Saltar para o conteúdo

Perfis

Foto de Alain Resnais

Alain Resnais

Idade
91 anos
Nascimento
03/06/1922
Falecimento
01/03/2014
País de nascimento
França
Local de nascimento
Vannes, Morbihan, Bretanha

Cineasta do tempo e da memória, é o único autor do cinema a não escrever seus próprios roteiros.

Alain Resnais é um caso raro no cinema mundial: trata-se do único autor (no sentido de fazer cinema de autor, na concepção francesa instituída na Nouvelle Vague) a não escrever os próprios roteiros. Sempre trabalhou com roteiristas e isso deu a seus filmes histórias e abordagens diferentes entre si, enriquecendo-os, enquanto Resnais, no pleno domínio da profissão, aplicava seu inigualável ponto de vista. Talvez não tenha sido tão adorado nem tão mitificado como os demais colegas franceses, como Jacques Tati, que era diretor, roteirista, produtor, ator principal e músico de seus filmes, mas sua estética mais maleável lhe rendeu filmes sólidos e interessantes.

Bretão, nascido em Vannes, em 1922, sempre foi uma apaixonado por desenhos animados e quadrinhos, tanto que vários filmes terão influência desse tipo de arte. Estudou dois anos de arte dramática na tentativa de ser ator, mas a Segunda Guerra Mundial o leva a se alistar e, por conseguinte, servir o exército (com forte implicação no seu cinema). Só depois de findo o conflito, já de volta à França, Resnais se dedica à atividade cinematográfica.

Começou a carreira dirigindo curtas amadores, em geral de relacionados à temas das artes plásticas, em voga nos anos 40. Seu primeiro curta de fato é de 1948 e se intitula Van Gogh (1950), seguido de Gauguin (sobre o pintor fauvista francês, naturalmente) e Guernica (1950), o famoso quadro de Pablo Picasso, de quem era fã. Fez ainda As Estátuas Também Morrem (1953), sobre a arte africana e sua usurpação pelo colonialismo, e Toda a Memória do Mundo (1956), um percurso poético pelo labirinto da Biblioteca Nacional da França. Aqui ele usa no título um dos seus temas por excelência, a memória, que estaria presente em quase todas as suas obras.

Mas a carreira deslanchou mesmo com Noite e Nevoeiro (1955), um documentário média-metragem (recentemente lançado no Brasil em versão restaurada) até hoje considerado como um dos mais fortes e contundentes feitos sobre o Holocausto. Escrito por Jean Cayrol e com um fantasmagórico preto&branco em algumas partes, Nuit et Brouillard disseca o horror em vários campos de concentração da Polônia. Indicado ao Bafta, o prêmio do cinema inglês, consegue seu passaporte para os longas de ficção.

Profundamente ligado à literatura (foi casado com Florence Maulraux, filha do escritor André Malraux), Resnais era ligado ao pessoal do nouveau roman français. Foi com dois deles dos principais escritores do movimento com quem estreou no cinema. A estréia foi o polêmico Hiroshima Mon Amour (1959), roteiro de Marguerite Duras, sobre o caso de uma francesa com um oficial alemão em plena ocupação nazista. Usando os mesmos artifícios estéticos do nouveu roman, entre eles o uso da memória como persistente fonte de inspiração, Resnais recriou em Hiroshima a trágico romance que Duras teve ainda adolescente com um asiático que lhe rendeu vários livros e filmes (como O Amante, adaptado nas telas por Jean-Jacques Annaud, com Tony Leung no papel do amante viciado em ópio).

Duras reescreveu a mesma aventura várias vezes e o resultado nunca saiu da mesma maneira, uma vez que a memória é seletiva e é acionada, dizia a teoria na época, por acontecimentos atuais que terão influência tanto no conteúdo quanto na forma da recordação. Assim, sai o incesto como tema de O Amante e, no próximo livro, com a mesma história, passado na mesma época e com os mesmos personagens, e tem-se O Amante da China do Norte, cujo tema mesmo é a colonização francesa. Tudo idêntico, e tudo diferente ao mesmo tempo.

Resnais levou para as telas toda essa carga teórica, com ajuda da psicoanálise, e criou seu universo fantasmático, assombrado e irreal, de imagens oníricas e aparentemente sem sentido, de grande apelo sensorial. Em O Ano Passado em Marienbad (1961), Resnais usa o grande escritor do movimento, Alain Robbe-Grillet (morto no ano passado), para criar a história de um homem que tenta convencer uma mulher a fugir com ele, mas ela não consegue se lembrar do caso que eles tiveram no ano passado em Marienbad. O filme venceu o Festival de Veneza e causou furor no mundo inteiro, com a maior parte da crítica descendo-lhe o marrete (aqui no Brasil, Moniz Viana o ridicularizou). Foi indicado ao Oscar de melhor roteiro.

A paixão pela literatura e a revolução na forma de filmar, além do cinema de autor, aproximam Resnais da Nouvelle Vague francesa, mas ele nunca foi um dos seus militantes nem se proclamou tal – afinal, Resnais está bem longe da tal ''uma câmera na mão e uma idéia na cabeça''. Trabalhando com roteiros caprichados e com bastante planificação, Resnais distanciou-se das brigas de Godard e Truffaut e foi atrás da sua própria carreira.

Com o mesmo Jean Cayrol de Noite e Nevoeiro fez Muriel ou o Tempo de um Retorno (1963), desenvolvendo agora a questão do tempo, uma vez que ele e a memória estão intimamente ligados. Foi um fiasco. Após esse desastre, Resnais dedicar-se-ia a filme menores e mais intimistas. Com Jorge Semprun, um dos grandes escritores espanhóis exilados na França por conta da ditadura Franco, fez dois filmes, A Guerra Acabou (1966) e Stavisky (1974), seguidos romances menos conhecidos, como de Jacques Sternberg (Eu Te Amo, Eu Te Amo, 1968) e do inglês David Mercer – Providence (1978), grande sucesso de bilheteria, foi o primeiro de seus três fimes a vencer o César de melhor filme. Venceu também o de melhor diretor.

Já consagrado, começou a colecionar prêmios e se firmar como um dos grandes do cinema. Meu Tio na América (1980) ganhou o Grande Prêmio do Júri, em Cannes e mais indicações de melhor filme e diretor no César. Mas os anos 80 foram cruéis a Resnais. Ele passaria a trabalhar diretamente com roteiristas de cinema, como A Vida É um Romance (1983) e Morrer de Amor (1984) e, mesmo flertando com o melodrama em Melô (1986, sua primeira peça inglesa adapatada para o cinema), sua carreira estacionou e passou a filmar menos, trabalhando em geral para a TV, fazendo documentários. A década de 80, dos grandes filmes-eventos e sua cafonice, foi dura para as cinematografias de todo o mundo, nunca concentração nas mãos dos americanos que só terminou com a criação dos cinemas de arte na década de 90.

A volta seria triunfal. Em 1993, fez o duplo Smoking / No Smoking, baseado numa peça inglesa de Alan Ayckbourn, Urso de Prata em Berlim e César de melhor filme e direção – além, pasme, de distribuição comercial no Brasil! Daí em diante, Resnais se reinventou (Chabrol também, quem conseguiu sobreviver aos anos 80 precisou repensar como se faz cinema) e pôs na tela um clássico do cinema francês, mais um, Amores Parisienses (On Connait la Chanson, 1997), da dupla de roteiristas Jean-Pierre Bacri e Agnès Jaoui (O Gosto dos Outros), em que a história era contada por meio de antigas canções francesas – a memória ainda está aqui, mas de outra maneira. César de melhor filme, além de outros sete.

Do mesmo Alan Ayckbourn fez Medos Privados em Lugares Públicos (2006), vencedor do prêmio de melhor diretor em Veneza. Antes, visitou o mundo das operetas populares do início do século com Na Boca, Não (2003). É um grande diretor de atores: seus dirigidos conseguiram 18 indicações ao César e 12 levaram o prêmio para casa, sendo que a mulher do diretor, Sabine Azéma, foi indicada quatro vezes e venceu uma.

Filmografia

Título Prêmios Ano Notas
Signo do Leão, O
O consumidor
1959
Título Prêmios Ano Notas
Melô
roteiro
1986
7,7
1968
7,3
Ervas Daninhas
adaptação
2009
7,4
7,4
2012
7,9
7,6
Amar, Beber e Cantar
adaptação
2014
7,8
7,5