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Para Todos os Garotos: P.S. Ainda Amo Você

(To All the Boys: P.S. I Still Love You, 2020)
5,2
Média
14 votos
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Críticas

Cineplayers

As cartas assombradas

5,0

Lara Jean (Lana Condor) acorda disposta e dança em frente ao espelho com seu pijama desgrenhado, cabelo bagunçado e meias encardidas enquanto uma melodia pop retrô ecoa em seu quarto – tudo isso enquanto passam os coloridos créditos de abertura de Para Todos os Garotos: P.S. Ainda Amo Você (To All the Boys: P.S. I Still Love You, 2020). Não é preciso pensar muito para lembrar ao que tudo isso remete: um filme adolescente dos anos 80. Mais especificamente, nesse caso, a Uma Noite de Aventuras (Adventures in Babysitting, 1987), também embalado pela mesma canção, quarto parecido, danças em frente a espelhos, só que desta vez com Elisabeth Shue refletida neles. De tão óbvia referência, o filme de 2020 coloca a irmã de Lara Jean para escancarar e revelar logo que essa continuação nada mais é do que uma nova tentativa de romance teen oitentista, assim como foi Para Todos os Garotos que Já Amei (To All the Boys I’ve Loved Before, 2018).

Se o primeiro filme sobre a saga da adolescente Lara Jean, que acidentalmente tem todas suas cartas de amor secretas reveladas e enviadas aos destinatários sem seu consentimento, terminou com um final feliz e ela acabou faturando o cara mais bonito do colégio, essa continuação esclarece o que nenhum outro filme dos anos 80 chegou a responder: o que vem depois? O que acontece com a menina estranha e impopular após o beijo de amor e firmação de compromisso com o galã dos seus sonhos? Acordar feliz e dançar na frente do espelho, comemorando sua conquista, é só um efeito de êxtase imediato, pois logo recaem sobre Lara Jean as velhas inseguranças sobre sua aparência, sua timidez e em especial sobre a popular ex namorada de Peter (Noah Centineo). Um agravante se desenha quando um de seus antigos amores platônicos, com quem ela não fala há anos, responde sua carta de amor. John Ambrose (Jordan Fisher) surge nessa equação para confundir ainda mais os sentimentos de nossa protagonista, como um rastro da confusão remanescente deixado pelas malditas (ou benditas?) cartas.

Para Todos os Garotos: P.S. Ainda Amo Você segue uma fórmula parecida com o primeiro filme, de evocar cacoetes do cinema adolescente oitentista e formar assim uma ponte de ligação com a geração que hoje simplesmente nem sabe mais o que é escrever uma carta de amor, mas não possui uma premissa com o mesmo apelo e frescor. O argumento inicial da confusão das cartas enviadas abre espaço para um romance aguado e sem sal, ameaçado pelo surgimento de um novo pretendente. De pessoa invisível, Lara Jean passa ao posto de garota disputada por dois lindos rapazes, concretizando o sonho de milhares de adolescentes que consomem esse tipo de filme/livro. A aproximação com o cinema dos anos 80 desse nicho é tão forte que até a falta de imaginação e originalidade se repete aqui – e um terceiro filme já está em fase de pré-produção, o que prova mais uma vez a notável capacidade de Hollywood em sugar um argumento popular, por menor que seja, até o bagaço.

Os dramas que rodeavam a personagem principal, como a relação com a irmã mais velha, a perda da mãe, a falta de auto estima, a solidão do pai viúvo etc, aqui são pincelados apenas de longe e com isso Lara Jean acaba como uma versão mais diluída do que foi no primeiro filme, enquanto Peter não passa de mero objeto de desejo em cena, sem qualquer tipo de dimensão. De leve, talvez uma mensagem válida sobre a realidade que recai sobre as relações super idealizadas e que acaba chocando os muito sonhadores, mas nada muito aprofundado nisso. Resta ao trabalho se ancorar no carisma dos atores e ao público apenas sentir de longe esse gostinho do que foi o cinema oitentista, além da interessante tese de que talvez essa ingenuidade toda encontre um lugar ao sol em meio a produções adolescentes cada vez mais cínicas e espertinhas. Afinal, não importa a geração, alguns sentimentos, rituais e situações são inevitáveis quando se ainda é jovem.

Comentários (3)

Alan Nina | sábado, 21 de Março de 2020 - 23:35

Vc percebe que é de outra geração, quando analisa um filme contemporâneo sempre à luz de décadas anteriores, é o nosso caso, Heitor kkkkkkkk Adoro seus textos :)

Heitor Romero | segunda-feira, 23 de Março de 2020 - 09:33

Obrigado, Alan querido :)

Robson Oliveira | segunda-feira, 18 de Maio de 2020 - 22:27

Fraquinho esse, mais ainda que o antecessor, que foi até legalzinho.

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