A invenção de Hugo Cabret é um daqueles filmes que após assistir, você logo quer passar para as pessoas, através de uma conversa com os amigos ou com a família, um pouco da incrível experiência e esperar que tenham, pelo menos uma ideia, de como é ser apaixonado pelo cinema. E o filme é justamente sobre isso, uma homenagem apaixonante ao cinema, dirigida por um cineasta digno, muito bem reconhecido e admirado, o qual já nos concebeu obras de tamanhas qualidade e importância, suficientes para comprovar o quão intenso são o seu amor e respeito pela sétima arte.
O diretor Martin Scorsese se consagrou dirigindo longas com temáticas bem distintas das que foram exploradas neste, como o drama físico/psicológico e o submundo da máfia (vistos, por exemplo, em “Touro Indomável” (1980) e “Os Bons Companheiros” (1990), respectivamente). Mas ele demonstrou, mesmo entrando no universo da aventura/fantasia "infantil", um talento admirável, na direção sublime e na capacidade criativa, ao conseguir em meio a uma linda Paris dos anos trinta, nos apresentar um mundo paralelo, onde não há limites para tornar reais os sonhos. É possível pensar que "Hugo" tem uma tendência em agradar mais um certo tipo de público. Porém, a história é contada de uma maneira tão cativante, que acaba possuindo poder suficiente para encantar a todos, oferecendo ainda uma visão singular sobre o valor do cinema, inclusive para aqueles acostumados a apreciar apenas o dito "entretenimento arrasa-quarteirões".
Os primeiros minutos do longa já são suficientes para notar a riqueza de detalhes, tão numerosos que muita coisa pode passar despercebida, principalmente quando se está, ao mesmo tempo, admirando a bela utilização do 3D. É possível também, logo de início, constatar a linda direção de arte e a deslumbrante fotografia, pontuando principalmente o amarelo durante toda a projeção, que assim como as engrenagens, ajudaram a caracterizar bem os cenários. No geral, um prazer visual muito raramente visto.
Scorsese soube dar certa personalidade a (alguns de) seus personagens, como a inteligência e a determinação de Hugo ( Asa Butterfield, de “O Menino do Pijama Listrado”; o pequeno ator não possui muita simpatia), ou a curiosidade e o espírito aventureiro de Isabelle (Chloë Moretz, de “Deixe-me Entrar”) . O papel de Sacha Baron Cohen, o Inspetor, não chega a ser inútil para a história, porém não faz muita diferença, parecendo um pouco solto. Os demais papéis, com excessão ao do ator Ben Kingsley (que incorpora o fascinante Méliès), são apenas peças complementares, com funções bem específicas dentro do filme.
Muitas pessoas não gostaram da primeira metade do filme, por sua "pouca" importância para a trama ou simplesmente por achá-la "sem graça". De fato, a segunda metade conquista mais, pois é justamente quando o cineasta começa a mostrar, através da "redescoberta" da obra do genial Georges Méliès, a magia que o cinema pode conter, e ele, ao deixar maravilhados os personagens, nos deixa também, simultaneamente. Mas estes primeiros cinquenta minutos são muito importantes para o bom desenvolvimento dos protagonistas, assim como para situar o público naquele universo diferenciado.
A Invenção de Hugo Cabret é um filme que arrepia (só isso já é um mérito) e emociona, de qualidades artísticas absolutas. Uma pena que sofra certo preconceito por parte do público pela sua temática, como acontece com muitos outros trabalhos. Enfim, uma bela homenagem de um diretor que cumpriu muito bem a sua missão, ao conseguir, dentre outros motivos, passar para o espectador como é ser apaixonado pelo cinema.
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