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Vastidão da Noite, A

(The Vast of Night, 2019)
6,7
Média
33 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Uma noite estranha nos anos 1950

8,0

Uma TV de tubo antiga, em preto e branco, está sintonizada em um programa de TV que promete uma viagem ao desconhecido, evocando a nostalgia de séries como Além da Imaginação (The Twilight Zone) e A Quinta Dimensão (The Outer Limits). Logo na abertura de A Vastidão da Noite (The Vast of Night, 2019), ela aos poucos nos engole para sua tela e nos absorve para esse universo onde tudo é possível, em que realidade e fantasia facilmente se confundem. Logo a câmera do diretor Andrew Patterson vai se aproximando do objeto arcaico, deixando para trás a sala de estar decorada ao estilo americano dos anos 1950, até mergulhar por inteiro na televisão e ser assimilada do outro lado da tela.

Uma vez nessa dimensão em que universos paralelos se conversam e histórias absurdas são usadas para elucidar os problemas e questões do mundo real, o iniciante Andrew Patterson demonstra um impressionante fôlego para um tipo de cinema de gênero que hoje se encontra esgotado. As ficções-científicas vintage, que evocam a era da paranoia comunista pós Segunda Guerra ou os EUA da era Reagan, em sua maioria, se limitam a uma emulação charmosa de cacoetes e vícios próprios de uma forma obsoleta de se fazer cinema de gênero, e pouco contribuem para uma expansão dessa linguagem ou um aproveitamento dela a nível contemporâneo. Patterson, na contramão disso, usa seu A Vastidão da Noite em prol dessa nostalgia, mas também com uma ambição de trazer uma narrativa e uma linguagem muito própria e moderna.

Na história de um radialista e uma telefonista de uma cidadezinha esquecida do Novo México que captam uma frequência estranha durante uma noite de trabalho, o filme se aventura pelo imaginário que tanto faz a cabeça dos teóricos da conspiração, brincando com essas possibilidades de vida extraterrestre tentado fazer contato, ações militares ultrassecretas, comunismo russo infiltrado em solo americano, aparições luminosas indefinidas e todo o resto do pacote. Como só se revela em trabalhos de diretores iniciantes e ansiosos por mostrar sua identidade, a paixão pelo ofício de contar histórias pulsa viva e vibrante a cada nova opção narrativa e visual escolhida, lembrando muito o que Steven Spielberg e George Lucas fizeram ainda moleques em início de carreira.

Contudo, há uma sofisticação e maturidade na direção, assim como escolhas muito ousadas e arriscadas, que denunciam Patterson não somente como um iniciante empolgado, mas sim um diretor já de mão cheia. A beleza de A Vastidão da Noite não é nem essa exploração do combo sci-fi tradicional do gênero, mas sim como ele trabalha esses temas. Em duas passagens-chave, por exemplo, ele opta por uma narração verbal longa e ininterrupta, que se não fosse muito bem sustentada por seu trabalho de direção e encenação soaria quase anti cinematográfica ou preguiçosa. Mas toda essa oralidade prolongada reforça o conceito da paranoia que se sustenta e perpetua nessas histórias que passam de boca em boca, em cidades pequenas, de conhecidos de amigos que ouviram falar de um caso ocorrido com um fulano há um tempo atrás. Não há nada factual, comprovado: tudo existe dentro daquele terreno ambíguo e cinzento que depende da sua crença, e nada mais além dela, para fazer sentido e se tornar real. E por mais absurdo que seja, parece real, e é tentador se render às especulações.

Paralelo a essa narrativa, Patterson também se revela muito barroco e virtuoso com sua câmera, na forma como dimensiona a geografia daquela cidadezinha, em longos travelings, impossíveis planos-sequências que revelam pouco a pouco as conexões entre os moradores, a proximidade das residências e lojas, os limites que cercam aquele lugar perdido no meio do nada a de repente sob uma ameaça indizível. A longa abertura, na qual segue os protagonistas Everett Sloan (Jake Horowitz) e Fay Croker (Sierra McCormick) pelas instalações da escola secundária e posteriormente até o local de trabalho de cada um, mal nos possibilita de ver o rosto dos personagens, e a torrente de diálogos cruzados e ações simultâneas que a câmera assimila formam um mosaico difícil de acompanhar. Tudo para ao fim se reter em apenas duas pessoas e a descoberta inacreditável que elas se deparam sem querer em uma noite qualquer. O crescente do absurdo a partir daí toma proporções cada vez mais empolgantes e cativa muito facilmente, enquanto pontua nuances sobre a personalidade dos dois e suas formas de interação pessoal.

Se para muitos esse crescente resulta em uma reta final excessiva, vale lembrar do que Patterson fez logo na abertura, ao “entrar” em um programa de televisão que promete uma viagem ao desconhecido, um teatro de paradoxos. Ali está a deixa do diretor para nos avisar logo de cara que nada em sua obra tem compromisso com fatos, e sim na exaltação da fantasia, da confabulação, e por isso todo o deleite sobre o farsesco e o exagero. Assim como Jeff Nichols ensinou tão bem no subestimado Destino Especial (Midnight Special, 2016), o que há de mais belo nesse cinema é a capacidade de nos fazer acreditar piamente no impossível.

Comentários (2)

Herbert Engels | domingo, 21 de Junho de 2020 - 13:00

Maravilhoso.
A forma como o diálogo é desenvolvido reverbera aos primórdios da narrativa americana em que homens e mulheres se reúnem em volta da fogueira para contar histórias cujo poder da palavra soam tão intensas que se tornam por si só imagéticas.
Mesmo sendo seu primeiro longa, Patterson já encosta perto de Quentin Tarantino na escrita (ao menos nos últimos longas desse último).
E que trabalho de direção de atores hein.

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