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Críticas

Cineplayers

Suspense à lá Supercine com bom clima e magnetismo suficiente para prender a atenção.

7,0
Certas fórmulas de Hollywood, após tanto serem recicladas, reutilizadas, reaproveitadas ou que mais seja, acabam por ganhar uma categoria específica dentro de seu próprio gênero. No caso de O Presente, primeiro trabalho atrás das câmeras do também ator Joel Edgerton, esse se encaixa dentro da categoria “filme de Supercine”, algo que indica filmes genéricos e de fácil apreciação, quase sempre curtos e de personagens fortemente delineados entre mocinhos e vilões. David Fincher reinventou este conceito ano passado com o surpreendentemente subversivo Garota Exemplar, e embora O Presente não chegue a estes pés, cumpre bem a promessa de envolver o espectador através de seus 100 minutos, um trabalho eficiente em cima do que se tornou básico.

De trama simplista, conhecemos o casal Simon (Jason Bateman, de Juno) e Robyn (Rebecca Hall, de Transcendence), que se mudam para uma casa nova quando o marido alça oportunidades novas no trabalho, ao mesmo tempo em que ambos desejam constituir uma família ao conceber seu primeiro filho. Em meio a isso, um antigo colega de escola de Simon, Gordo (Edgerton) surge de supetão na vida do casal, e o que inicialmente seria um retorno da antiga amizade começa a se tornar algo incômodo quando Gordo age de forma estranha e ameaçadora com Simon e Robyn.

Um dos principais acertos de Edgerton se deve justamente à lentidão com que sua narrativa se desenrola, instaurando gradativamente o clima de suspense e trabalhando com detalhismo a dubiedade que irá se instaurar em meio à situação. O diretor ainda apela para certos artificialismos de alguém ainda inexperiente na função (como um sonho de algum personagem seguido de algum susto promovido por algum som alto), mas na maioria do tempo consegue trabalhar bem tanto o sentimento de ameaça de Gordo (onde Edgerton transita bem entre o sujeito aparentemente normal com uma personalidade mais feroz), como o desconhecido passado do marido, algo do qual Robyn passa a desconfiar que possa ser uma das razões para o antigo amigo do colegial perturbar o casal.

Há tropeços em meio ao decorrer, contudo. Enquanto o roteiro faz questão de manter seu foco sobre Simon (e aqui Bateman mais uma vez comprova seu talento como ator ao não permitir que o espectador tire os olhos de seu personagem), certas questões envolvendo Robyn são apenas jogadas ao vento pelo roteiro, como o aborto involuntário da personagem no passado e sua extrema necessidade de ingerir pílulas. Robyn acaba sendo movida unicamente por sua desconfiança em cima do marido, o que diminui a força de sua presença em meio aos segredos que vão sendo revelados. Há também uma pretensão desnecessária em cima dos dez minutos finais de O Presente, onde Edgerton constrói um clima que parece prometer um desfecho explosivo, mas apenas entrega uma solução morna e pouco condizente, quase como numa tentativa desesperada de surpreender o espectador com uma finalização inesperada.

Mas é no clima de tensão e claustrofobia que Edgerton consegue transformar o filme numa experiência válida. O diretor valoriza o potencial dos cenários, utilizando planos abertos e/ou fechados quando necessário, criando um curioso jogo de luz e sombras que prende os olhos do espectador na tela. O roteiro (também de Edgerton) é igualmente feliz ao ressaltar temas corriqueiros em meio aos atuais thrillers genéricos, como ganância e bullyng, mas sem permitir que sua abordagem caia no didatismo, valorizando assim a inteligência de quem assiste.

E se O Presente não irá fazer diferença alguma em meio ao cenário atual dos suspenses domiciliares (o que é uma pena, devido a situação pobre deste sub-gênero atualmente), ao menos se firma como uma experiência acima da média, com problemas sim, mas válida pelo seu bom e envolvente clima de suspense. E que Edgerton tenha um grande futuro pela frente como diretor.

Comentários (3)

Marcelo Cardoso Queiroz | sexta-feira, 04 de Dezembro de 2015 - 21:32

Fui hoje a uma sessão, a sala estava literalmente vazia, só tinha eu lá. O filme tem falhas, clichês, mas não deixa de ser uma grata surpresa, um oásis no circuito pobre de filmes de suspense atual. Vale o ingresso e os sustos são bons também, apesar de não serem o foco da narrativa.

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