Poderia ser muito melhor não fossem os incontáveis erros de direção, mas se Chico Xavier tem alguma qualidade, esta reside na capacidade do filme em se comunicar com o espectador.
Para muitos, a história de Francisco Cândido Xavier é uma incógnita. Ele, que fora um dos médiums mais populares e queridos do Brasil, tem sua vida, cercada de polêmicas e dúvidas, retratada no cinema. Dirigido por Daniel Filho, conhecido cineasta de comédias como Se Eu Fosse Você, "Chico Xavier" é um dos maiores sucessos de bilheteria do cinema brasileiro. Além de bater o recorde de maior estreia nacional de todos os tempos (quase 600 mil espectadores foram conferir o filme), o mais novo trabalho de Daniel Filho caminha também para outro recorde: o de filme brasileiro com maior arrecadação em território nacional da história. O último boletim oficial, publicado na segunda quinzena de Abril, divulgou que "Chico Xavier" já somava mais de 18,5 milhões de reais nas bilheterias, o que coloca o filme bem atrás de Se Eu Fosse Você 2, que, em dólares, já arrecadou mais de 24 milhões.
Todo esse sucesso em torno do filme só ajuda no seu marketing e cada vez mais pessoas vão assisti-lo nos cinemas. Esse é, sem dúvidas, um dos fatores que mais contribuem para uma campanha bem sucedida de produções cinematográficas no circuito comercial. Podemos citar como exemplo disso o maior sucesso da história do cinema, o filme Avatar de James Cameron. Tanto em um, quanto em outro, as expectativas em relação ao seus lançamentos e a repercussão de uma singularidade específica de cada um foram alguns dos itens responsáveis pelo sucesso que ambos se tornaram. Embora a quantia arrecadada de um não possa ser comparada a do outro, "Avatar" e "Chico Xavier" têm, pelo menos, uma característica em comum, o 3D.
Mas é aí que reside também a maior diferença entre os dois filmes. Não é preciso dizer que o 3D ao qual me refiro não se encaixa em um como se enquadra no outro. Em "Avatar", o 3D não é nada mais, nada menos, do que a tecnologia utilizada nele para criar cenas em três dimensões, que aumentam o grau de realismo e aproximam objetos e efeitos computadorizados do espectador. Em "Chico Xavier", duvido que você precise de óculos especiais para encontrar a tridimensionalidade inserida dentro do filme. Essa é, sob uma enorme vantagem, a melhor coisa que podemos encontrar no longa brasileiro. Se Daniel Filho falha em incontáveis aspectos, pelo menos nisso é preciso admitir que ele acertou em cheio. O personagem Chico Xavier, a sua história de vida, os fatos que são mostrados ao público e os feitos realizados por ele são tão humanizados durante o filme, que a comoção ao seu término se mostra inevitável. No final, o espectador se pergunta: "Quem foi esse homem?". Essa dúvida, no entanto, se mostra incoerente, uma vez que o indivíduo acabara de assistir ao filme, portanto não haveria como não compreender a história do protagonista. Acontece que "Chico Xavier" não se entrega ao planfetarismo religioso e o espiritismo, retratado de forma tão natural durante toda a duração, soa ainda como uma incógnita.
E tal incógnita se deve ao fato da história de Chico Xavier ser contrastante às nossas crenças. Em momento algum o filme procura convencer o espectador de que o espiritismo é a verdade absoluta e que tudo aquilo aconteceu. Ele simplesmente mostra os fatos, de forma maniqueísta por vezes, mas procurando apresentá-los de forma neutra e, como há de se culpar alguém por isso, emocionante.
Entretanto, a pergunta "Quem foi esse homem?" não poderia ser mais adequada à figura de Chico Xavier em si. Afinal, quem foi ele? Desde a infância na cidade mineira de Pedro Leopoldo até o auge de sua carreira, pelo menos, o filme faz questão de mostrar. O começo, na verdade, é um desfile de erros de direção, sequências risíveis e planos equivocados. A decupagem realizada no primeiro ato do longa se mostra completamente ineficaz e muito da ingenuidade do personagem principal quando criança se perde na péssima atuação de Matheus Costa. Nessa fase, o roteiro percorre a vida de Chico Xavier quando ele começa a se dar conta do dom que tem. Ele, na verdade, jamais estranhara o fato de poder falar, tocar e abraçar a mãe morta quando nenhuma das outras pessoas eram capazes de, sequer, enxergar algum ente querido falecido. Aos poucos, a sua amizade com o padre local e a forma como a sociedade encarava o espiritismo na época são exibidos de maneira crua e superficial, porém suficientes para servir de introdução para a próxima fase, tão rasa quanto a primeira.
No segundo ato, o ator escolhido para interpretar Chico foi Ângelo Antônio, conhecido ator global, que nos fez o favor de mostrar mais uma vez a sua falta de talento. Ele compõe um protagonista tão caridoso, bondoso, gentil e tolerante, que logo passa a ser tachado de falso, hipócrita, medíocre e exageradamente humanizado. Nessa fase, Chico começa a se aceitar e decide enfrentar a sociedade unicamente para poder usar o dom que lhe foi dado para ajudar as pessoas necessitadas. Neste segundo ato também, surgem as primeiras manifestações contra o espiritismo na cidade local e as primeiras matérias sobre uma possível fraude. Chico passa a psicografar e logo começa a atrair multidões à porta de sua casa, todos em busca de um conselho, uma cura, uma benção. Ao final da fase, mostra-se Chico abandonando a cidade onde nasceu e indo em direção à cidade grande, onde alcançaria o auge de sua carreira como médium.
E é aí que entra a terceira, última e melhor fase de "Chico Xavier". Agora, o protagonista passa a ser interpretado por Nelson Xavier, um ator realmente talentoso e que registra o seu carisma na composição do personagem-título, desta vez mais idoso. Aqui, Chico é um homem conhecido, participa de programas de televisão e fala naturalmente do seu dom. Ele dá conselhos, fala sobre o passado e aprende a conviver com a fama de médium mais popular do Brasil. Já tem vários livros psicografados publicados e encara sessões diárias de mediunidade. Nesse ato, aliás, o filme mostra também e de forma mais clara a influência que Emmanuel, um guia espiritual, tem sobre a vida de Chico.
Na terceira fase, no entanto, nos são apresentados outros dois personagens. Encabeçados por Christiane Torloni e Tony Ramos, este que é uma figurinha carimbada dos filmes de Daniel Filho, seus personagens são casados e enfrentam uma grave crise no casamento devido à morte de seu único filho, assassinado pelo melhor amigo. O roteiro mostra a dor e a superação do casal perante o que aconteceu e a forma como eles decidem levar em diante a condenação do jovem que, segundo ele, matara o amigo acidentalmente. Só que essa sub-trama, baseada em fatos, só tem sentido porque o espiritismo tem papel essencial para a dissolvição do caso, um fato sem precedentes na história do sistema judiciário brasileiro e que teve uma atenção relativamente grande da mídia.
Passada a sinopse do enredo, não é necessário dissertar mais sobre o que é mostrado no filme. Está perfeitamente claro que se trata de um trabalho completamente equivocado no que diz respeito à edição, direção e comando de atores. Só que é preciso destacar que, por ser extremamente próximo do espectador (consegue se comunicar com o público de forma interessantíssima), o longa merece ser visto, analisado e precisamente julgado. É possível entender o porquê de todo o sucesso e elogios que o filme recebeu e também não é preciso ir muito longe para compreender que a história comovente somada à incógnita do espiritismo resulta em uma personificação de personagem nunca vista antes. Por isso, a tridimensionalidade do protagonista merece ser tão destacada. No entanto, após uma análise do ponto de vista cinematográfico, Chico Xavier é um filme de temática curiosa, mas que possui diversos erros de texto e direção, que comprometem todo o resto.
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