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Punhos de Campeão

(The Set-Up, 1949)
8,3
Média
29 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

A perspicácia de Wise

9,0

Robert Wise deve ser um dos diretores mais subestimados na história do cinema estadunidense. Uma figura de habilidade notável, mas que não se encaixa nas expectativas limitadas da teoria do autor, o cineasta apresenta uma filmografia impressionante, ainda que discreta, da qual se destaca possivelmente sua única obra canônica, A Noviça Rebelde (The Sound of Music, 1965). É verdade que Wise consegue desaparecer no mundo de seus filmes, nas exigências formais e nas construções temáticas de cada gênero cinematográfico com que se envolveu, entregando inclusive uma das mais fiéis e dignas adaptações de Jornada nas Estrelas para o cinema até hoje. Mas aqui falo de um filme que passa mais despercebido por dentro dessa filmografia e ainda um dos mais originais de seu gênero, Punhos de Campeão (The Set-up, 1949).

Um drama de lutador, Punhos de Campeão se apresenta como um ponto fora da curva do melodrama hollywoodiano desde a sua estrutura, organizada em torno de uma noite na vida de seus dois principais personagens. Bill Thompson, ou Stoker, (Robert Ryan), é um boxeador de 35 anos que tem perdido uma sequência de lutas quando seu empresário, sem combinar com ele, negocia a sua derrota no próximo ringue. E Julie (Audrey Totter) é a esposa de Bill, que já não suporta assistir às sofridas derrotas do marido e clama para que ele se aposente. O que o texto e a direção fazem com esses dois personagens típicos, no entanto, escapa à familiaridade dessa narrativa.

Nessa única noite que vislumbramos dos personagens, muito do tempo narrativo que o filme organiza é um tempo de espera. Bill espera a sua luta, e Julie, que se recusa a comparecer, espera o retorno de Bill. Existe uma aceitação do tempo aqui que não é comum para o cinema clássico estadunidense. A maior parte das cenas consiste de interações fragmentadas no vestiário dos lutadores, personagens entram e saem daquela sala, e nosso protagonista é particularmente silencioso por todo esse processo. E talvez seja até mais surpreendente a jornada de Julie, que perambula silenciosa pelas ruas ainda muitos anos antes das caminhadas sem rumo de Jeanne Moreau no cinema moderno europeu de filmes como Ascensor para o Cadafalso (Ascenseur pour l'échafaud, 1958) e A Noite (La Notte, 1961).

Essas duas jornadas, esses dois processos paralelos de espera, são articulados para construir uma permanente sensação de melancolia através do filme. Mesmo a cena da luta, quando ela finalmente acontece, não poderia muito bem ser descrita como uma sequência de ação. Naquele ringue, no impacto entre dois corpos, nós descobrimos um personagem contemplando o próprio envelhecimento. Até mesmo a sua vitória não produz tanto uma sensação de glória quanto de uma aceitação. E a traição que se segue expõe novamente o personagem à fragilidade e precariedade daquela vida.

O drama de lutador tende a se formular como um melodrama masculino ou um melodrama sobre a masculinidade, isso não é novo. Mas enquanto a maior parte dos filmes do gênero busca por uma sensibilidade oculta em um espaço de brutalidade, Punhos de Campeão recusa essa procura. Os personagens sabem o que aquele universo reserva para eles, e não há nada de muito positivo pra se tirar disso além do dinheiro e da sobrevivência por si mesma. Este não é um filme sobre um lutador e sua honra, mas sobre a precariedade, o envelhecimento e o medo.

Robert Wise pode ter sido um diretor que nos deixou muito pouco como “autor”, mas a sua compreensão do cinema, dos gêneros, dos dramas e das formulações internas de cada narrativa nos deixa uma série de belos filmes e composições habilidosas. É preciso uma dada medida de perspicácia para subverter um gênero enquanto articula uma narrativa dentro de sua fórmula, para sugerir com sutileza uma estrutura até então raramente vista dentro do sistema de estúdios. E esta, aqui e em outros filmes, é a perspicácia de Wise.

Comentários (1)

CitizenKadu | segunda-feira, 02 de Março de 2020 - 15:18

Robert Wise levou a culpa merecida de colocar um final positivo em "Soberba", enquanto Orson Welles estava aqui no Brasil subindo o morro para enfrentar moradores e criminosos e dizer para eles que o filme que eles tinham rodado havia sido cancelado(com a amizade de Herivelto Martins, Grande Otelo,Vinicius de Moraes,Ary Barroso,...).O final não é só importante para a obra no geral, como para o quanto o livro "The Magnificent Ambersons" significava para o próprio ego de Welles, o filme era pra ser um vômito dos seus fantasmas,mas não foi apesar de no geral ser um grande filme de Welles. Mas a impressão que eu tenho de Wise é que ele aprendeu muito com Welles, porque seus filmes da década de 40 e 50 possuem uma inovação na edição e um senso de direção expressionística que iriam ir para um caminho de obras cada vez mais menores, apesar de bem mais icônicas. Filmes como "O Túmulo Vazio","Terrível Suspeita", "O Dia em que a Terra Parou" são maravilhosos entre tantos...

CitizenKadu | segunda-feira, 02 de Março de 2020 - 15:24

...porém o anacronismo começou a tomar conta da mesma forma que tomou conta de George Cukor(apesar desse se dar melhor dentro de um milieu mais vaudeville com "My Fair Lady") ao filmar musicais da Broadway em plena década das new waves contra-culturais e intelectualmente politizadas; "West Side Story" por exemplo, eu vim das ruas e nunca vi gang se confrontar daquele jeito, é idolatrado por duas coisas: popularidade e duas ou três cenas em que Wise usa de planos sequências e uma edição rítmica impecável, o resto é melodrama antiquado, o que estava agradando muito o Oscar naquela época."The Sound of Music" é um filme onde uma noviça se rebela contra um convento para se tornar submissa de um patriarcado que parece tirado de um livro de Thomas Mann(o que o anti-nazismo dos Von Trapp ajuda a "esconder"), e mais uma vez ele cria grandes planos como o inicial ou edições incríveis como o da música Dó-Ré-Mi: e por causa destes arroubos estes musicais se tornaram ícones...

CitizenKadu | segunda-feira, 02 de Março de 2020 - 15:30

...acredito eu que em "Quero viver", "Homens em Fúria" e "Desafio do Além" ele criou suas grandes últimas obras, de onde se pode tirar grandes lições cinematográficas e de brinde ainda carregam certa mensagem...ou não. E sim ele dirigiu o MENOS PIOR filme da franquia Star Trek, e digo isso sendo um fã da franquia(todos nós gostamos dos filmes de Star Trek, os fãs, por pior que sejam...essa é a vantagem contra o Star Wars do George "Peter Pan" Lucas de 1999. E coincidentemente eu assisti um filme que eu considerei horrível, um dos exemplares do horror tardio dele:https://cineplayers.com/filmes/as-duas-vidas-de-audrey-rose.
Mas sim, ele é subestimado pelo parco conhecimento que muitos noviços têm em relação aos filmes mais diversos dos anos 40/50 e "Punhos de Campeão" é um deles. Parabéns pelo texto e que o pessoal procure mais Robert Wise sem se prender à iconicidade pré-fabricada de Hollywood que o faz dele um diretor que se alugava por vezes.Gênio mesmo assim.

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