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Críticas

Cineplayers

O cinema como montagem em série: produção em massa, baixo tempo e baixo custo.

3,0

Filmes de terror de baixo orçamento costumam revelar uma dimensão completamente nova das possibilidades práticas de cinema, especialmente num mercado inflacionado como nos Estados Unidos. Essa revelação pode ser positiva, onde os artesãos cinematográficos desdobram-se nas limitações técnicas, entregando um produto barato, mas de alto vigor criativo; ou pode ser negativa, mostrando que no processo de feitura do filme, as palavras de ordem foram preguiça e mau caratismo.

Com menos de dez minutos de filme percebe-se que Voo 7500 pertence ao grupo dos negativos: os personagens são mal escritos, a história é mal contada, o filme é mal dirigido. Percorrer, ainda que por apenas 80 minutos, um filme pautado por obviedades berrantes é uma experiência cansativa, desesperançosa. O sentimento é o de estar atado a uma poltrona, maquinaria maligna tal qual àquela imposta a Alex em Laranja Mecânica imposta a você também, a violência tomando a forma de um espetáculo de mediocridade, enquanto você pergunta: o filme é para quem?

Minha mente então divaga e eu começo a considerar as famílias daqueles responsáveis pela concepção/criação/desenvolvimento do filme. As necessidades humanas básicas que estimularam o desejo de que os realizadores mantivessem aceso o desejo de levar, finalmente, Voo 7500 para o telão. Meus olhos, impostos a um estado de percepção quase zen budista, procuraram ignorar as falhas e imperfeições, tateando visualmente em busca de valores positivos.

O diretor, Takashi Shimizu, é o nome responsável pela franquia japonesa e americana de O Grito, o que mostra que sua tendência em criar filmes absolutamente horríveis é consistente. Mas é verdade que existem valores agregados a Voo 7500 que, aparentemente, a experiência (mesmo que medíocre) de um diretor há tempos no mercado pode proporcionar: o filme é curto e sempre muito direto ao ponto. Shimizu não perde tempo levando seu filme a sério demais. O realizador japonês entende que, em suas mãos, está um horror flick, cujo objetivo é principalmente entreter pessoas entediadas num final de semana.

Os artifícios cinematográficos utilizados por Shimizu para conduzir seu horror flick são velhos conhecidos dos fãs do gênero: ruídos estridentes e repentinos para causar sustos (uma sensação causada pelas particularidades do cérebro humano, não sendo necessariamente realização do filme em termos de cinema), trilha sonora de suspense nos momentos chave, personagens bidimensionais e pouco inteligentes, simpáticos ou não ao expectador, o que determina mais ou menos em que ponto da história cada um vai morrer. O filme assume ares de slasher ao dar início às mortes, mas jamais entrega cenas deslumbrantes ou fantásticas.

O que vale ser questionado, acima de tudo, é a própria lógica de produção, que coloca diretores como Shimizu e filmes como Voo 7500 no olho do furacão. Sem dinheiro, sem liberdade criativa, duas ou três semanas para filmagens, o corte final, direito que deveria ser inviolável a um realizador nos dias de hoje, provavelmente negado sem protestos diante da dinâmica de produção vigente.

O sentido histórico na realização de filmes de terror é dar pouco dinheiro aos realizadores, investindo pouca responsabilidade ao projeto de forma que o resultado seja caótico, herege e subversivo o bastante para romper a barreira da mediocridade, inclusive em termos comerciais. Construir um espetáculo controlado e pragmático como Voo 7500, ou até mesmo como O Grito, não supera barreira alguma, não edifica e não perdura.

O Cinema de fato não tem possibilidade para acontecer. Voo 7500 não é um filme, é um brinquedo de plástico. Um sujeito desenhou, outro construiu, outro colocou fogo para retorcer o plástico, dando-lhe forma e aspecto de brinquedo, mera ilusão proporcionada pela materialidade. O esquema de linha de montagem é evidente, pois os olhos são incapaz de reconhecer o menor sinal de autorialidade, exceto aquele sutilmente urrado durante o filme todo, em cada cena tropeçante, em cada ator mal dirigido, em cada pedaço de uma estrutura total forjada às cegas pelo diretor, que não seja bem a ser um sinal de autorialidade, mas um pedido de socorro.

Comentários (5)

Alexandre Koball | quinta-feira, 23 de Julho de 2015 - 12:55

Nem sabia que este filme existia.

●•● Yves Lacoste ●•● | quinta-feira, 23 de Julho de 2015 - 15:33

Pedro tem razão! Tbm fico besta como um filminho desse, chega atrasado no país e direto pras telonas!!

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