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Críticas

Cineplayers

A razão prática.

7,5
Sully – O Herói do Rio Hudson começa onde terminam os disasters movies: depois que aconteceu toda a catástrofe (ou o perigo dela). Interessa a um cineasta do naipe de Clint Eastwood explorar não um imprevisto em todas as nuances que poderiam ser aproveitadas de maneira melodramática no formato cheio de clichês dos filmes-catástrofes, mas as suas consequências. Como lidar com as circunstâncias, o julgamento moral da opinião pública, a cobertura dos repórteres? E a desconfiança dos superiores do comandante-piloto Chesley Sullenberger (Tom Hanks), em optar por um pouso forçado nas águas do rio Hudson, ao perceber a perda motora dupla pelos múltiplos choques com aves, e na impossibilidade de retornar à plataforma de embarque. O que é visto como uma sorte quase milagrosa, e um equívoco por colocar em risco a vida da tripulação e passageiros a bordo, embora todos tenham sobrevivido, enquanto que a América num primeiro momento o celebra como um herói. 

Sully é sobre homens comuns cheios de consciência de suas responsabilidades na prática do trabalho, confiando na própria experiência. A investigação dos tecnocratas, juntando vários indícios sobre como um avião foi parar dentro de um rio, leva a diagnósticos diferentes do que os pilotos, espontaneamente, chegaram a partir dos fatos como eles se apresentaram. Com o que oferecera a experiência, na percepção de uma realidade com os dados fornecidos numa situação concreta. O que para os tecnocratas é relegado ao plano da intuição, do subjetivo. 

Engenheiros aeronáuticos do NTSB (departamento nacional de segurança no transporte) teorizam que os pilotos tinham combustível para chegar até uma pista. Simulações contradizem os testemunhos dos pilotos. E as condições psicológicas e físicas do comandante colocadas em dúvida. Sully é sobre uma civilização que depende de computadores gerando algoritmos hipotéticos na posterior avaliação do desempenho humano com supostos exatos parâmetros — mas que naturalmente jamais vão reproduzir uma situação inteira.

A suposta economia com que Clint trabalha (e que leva admiradores a invocarem a discutível denominação de um remanescente do cinema clássico) é muito mais a recusa em utilizar na tela qualquer dispêndio da tecnologia somente para entorpecer plateias com um olhar viciado. Uma economia que faz com que Clint utilize somente o essencial, incluindo os efeitos no flashback muito bom que recria o voo interrompido prematuramente. E permite que outros valores morais e humanos se sobreponham. O classicismo como uma questão de temperamento, e em Sully um temperamento próximo de um Otto Preminger. Um autor que em mais de uma ocasião se detivera em temas recentes para sua época, como o ataque a Pearl Harbor, concentrando-se igualmente nas consequências (A Primeira Vitória [In Harm's Way, 1965]) ou na sua antecipação (A Corte Marcial de Billy Mitchell [The Court-Martial of Billy Mitchell, 1955]). O Sullenberger do filme de Clint Eastwood é como Billy Mitchell, o militar que vinte anos antes prevê a invasão japonesa a Pearl Harbor e defende aviões como armas bélicas de grande importância. Enquanto inquisidores e burocratas donos do poder ainda apostam na infantaria como o fator predominante em guerra futura, e acreditam que veículos aéreos em breve não existiriam mais. Um e outro personagem (e situações) verídico, confundidos como detentores de uma aspiração individual por uma glória particular. E nenhum deles especialmente contra uma instituição, que os questiona ou francamente os ataca, mas sobretudo homens dispostos até o sacrifício para cumprir com o próprio dever. O genuíno espírito clássico. 

Comentários (7)

Declieux Crispim | terça-feira, 20 de Dezembro de 2016 - 09:27

Baita crítica, Vlademir Lazo.

Marcelo Cardoso Queiroz | terça-feira, 20 de Dezembro de 2016 - 20:03

Bom texto e filme. É bom ver o Lazo escrever, um dos meus editores preferidos.

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