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Críticas

Cineplayers

Episódio II - O mito moderno

8,5

ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS.
LEIA POR SUA CONTA EM RISCO!



JJ Abrams. Uma rápida pesquisa revela nomes como as cultuadas séries Alias e Lost, a continuação Missão: Impossível III, os reboots da franquia Star Trek, os projetos originais para o cinema como Cloverfield - Monstro e Super 8. Quem acompanha cinema e televisão nos últimos quinze anos deve conhecer ao menos uma das produções citadas acima. Seja como produtor, roteirista, diretor, showrunner ou produtor executivo, Abrams deixou suas digitais em alguns dos principais marcos dessa geração, tal como Spielberg e Lucas faziam na década de oitenta - e a sétima parte de Star Wars: O Despertar da Força, não só estreita a relação entre duas gerações  como cria um diálogo entre realizadores fascinados por mitologias populares e que tomam por suas missões construir suas próprias visões a partir de tais referências.

A escrita do roteiro do primeiro filme da nova trilogia em parceria com Lawrence Kasdan - co-roteirista de O Império Contra-Ataca, O Retorno de Jedi e Os Caçadores da Arca Perdida - reforça a intenção de criar novos ícones na longa galeria de heróis cinematográficos cultuados há quase quatro décadas. Fruto de uma geração que em larga escala se baseia nas referências a outros filmes, O Despertar da Força é um filme reverente ao cânone de George Lucas. Mas a referência e reverência não são exatamente novidade em Star Wars.

Pesquisar a criação de Star Wars é encontrar a inspiração nas aventuras escapistas do início do século vinte, quando encontramos as raízes da space opera com nomes como Bucky Rogers e Flash Gordon; créditos estilizados, cidades de visual fantástico e com riqueza de detalhes, especulação de tecnologia avançada, ênfase em dramas pessoais resolvidos por meio de ação física, entre outros temas que, ao mesmo tempo que influenciados pelas novas sensações da época (a ficção científica de Júlio Verne, Edgar Rice Burroughs, entre outros) também era uma nova fase do swashbuckling, o romance “capa e espada”, com vilões caricaturalmente malignos, donzelas em perigo e heróis destemidos. 

Também nos leva aos filmes de culto entre os cineastas-cinéfilos, como o cinema oriental e filmes como A Fortaleza Escondida, de Akira Kurosawa, forte inspiração para Lucas buscar a inspiração na composição de um épico nos mecanismos narrativos, com a história se desenrolando pelos olhos de tipos cômicos que testemunham o crepúsculo e o nascimento de novas lendas em um ambiente hostil. Os nomes pouco ocidentais, os figurinos, as tradições e a filosofia dos espadachins Jedi reforçam a inspiração conceitual do criador em criar um universo à parte, com suas próprias lendas.

Com isso contextualizado, fica evidente a percepção que George Lucas, Larry Karsdan e JJ Abrams têm do caráter das histórias que contam: são mitos contemporâneos. Narrativas carregadas de simbolismos que visam comunicar valores e modelos através da constante reafirmação - arquétipos antigos, como desafiadores de deuses, estarão sempre experimentando castigos terríveis. Arquétipos da cultura popular recente também seguem sua própria cartilha - o gângster dos filmes policiais, por exemplo, repete em inúmeras figuras ao longo das décadas a figura que ascende para em seguida decair.

O Despertar da Força é também arquetípico ao compôr essa tapeçaria de heroísmo popular ao elencar Rey, mulher que sai de sua rotina normal de caçar sucata para vender para salvar o mundo das garras de forças malignas; Finn, o stormtrooper renegado, figura de origem traumática, que enfrentando uma crise de consciência, aos poucos se torna uma figura indispensável e Poe Dameron, a figura da resistência que estabelece a missão e introduz o tipo cômico - o pequeno e adorável dróide BB-8, que ao conhecer Rey e Finn em Jakku e aliar-se a eles os elege como os protagonistas da trama e encarregados de encontrar o lendário Jedi Luke Skywalker.

E há também Kylo Ren, o antagonista da vez, um dos corrompidos líderes da Primeira Ordem, que assim como o Império alude ao fascismo a todo momento, com os trajes negros, a disciplina militarista, o condicionamento da juventude e seu discurso de apelo à força. Filho de Han Solo e Leia Organa e seduzido pelo lado negro pelo enigmático Lorde Snoke, ainda é um vilão em formação com a lealdade balançada, propenso a ataques de fúria e determinado a negar a própria individualidade em nome da causa que serve, usando a máscara como meio de renegar o próprio passado. Todos eles arquétipos já familiares para aqueles íntimos com a saga. 

Aqueles que assumiam tais arquétipos conhecidos retornam ao filme, exercendo diferentes funções. Assim como para o público da época, os termos e nomes famosos para nós tornaram-se igualmente lendários no atual presente de Star Wars. De uma forma ou de outra, todos eles costuram a trama de O Despertar da Força, ganhando novos significados e enfrentando novas provações. Nos eventos entre os filmes, Darth Vader torna-se um símbolo para Kylo Ren que promete continuar o legado do famigerado Sith; Luke Skywalker torna-se uma figura mitológica após um culpado auto-exílio motivado por um massacre perpetrado pelo sobrinho contra uma nova geração de Jedi que ele treinava; e Han e Leia lidaram cada um de forma diferente com a tragédia - ela dedicou-se a continuar comandando a Aliança Rebelde, e ele voltou à antiga vida de contrabandista com o wookie Chewbacca.

Na nova configuração de J.J. Abrams, os eventos se alteram e se repetem; Han Solo abandona grande parte da sua persona anti-heroica e atua como o mentor de Rey e Finn, tentando fazer as pazes com os demônios do passado, sendo a voz da experiência, amplificando o mundo dos protagonistas com o seu conhecimento e por fim em última instância tendo que lidar as questões ainda pendentes. A relação mentor-discípulo da cinesérie ganha uma nota ainda mais melancólica e íntima quando a questão envolve pai e filho.

Família sempre foi uma questão constante e uma grande ferramenta narrativa durante todos os filmes da saga - do primeiro ao sétimo episódio é constante a figura do órfão que não sabe de onde veio, que enfrenta uma missão que não compreende em sua totalidade e que adota figuras ao longo da jornada que possibilitam em seu crescimento - e que terão que dizer adeus quando precisarem seguir o próprio caminho.

O grande plot twist de O Despertar da Força, a morte de Han Solo para seu filho Kylo Ren, era uma das únicas maneiras possíveis de causar um impacto tão grande para a audiência quanto a morte de Obi-Wan Kenobi em Uma Nova Esperança e também a única forma de a história seguir com os atuais protagonistas. Quando Darth Vader mata Obi-Wan e quando Kylo Ren mata Han, a história se altera radicalmente para voltar ao mesmo ponto. Rey e Finn encontram uma figura de oposição e confrontação. Kylo Ren tem seu senso de propósito reafirmado, cortando um dos últimos laços com sua identidade pregressa. 

Mudando a história de forma irreversível, a perda obriga Rey, Finn e a própria história a desempenharem o próprio caminho e criarem o próprio cânone, criando um clímax que, com pendências resolvidas com a história anterior, já se aventura a funcionar sozinho, com Rey protagonizando a premissa do título - manifestando os poderes mais conhecidos da Força, recebendo visões do propósito que a história irá lhe designar e surgindo como a adversária que irá fazer frente a Kylo Ren. Finn, enfrentando uma jornada de dúvida e culpa em paralelo à da protagonista, é a terceira via da história, tendo participação ativa no confronto final, onde ajudando a parceria Rey na luta contra seu ex-comandante sintetiza em duas horas a jornada de autoconhecimento provida pela ação física, principal pilar do cinema de aventura.

Recontar a história, revisitar o universo, explorar antigos e novos conceitos, ver as mesmas personas encarando diferentes arquétipos. O happening de Star Wars reafirma o fascínio pelas histórias constantes de heroísmo, martírio, corrupção e redenção no pano de fundo criado por George Lucas, pois o rito confirma o mito - ou ainda, se preferir, a prática confirma a ideia, confere concretude ao arquétipo. Repetindo-se a música, a estilização gráfica, o uso de técnicas e transições, a space opera se torna um modelo prático de cinema.

E é para isso que Abrams lança mão desse dicionário temático e visual para escrever seus próprios novos versos dessa saga, utilizando dessas rimas para definir os novos caminhos da coleção de temas fechados em seu propósito. Carrega o filme de ambiciosas composições fotográficas, desconstrói constantemente as histórias cristalizadas por décadas e as insere em novos contextos, dá continuidade aos cinemas que o antecederam - inserindo a câmera dentro da ação, evidenciando a individualização dentro da ação em larga escala, incorporando e admitindo a criação de atmosfera dentro da montagem.

O Despertar da Força, novo capítulo de tal mito moderno, se reafirma de forma nem um pouco anacrônica nos dias de hoje; antes, em seu tratamento respeitoso até certo ponto com o passado, também abre as portas para o novo, admitindo as novas facetas da eterna luta, confrontando os mesmos valores com as novas questões. Abrams garante que a franquia ainda está viva, ainda capaz de oferecer novidades e significar de forma representativa um marco para a nova geração. A solidez que uma marca mainstream pode oferecer, um elogio à uma tradição pop, um conceito ainda capaz de oferecer fôlego, complexidade de temas e ideias andando lado a lado com a acessibilidade e empatia imediata - Star Wars ainda é um fenômeno cultural quase quatro décadas depois. Esta é a verdadeira Força.

Comentários (62)

Gustavo Aguiar | segunda-feira, 28 de Dezembro de 2015 - 14:13

Isso diminui a força e o impacto do Kylo Ren, ele se tornou um bundão. Darth Vader era uma figura impotente e poderosa, já o Kylo Ren não tem essa presença, pois qualquer um pode derrota-lo.
Darth Vader é bem mais velho que Kylo Ren, se fosse compará-los teria que ser Kylo Ren com Anakin Skywalker no episódio III quando ele se torna Darth Vader, onde eles deveriam ter a mesma idade. Nessa época o imponente Darth Vader era só um muleque facilmente manipulado que só sabia resmungar. Na primeira metade do filme o Kylo Ren se mostra bastante intimidador, depois que muda. Eu acho essa nova proposta bastante interessante pois todos estamos acostumados a ver nos filmes jedis do bem que precisam resistir a tentação do lado escuro da força. Aqui vemos um Sith que precisa resistir a tentação do lado ''claro'' da força. Ainda faltam 2 filmes todos os personagems irão evoluir bastante. Quem sabe no próximo filme Kylo Ren nao vire o Vader do Império Contra-ataca.

Gustavo Aguiar | segunda-feira, 28 de Dezembro de 2015 - 14:15

Se o Finn enfrentasse o Anakin Skywalker no Episódio III, ele seria massacrado.
O finn também seria massacrado pelo Kylo Ren nesse filme se ele estivesse 100%. Mesmo debilitado ele conseguiu vencer o Finn sem muitas dificuldades. A Rey que foi seu grande problema.

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