografia, a vida de Waris é cheia de boas histórias e episódios interessantes. O melhor deles é quando Marylin, vendedora e aspirante à dançarina, encontra a jovem somali dentro do banheiro da loja onde trabalhava. Mal sabe ela, embora nós saibamos muito bem, que as duas logo se tornariam grandes amigas e companheiras.
Entretanto, muitos desses episódios da vida de Waris são apenas citados ou superficialmente trabalhados. A duração de duas horas não é o bastante para abordar todas as passagens da vida da ex-modelo de forma satisfatória. Assim, a sua história fica com muitos pontos superficiais, mal trabalhados e indiferentes a todo o resto.
No que diz respeito ao elenco, "Desert Flower" conta com mais figuras famosas do que imaginávamos, todas desempenhando muito bem seus respectivos papéis. Muito embora Sally Hawkins, Timothy Spall, Juliet Stevenson e Anthony Mackie se destaquem com bons momentos, todas as atenções se voltam para Liya Kebede. A atriz, tão linda quanto a verdadeira Waris Dirie, se sai muito bem para quem faz sua primeira aparição no cinema, ainda mais como protagonista.
"Flor do Deserto", para quem não sabe, é o significado do nome completo de Waris. De uma forma ou de outra, veio bem a calhar com sua história de vida. O filme, por si só, é ousado e surpreendente. Foi pouco comentado, mas trata-se de um longa importante, interessante e humanizado, salientando os direitos femininos e mostrando-se terminantemente contra a prática da circuncisão feminina. Toca em um assunto que muitos desconhecem, mas que até hoje faz vítimas na África e também na Ásia. Graças à Waris Dirie, a polêmica mutilação genital feminina pôde ser finalmente discutida, proibida em muitos locais, mas ainda não foi extinta. Mais de 6 mil meninas ainda são vítimas dessa prática todos os dias, e o filme faz questão de mostrar o quão doloroso o ritual é capaz de ser. Um bom filme, esquemático e formulaico, mas uma grata surpresa.
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