Mesmo sendo um cristão convicto, tentarei ser o mais equitativo possível em meu comentário. Não será fácil desvincular minha visão cristã do produto como secular, mas me esforçarei.
Antes de tudo, o impacto que o filme causou no "mundo religioso", devido a todos os questionamentos e polêmica levantados, tiveram apenas um notável objetivo a meu ver: angariar lucro para católico Mel Gibson, produtor, diretor e co-roteirista aqui.
O filme que arrecadou hiperbolicamente muitos dólares, entrou para a categoria dos filmes mais vistos e conseguiu causar frissom entre o mais variado público.Tudo isso por abordar um assunto que envolve uma crença quase universal: a crucifixão do Deus encarnado, Jesus.
Gibson, retratou as 12 últimas horas de Jesus antes de ser crucificado, ou seja, relatou seus momentos mais tensos e agonizantes. Entre o espancamento, julgamento, agonia, ignomínia; tudo o que culminou em sua morte e ressurreição.
O tema em si é forte e objetável por envolver religião. Ainda mais quando o diretor decidiu ser o mais verossímil possível. Acredito até que Gibson, intencionalmente, resolveu utilizar de todos os artíficios possíveis para polemizar, fazendo do filme uma famigerada e controversa projeção. Vestígios disso se dão por seu diabo andrógino (ofença aos gays); os sacerdotes fariseus super atuantes em incentivar o sacrifício (ofença aos semitas); algumas alusões de crença estritamente católica (ofença aos protestantes); e a violência explícita chocando o espectador de forma quase unânime.Território um tanto perigoso para uma época em que tudo agride, ofende e soa como discriminatório (realidade do melindre em que vivemos hoje).
A base do filme são os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, apresentando inicialmente Jesus no jardim do Getsêmani preparando-se para Sua missão dolorosa. Até então pouca novidade, a não ser o fato do filme começar exatamente no Getsêmani, excluindo todo o desenvolvimento da vida de Jesus que é praxe em filmes bíblicos.
As cenas de violência apresentadas chocaram. Não é exatamente o filme mais intenso quanto ao quesito "tortura", mas incomodou por ser em torno da figura religiosa mais propagada.
Como adiantei, eu acredito nas segundas intenções de Gibson ao produzir o filme, porém creio que imaginar um ritual de crucificação como um ato leve seria hipocrisia, conhecendo as barbaridades provocadas pela Roma antiga. Portanto, como uma adaptação literária, Gibson tentou ser o mais fiel possível à Bíblia, expondo visualmente tudo que era descrito. Expressões no livro de Isaias (profeta messiânico) como "esmagado, moído e pisado" ficaram mais fáceis de compreender após ver o filme. As chibatadas, a agonia, a transpiração em sangue, a dor, as perfurações nos pés e mãos, nada disso parece simples. Por isso, não vejo exagero por parte do diretor em mostrar tanta opressão.
As cenas de tortura protagonizadas pelos romanos, é quase insuportável de assistir. Realmente é tudo e mais um pouco do que a crítica da época antecipava. Mais o interessante é que dentro de seu contexto escriturístico não soa como violência gratuita.
A veracidade com que vemos a carne de suas costas sendo dilaceradas, é incrível! O resultado da maquiagem que vemos no corpo do ator Jim Caviesel, um corpo mutilado, coberto por sangue, totalmente assustador!
Jim Caviezel não teve muita dificuldade em interpretar Jesus, imagino, já que sua maquiagem falava por si, e sua interpretação era nada mais nada menos que simular dor (muita dor!!). Entretanto, vi um belo trabalho dele em personificar tão bem a figura de Jesus. A aparência (pela imagem que a igreja criou) e a personalidade muito bem descritas.
O meu destaque vai para Maria, conduzida por Maia Morgenstern. Um show de expressão, minimalismo e dramaticidade. A Maria mais humana e mãe que já vi. Ela nos agoniza em suas cenas, conseguindo transmitir toda a dor da situação.
O roteiro mesmo seguindo o racíocio bíblico, tem suas peripécias típicas, incluindo pequenos fatos subjetivos de Gibson como, um urubu atacando um dos ladrões na cruz, ou um "demônio" assombrando Judas; crianças possuídas como figuras grotescas; Jesus brincando com a mãe; um diabo presente e escarnecedor, e etc... Mais nada que desfigurasse a história original.
Enfim, o filme analisado num conjunto é uma obra prima! A maquiagem crível; a explêndida fotografia; as atuações memoráveis, como da ótima Monica Belluci (Maria Madalena); a narração agonizante; os ângulos perfeitamente captados, assim como a constante utilização necessária de câmera lenta... A parte técnica é simplesmente elogiável.
O filme - quase ofuscado por suas intenções óbvias de criar alvoroço barato - é uma obra inestimável!
Repito, eu apenas questiono a intenção do diretor, atrevendo-me a dizer que não passa de um engodo. Contudo, não se pode negar que ele foi um gênio! Conseguiu fazer umas das mais bem sucedidas campanhas de publicidade em torno de um filme.
Sem mais delongas, "A paixão de Cristo" é o filme religioso mais bem produzido dos últimos anos. Comove, revolta, alegra, emociona, assusta, e transmite a mensagem milenar do amor de Deus que, nunca é demais diante do mundo em que vivemos.
Pontos para a arte e a bilheteria.
Comentários (0)
Faça login para comentar.
Responder Comentário