“Todos nós somos feras selvagens por natureza. Nosso dever como seres humanos é tornarmos adestradores que mantêm seus animais sob controle, até os ensinarem a cumprir tarefas distantes da bestialidade.”
“Concebido” pelo tailandês Apichatpong Weerasethakul, filho de médicos que estudou arquitetura antes de ir para os EUA estudar cinema, Mal dos Trópicos urge como uma obra ao mesmo tempo curiosa e enigmática, não menos genial, embora assisti-la seja algo estranho por demais para qualquer ocidental, que vivencia uma realidade moral e espiritual bem distantes do horizonte de experiências de Joe, como é conhecido o cineasta tailandês.
A história começa simples e ao mesmo tempo auto-referencial (Apichatpong é gay), e conta o romance singelo e discreto entre o camponês Tong e o soldado Keng. Joe apresenta calmamente seus personagens. Nos dá nome. Revela que Keng já tivera outros casos. Faz elipses narrativas, seja através de uma música cantada em um clube, seja através de pessoas fazendo aeróbica. O filme caminha calmamente em torno daquele romance tímido.
De repente, após Keng ouvir de camponesas que há uma besta selvagem devorando vacas na região, o filme toma ares metafísicos. Tong desaparece. Entra em cena, de fato, toda uma crença na força mística, de contos populares das selvas tailandesas. E é incrível como Joe filma isso, de forma tão apaixonada. Se já na primeira parte do filme o diretor filmava aqueles lugares simples e sem nenhum glamour de forma a vê-lo com a paixão que, por exemplo, um Allen filmava Nova Yorque, agora, a mise-en-scène parece dialogar mais que mil palavras a serem citadas, na medida em que dá vida a floresta, de forma a indissociar o homem dela. O homem passa a ser fera. Keng vira apenas “o soldado”, procura Tong (ou seria o fantasma do tigre no qual a crença popular acreditava que um xamã encarnava?). No meio disso tudo, Weerasethakul desfila elegância através de planos longos e belíssimos da floresta. Sons ganham destaque, na medida em que aumentam a tensão. O que seriam tempos-mortos, em Mal dos Trópicos revela-se uma intensa e apaixonante busca (ou fuga?) atrás do misterioso, onde há a bestialização do homem diante de uma natureza portentuoza e exuberante. O climax, nesse sentido cataliza todo o poder de fogo do filme. É genial.
Poucas vezes no cinema recente se viu alguém desprezar a linguagem tradicional do cinema, em prol de algo que lhe seja tão particular. Apichatpong clama por algo que aparentemente, daqui em diante, será cada vez mais almejado por gente como David Lynch, na medida em que vêem a força da espiritualidade como motor para inovação na forma de se fazer cinema. Mal dos Trópicos reitera o desejo de que nós enquanto cinéfilos, busquemos novas formas de sentir o filme, para além dos cânones tradicionalmente estabelecidos. A forma sincera e plenamente consciente com que Joe dirige Mal do Trópicos mostra não apenas um sopro de inovação, mas uma possibilidade nova de ver e fazer filmes.
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