Saltar para o conteúdo

Tempo de Caça

(Sanyangeui sigan, 2020)
6,9
Média
19 votos
?
Sua nota

Críticas

Cineplayers

Onde os Jovens Não Têm Vez

8,0

Incheon, 2030. Ou não.

O local em que Tempo de Caça (Sanyangeui Sigan, 2020) se situa e foi rodado, eu encontrei na página oficial do filme na Wikipedia. Lá eu também descobri que Incheon é uma cidade da Coreia do Sul de clima frio, urbana porém coberta de vegetação em 65% de sua área total, um polo industrial estratégico da Coreia do Sul, com um grande porto, que adotou a língua inglesa para se tornar uma capital de negócios do porte de Hong Kong e Cingapura no nordeste asiático. Informações importantes.

A data é mero chute. Pode ser mais ou menos que isso. Valioso para o diretor Yoon Sung-hyun é estabelecer, numa articulação meramente estética, que se trata de uma data futura. E o filme como uma distopia. Sua primeira cena é um breve plano-sequência que logo nos situa numa cidade que combina o universo de Blade Runner, o Caçador de Androides (Blade Runner, 1984) com as páginas de Watchmen (1986-87), com letreiros publicitários enormes, interativos, coloridos e luminosos em choque com a arquitetura decadente e cinzenta de uma cidade afundada em poluição e pobreza — e protesto, e polícia.

Essa estética retrofit (também presente nos carros, modernos e equipados de kits tecnológicos, porém sujos e envelhecidos) emoldura o diálogo que introduz o filme: dois homens jovens discutem um modo pouco nobre de ganhar a vida, vendendo roupas vintage num mercado paralelo a centavos de dólar. Um deles comete um erro primário ao pronunciar a palavra “grife”.

A escolha de não cravar a data e o local de Tempo de Caça, e ao mesmo passo em que se dedica tanto ao tempo e espaço do filme para enriquecer a narrativa de sentidos, é uma estratégia inteligente de Yoon Sung-hyun. O longo primeiro ato do filme visa a enquadrá-lo como uma alegoria sobre graves problemas que se aplicam a todo o território nacional sul-coreano (e qualquer outro lugar possível). Mais precisamente, à sua juventude. Que fica sem perspectivas diante da terrível deterioração socioeconômica do país. Seus personagens sonham com uma vida melhor e ensolarada numa ilha estrangeira.

Atenção! Spoilers do filme nos dois parágrafos a seguir:

A solução apresentada pelo ex-detento Jun Seok (Lee Jehoon) àqueles primeiros dois jovens sem perspectiva de um bom emprego, Ki Hoon (Choi Woo-sik) e Jang Ho (Ahn Jae-hong), é um novo crime. O crime perfeito. Arriscadíssimo. Pelas mãos de quatro garotos. Um crime impossível. Inconsequente. Tudo em nome de uma liberdade tão sonhada e distante. Nesse momento, é o excelente e subestimado O Homem da Máfia (Killing Them Softly, 2012) que vem à tona. Uma trama de assalto como trampolim para uma crítica social bem mais ampla e profunda. Que logo subjuga seus protagonistas, pequenas figuras marginalizadas, ao lugar de presas dos predadores que eles, ingenuamente, pensam ser.

E eis que o filme se transforma de novo. Num thriller com ares de terror slasher. Na verdade, a figura de um perseguidor sinistro, implacável, mas sem máscara remonta ao terrível Chigurh (Javier Bardem) de Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country For Old Men, 2007). Han (Hae-soo Park) serve a um propósito semelhante: de ser um monstro real que personifica a violência — do que quer que seja. Se Cormac McCarthy usou a figura de Chigurh para, em paralelo ao surto dos cartéis na fronteira com o México nos anos 80, representar o surto da decadência moral dos Estados Unidos, o diretor e roteirista Sung-hyun Yoon mimetiza o colapso do sistema econômico capitalista da Coreia do Sul na figura de Han — um assassino profissional incumbido de destruir um grupo de jovens marginalizados que se arriscam, se humilham, para ascender na vida em um mundo sem oportunidades. Problematizando questões sociais do presente, o novo filme da Netflix discute que não os velhos (hábitos da obra de McCarthy), mas os novos que não terão vez no futuro.

Tempo de Caça é estruturalmente estranho. Além de permitir digressões temáticas e estéticas comparativas, julguei pertinente citar várias obras diferentes nesse texto porque suas correlações são enormes e para ilustrar como Tempo de Caça é estruturalmente estranho. Um sincretismo cinzento do universo de Blade Runner e Watchmen que abriga, em transição, o roubo e o submundo de O Homem da Máfia e a caçada e o conto moral de Onde os Fracos Não Têm Vez. Tempo de Caça é um longa-metragem de 134 minutos que assim se parece: três filmes em um, com direito a epílogo (que, diga-se, dá margem para uma continuação — Deus nos livre, mas isso não vem ao caso).

Essas rupturas bruscas começam nos créditos de abertura, que, mergulhados em vermelho sangue e numa trilha sonora sinistra, são prontamente cortados pelo primeiro diálogo entre Ki Hoon e Jang Ho, que é então intercalado por uma videoclipagem de gosto duvidoso, da montagem à trilha sonora modernosa, deslocada. A expectativa de um suspense violento é, assim, interrompida abruptamente por um drama social distópico. Por bem, a atmosfera sugerida nesses primeiros segundos irá se confirmar lá na frente, e com muito louvor. Tempo de Caça reúne algumas cenas absolutamente enervantes. A sequência do estacionamento é memorável.

Numa análise abrangente de seus maiores sucessos, eu costumo dizer que uma das grandes competências do cinema sul-coreano é transitar por diversos gêneros dentro de um mesmo filme ou de uma só cena com uma coesão e um domínio narrativo absurdos. Caso de Bong Joon-Ho, de Parasita (2019) a Memórias de um Assassino (2003). Das tantas camadas de Um Dia Difícil (2014), de Kim Seong-hun, e Em Chamas (2016), de Lee Chang-dong. De todo o cinema do prolífico Hong Sang-soo. Enfim, tantos cineastas conterrâneos que, nesse momento e nesse quesito (coesão narrativa), eu julgo acima de Yoon Sung-hyun. Ainda assim, seu novo filme é suficiente e surpreendentemente bom para alçá-lo a essa safra de talentos versáteis com uma visão autoral e capacidade de manipular diferentes gêneros cinematográficos para narrar estórias interessantes, com formas variadas, sobre seu país. Em seu caso específico, com uma bela alegoria e um thriller de verdade.

Zeitgeist

Eric Hobsbawn discorre, no livro "Era dos Extremos: O Breve Século XX, 1914–1991", que o século 20 foi um século intenso e curto que terminou com a queda da União Soviética. Esses 26 anos que separam a data presente da publicação mostram que ele estava certo ao definir esse evento como suficientemente transformador para se adotá-lo como um ponto de ruptura e transição para um novo tempo. O fim da Guerra Fria e a vitória capitalista liderada pelo Estados Unidos iniciaram um intenso processo de globalização e abertura de mercados que, os vencedores diziam, seria positivo para todos economicamente falando. Será?

O cinema tem o poder de mostrar bem os efeitos dessa globalização. Por um lado, a invasão de obras sul-coreanas para espectadores do mundo inteiro denota um aspecto positivo. Por outro lado, esses filmes mostram que sociedades distantes se homogeneizaram quanto aos hábitos, problemas e insatisfações desses povos — e que tudo isso é causa e consequência da relação simbiótica entre a globalização e o pensamento econômico que a impulsionou: o liberalismo.

Parasita, por exemplo, retrata de forma farsesca e moderna uma luta de classes perfeitamente cabível em toda parte do mundo, o que justifica seu sucesso para além de sua trajetória vencedora no Oscar 2020. Tempo de Caça é um suspense alegórico cujo ponto de partida são os efeitos da quebra do mercado financeiro e desvalorização do won, a moeda sul-coreana, perante o dólar. O bacana aqui é perceber como esse evento e esse temor são perfeitamente compreendidos por um espectador no Brasil, e nos Estados Unidos, e na Europa... Basta ter vivido ou estar ciente do impacto do crash de 2008 na economia mundial.

Esse é um mérito dos diretores Bong Joon-ho e Yoon Sung-hyun. A experiência do primeiro ao redor do mundo e as alusões do filme da Netflix realizado pelo segundo mostram que eles são artistas cheios de referências internacionais. Que usam suas obras para veicular dramas que representam um zeitgeist contemporâneo: a consternação de povos de todo o globo em relação às crises e crescente desigualdade socioeconômica do nosso planeta.

Curiosamente, esse descontentamento não é privativo das classes mais baixas. O Prêmio Nobel de Economia vem consagrando alguns dos maiores críticos do liberalismo econômico, como Paul Krugman e Joseph Stiglitz, por seu impacto deletério sobre o modo de vida das pessoas. Países com uma política fiscal austera como a Alemanha deixam suas convicções sobre Estado mínimo de lado ao financiar bilhões em obras públicas para, assim, garantir os empregos e o consumo de quem mantém a economia aquecida: a classe média. O Reino Unido rói a corda da União Europeia e engaja numa crise política histórica para aprovar o Brexit. O ultraliberal Donald Trump cai na contradição de estatizar empresas.

Enfim, são inúmeros os eventos políticos de cunho econômico que demonstram uma insatisfação geral com os efeitos da globalização. Enquanto os maiores governos do planeta iniciam um (ainda modesto) processo de desglobalização em nome de interesses nacionais e ainda são poucos os estadistas mais modernos e menos ideológicos que moldam suas políticas para que suas sociedades sejam mais economicamente saudáveis, o povo aqui embaixo luta com bravura para ter uma vida digna. É assim em todo canto da Terra no século 21; e as boas histórias que isso rende, o cinema vem contando com maestria em obras como Tempo de Caça.

Comentários (2)

Igor Guimarães | domingo, 31 de Maio de 2020 - 08:07

Esse filme me jogou dentro da Marca do Assassino do Suzuki. Legal demais!

Rodrigo Torres | domingo, 31 de Maio de 2020 - 09:22

Porra, que referência!!! Dos poucos filmes que eu vi e não apaguei do HD. Que bom; vou rever hoje mesmo.

Faça login para comentar.