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Críticas

Cineplayers

Nunca o material de Phillip K. Dick foi tão bem desperdiçado.

3,0

O cinema adora Phillip K. Dick. Desde que Ridley Scott realizou a obra-prima Blade Runner, diretores e roteiristas voltam ao trabalho do escritor norte-americano em busca de inspiração. O resultado, na média, é irregular. Dos contos e livros de ficção científica idealizados por Dick, saíram filmes interessantes como o próprio Blade Runner, O Vingador do Futuro e Minority Report. Por outro lado, a lista de equívocos igualmente existe, com produções como Impostor e O Pagamento. Ainda assim, O Vidente consegue ser a pior adaptação de uma obra de Dick já realizada.

O filme conta a história de Cris Johnson, um homem que nasceu com o poder especial de enxergar o futuro. No entanto, sua paranormalidade tem limites e ele só consegue ver os acontecimentos de dois minutos adiante. Quando surge a ameaça de uma bomba nuclear no território norte-americano, a agente Callie Ferris pede ajuda a Cris, de forma a descobrir onde está a ogiva e evitar uma tragédia.

Não li a obra na qual O Vidente foi baseada, mas, sinceramente, duvido que seja uma bagunça incoerente como o filme. Phillip K. Dick não se transformou em um autor cultuado de ficção científica por construir histórias sem graça e personagens rasos. Muito pelo contrário, o escritor utilizava o gênero para inserir questionamentos sobre a humanidade, acrescentando conteúdo às suas histórias. Nada disso existe na adaptação escrita por Gary Goldman, Paul Bernbaum e Jonathan Hensleigh. O Vidente é uma obra vazia em termos de conteúdo, inócua em termos visuais e tão tensa quanto um gatinho bocejando.

O principal problema do roteiro recai sobre o personagem principal. É fato sabido que um filme de ação somente consegue deixar o espectador tenso quando há identificação entre o protagonista e a platéia. Aqui, não existe a menor tentativa de construir um passado ou oferecer algo que explique quem é Cris Johnson. Além disso, ele se recusa a salvar a vida de oito milhões de pessoas para sentar em um balcão de restaurante e esperar uma mulher que nunca viu na vida. Como a platéia pode torcer por um cara desses?

O mesmo vale para o relacionamento entre o protagonista e Liz. Aceitar a trama de um homem que enxerga o futuro não é problema, pois faz parte da proposta do filme. No entanto, fazer com que o espectador engula um relacionamento destes é exigir demais da boa vontade. Após apenas uma noite juntos, Liz recebe a informação, de uma agente do FBI, de que seu companheiro é um sociopata. E qual a reação dela? Decide arriscar sua vida para salvar o “assassino” que recém conhecera.

O Vidente é recheado de tais odes à superficialidade. O tratamento dado aos vilões, por exemplo, é ainda mais patético. Não há motivação alguma para a ação deles e, como conseqüência, nenhuma sensação de ameaça. Pior ainda: em determinado momento, aparece um homem que parece mandar nos outros, como se fosse o chefe. Obviamente, o roteiro não faz a menor questão de explicar quem ele é, retirando-o do filme logo após esta cena.

E a lista de problemas continua. Como se não bastassem os motivos acima, a falta de tensão também é resultado da própria condição do protagonista. Ora, se Cris sabe o que irá acontecer consigo, obviamente não permitirá que algo ocorra. Em outras palavras, O Vidente jamais passa qualquer sensação de perigo, uma vez que o personagem está preparado para tudo.

O roteiro ainda atinge o cúmulo de quebrar suas próprias regras, jogando por terra o cenário que tentou construir. Durante metade do filme, é transmitida ao espectador a idéia de que o protagonista consegue enxergar dois minutos no futuro, salvo para o caso envolvendo Liz. Mesmo assim, de uma hora para outra, a confusão assume o timão e ele vira capaz de ver com horas de antecedência, como quando enxerga alguém em perigo num telhado. E, claro, a própria questão dele ser capaz de enxergar Liz não é explicada.

Mas a idéia mais revoltante é, sem dúvida, o final. A “reviravolta” presente no último ato é daquelas de indignar qualquer pessoa, por ser um insulto à inteligência do espectador. É impossível não se sentir enganado, ludibriado, como se os roteiristas e o diretor Lee Tamahori estivessem pregando um trote de colégio.

E já que mencionei o diretor, cabe ressaltar que são raríssimos os momentos nos quais ele consegue explorar bem a idéia de enxergar o breve futuro. Uma delas é a cena na qual Cris procura por Liz na sala de máquinas em um barco, onde ele se “divide” para encontrá-la. Um recurso não apenas criativo, mas também filmado de maneira inteligente. A outra é somente quando O Vidente acaba, nos milésimos de segundos em que todos os créditos finais passam na tela.

Mas a culpa do desastre que é O Vidente cai mais sobre os roteiristas do que sobre o próprio diretor. Nem quando o argumento bate em alguma tecla correta a idéia é bem aproveitada. Por exemplo, em uma cena com Cris e Liz no carro, há o princípio de uma conversa interessante sobre o destino e uma vida sem surpresas, analogia válida sobre o poder do protagonista. No entanto, fica só nisso, apenas duas ou três frases soltas que ficam perdidas, ao invés de trazer conteúdo e acrescentar algo ao filme. Um caso típico de preguiça por parte dos roteiristas.

Este desinteresse em criar um enredo coerente e lógico igualmente fica claro nos incontáveis furos do roteiro. Por exemplo, como o FBI descobriu sobre Cris e sua habilidade? E como os vilões descobriram? Eles começam a perseguir o protagonista só porque o FBI o persegue, mas, logo depois parecem saber tudo sobre ele. E quem é o tal de Irv? Seria o pai do personagem? Um tio que o criou? Qual a relação entre os dois? Por que ele sabe da condição de Cris? Que lugar seria aquele? É a casa de Cris? Ou um refúgio para onde ele vai após cometer algum delito?

Claro que um material destes não dá ensejo a qualquer espécie de atuação, mas nada justifica a expressão apática de Nicolas Cage. O ator parece estar dormindo durante todo o filme, como se aparecesse apenas para coletar seu cheque de alguns milhões. Já Julianne Moore se sai um pouco melhor (na verdade, ela é boa até lendo a lista telefônica), ainda que fique a dúvida sobre que razão levou uma atriz de tanto talento a participar de um projeto como esse.

Então, o que sobra é Jessica Biel. Ela é a única razão pela qual O Vidente não ganha uma nota mais baixa. Em um filme que não passa de uma coleção de imagens sem emoção, Biel, ao menos, é uma imagem mais do que agradável para se assistir. E, por mais linda que ela seja, é uma pena ver o material de Phillip K. Dick reduzido a nada mais que seios e curvas.

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