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Sem Destino

(Easy Rider, 1969)
7,4
Média
304 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

O princípio e o fim da liberdade

8,0

Nas reviravoltas estranhas que o tempo de vez em quando oferece, chamadas por muitos de coincidência e por tantos outros de destino, o ano de 1969 vem sendo lembrado pelas pessoas não apenas pelo meio século que se completa desde seu início, mas também pelas marcas que deixou e até hoje são sentidas na sociedade, na história e mesmo no cinema – vide Quentin Tarantino e seu saudoso e recém-lançado Era Uma Vez Em... Hollywood (Once Upon a Time in... Hollywood, 2019). Coincidência ou destino, em 2019 lamentamos a perda de Peter Fonda, o ator que há exatos 50 anos mudava para sempre o cinema americano, ao lado de Dennis Hopper, com o filme considerado precursor da Nova Hollywood, Sem Destino (Easy Rider, 1969).

Diante de uma fotografia sua ao lado do amigo Bruce Dern junto de uma motocicleta, Fonda sentiu uma grande inspiração pelo enquadramento contra o sol, que ampliava a silhueta dos dois no recorte ao mesmo tempo em que ocultava a identidade deles. Para o ator, aquela imagem remetia à liberdade – e essa era uma questão central nos ideais daquela geração da contracultura americana. Com a Guerra do Vietnã em curso e uma crise política e econômica instaurada em todas as esferas da sociedade, os jovens do fim dos anos 1960 começavam a questionar os conceitos de liberdade, buscar um rumo e se desprender dos padrões de moral que limitavam suas vontades, instintos, e davam vazão aos questionamentos e indignações contra o governo, vide o movimento hippie. O eterno deslocamento pelas estradas país afora marcou o período, popularizando no cinema americano o famoso conceito de road-movie.

Sem Destino resume em si todo o reflexo dessa geração logo em sua abertura, quando após conseguir vender cocaína para um novo comprador, os amigos Wyatt (Fonda) e Billy (Hopper) sobem em suas motos e caem na estrada ao som de Born To Be Wild, da banda Steppenwolf. Essa sequência foi o suficiente para o filme entrar para sempre na história do cinema e no imaginário coletivo popular, tornando-se um ícone da cultura pop e símbolo máximo daquele conceito próprio de liberdade. Como dois caubóis tresloucados para um cenário contemporâneo de motocicletas no lugar de cavalos e capacetes no lugar de chapéus, eles vagam por uma América rompida em mistos de desilusão e esperança, violência e pacifismo, ufanismo e anarquia, assim como cruzam com os corações partidos que povoam esses espaços – entre eles um Jack Nicholson em início de carreira, interpretando um advogado bêbado em uma performance tão marcante que o colocou no mapa.

Influenciado por outros movimentos que propunham mudanças estéticas e narrativas no cinema ao redor do mundo, como a Nouvelle Vague francesa, Sem Destino aproxima seus temas de subversão e fuga a uma concepção visual ao mesmo tempo radical e contemplativa. Muitas transições de cena, por exemplo, são marcadas por rápidos flashes de ida e volta no tempo, que se aceleram e se revezam até a câmera estacionar em um deles e assim continuar com a narrativa. Mesmo assim, Hopper faz questão de manter certas tradições da filmografia americana, evocando o classicismo dos westerns e valorizando a vastidão dos cenários e paisagens ensolaradas dessa terra sem lei que sua câmera enxerga nas estradas vazias dos EUA.

Wyatt e Billy traçam o caminho contrário ao sonho americano, negando os valores morais, o conservadorismo e a política patriótica de guerra e violência, saindo da Califórnia endeusada como a terra dos sonhos e das oportunidades na direção contrária de Louisiana, para o Mardi Gras. Enquanto o primeiro se veste com as tradicionais jaquetas de couro, óculos escuros, e adorna sua moto com adesivos da bandeira dos EUA, o outro se traja como um nativo americano, formando assim uma dupla que representa em si os contrastes, as divisões e a própria história de segregação, violência e desigualdade do país. Como sempre em um filme de estrada, o que interessa a nós não é o destino dos personagens, mas sim a jornada que percorrem, que se verte em dado ponto em uma viagem existencial e reflexiva sobre os filhos perdidos de uma nação abalada. 

Nos anos seguintes, cruzando essas estradas, também estariam Arthur Penn, Robert Altman, Monte Hellman, Wim Wenders, Peter Bogdanovich, Steven Spielberg, entre outros, por via de tantos cinemas diferentes, mas tendo em comum uma mesma busca por sentido e compreensão de mundo. Os sonhos de toda essa geração morreriam no mesmo ano de estreia de Sem Destino, com o assassinato da atriz Sharon Tate, que simbolizou para todos o fim de uma era, a morte dos sonhos e ideais de paz e amor. Mesmo que filmado antes da tragédia, o trabalho de Fonda e Hopper antecipa um sentimento futuro de desamparo coletivo que começava a se aproximar. Dali em diante emergiria um cinema muito mais político e reflexivo. Também emergiria uma América muito mais amarga, desiludida e violenta, tão percorrida e tão explorada por esses tipos nômades e solitários em seus carros ou motos, sem raízes, sem razões, sem esperanças, sem destino.

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