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Panteras, As

(Charlie's Angels, 2019)
5,6
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9 votos
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Críticas

Cineplayers

Banks traz as espiãs favoritas da TV para novos contextos

5,0

Criada em 1976 por Aaron Spelling, a série As Panteras é considerada até hoje um marco dos exagerados anos setenta, tendo contado por cinco temporadas a história de três agentes femininas que trabalhavam para uma empresa privada sob o comando do misterioso Charlie Townsend (daí o nome original Charlie's Angels, ou Os Anjos de Charlie). O sucesso da mistura de ação e humor tornou atrizes como Farrah Fawcett verdadeiros sex symbols de sua época e rendeu um reboot cinematográfico com As Panteras (2000) e As Panteras Detonando (2003), com Cameron Diaz (Quero Ser John Malkovich), Lucy Liu (Kill Bill - Volume 1) e Drew Barrymore (Santa Clarita Diet), ambos dirigidos por McG (A Babá).

O que nos traz a esse As Panteras de 2019, nova reedição da franquia dessa vez produzido, roteirizado, dirigido e com um papel menor de Elizabeth Banks, que despontou na década de 2000 em filmes como Homem-Aranha 2 e O Virgem de 40 Anos. O segundo filme de Banks na direção após estrear com A Escolha Perfeita 2 é, como logo veremos, uma continuação, já que, com a aposentadoria de John Bosley, o clássico assistente das Panteras aqui interpretado por Patrick Stewart (X-Men - O Filme, anteriormente vivido por Bill Murray, de Os Caça-Fantasmas),  uma sequência de fotos dá a entender que as personagens das outras encarnações existem nesse universo, sendo agentes aposentadas da corporação Townsend.

Outra "edição" na mitologia da série é que "Bosley" deixa de ser um nome: está mais para um título, também compartilhado pelos personagens de Djimon Hounsou (Shazam!) e da própria Banks, promovida após anos atuando como uma das "Angels". Ela passa a chefiar as agentes Sabine (Kristen Stewart, de Acima das Nuvens), uma ex-menina rica e delinquente juvenil tornada especialista em infiltração, e Jane Kano (Ella Balinska, da série The Athena), ex-agente do MI6, que deixou a agência de inteligência pública inglesa e empregou suas habilidades marciais e militares para a Agência Townsend após uma tragédia particular. Juntas, elas passam a proteger Elena Houghlin (Naomi Scott, de Power Rangers e Aladdin), uma delatora corporativa que teme que a tecnologia de energia integrada que desenvolveu tenha uma falha explorada para emitir pulsos eletromagnéticos capazes de matar sem rastro. 

Se há uma boa notícia, é que Banks conseguiu manter o clima de aventura pulp que marcou a série; ou seja, o clima de "aventura de banca de revista", na qual sabemos que espiãs (muito provavelmente) não são viciadas em adrenalina enfiadas constantemente em aventuras perigosas enquanto disparam gracejos após nocautear ou matar inimigos, mas acabamos aceitando a lógica nem um pouco realista em nome da diversão. E isso o filme consegue até segurar por parte da sua projeção enquanto nos apresenta o mundo de espionagem corporativa pelos olhos inocentes de Elena, que, assim como o espectador, vai progressivamente trocando a lógica pelo senso de diversão.

Risadas ocasionais são uma constante de As Panteras, já que o filme sobrevive por conta da química entre Kirsten Stewart, Ella Balinska e Naomi Scott. Stewart, distanciada dos blockbusters, sai da personagem típica que insistiam em lhe imputar nesses filmes (o que pode explicar seus anos trabalhando com diretores mais conceituados no circuito de arte, como Woody Allen, Ang Lee e Olivier Assayas) interpretando uma espiã falastrona e irritante cujo timing chega a lembrar Ryan Reynolds em filmes como Deadpool e Dupla Explosiva. Já Balinska interpreta a típica agente "durona" e até é funcional nesse tipo de papel, também sabendo sair disso como em uma cena dramática na qual demonstra preocupação por Stewart, em uma boa sacada do roteiro em admitir sentimentos das personagens em vez de tratá-las 100% do tempo apenas como "espiãs descoladas". 

Sabendo que Banks acumulou tantas funções no mesmo filme, é de se imaginar que seja um projeto um tanto pessoal e isso transparece na tela. Ela trata sua "Bosley" como uma figura ambígua, dando um destaque e tanto explorando a profundidade de sua coadjuvante, e trata para que as dinâmicas de personagem sejam bastante desenvolvidas pelo roteiro, do passado culpado de Jane aos dilemas que Elena enfrenta ao adentrar aquele mundo frenético. A personagem de Sabine talvez seja a que mais fique na caricatura de personagem "pentelha" e não tenha nenhuma grande questão pessoal a ser resolvida, sendo possível dizer que o papel foi elevado pela intérprete e que outras atrizes de menor versatilidade dramática sairiam um tanto apagada do empreendimento. 

Sendo um filme que se pretende ser antenado com os novos tempos, Banks se preocupou em todos os setores em transformar a aventur também em não apenas um filme de fetichização da forma feminina, então explorando o que é ser mulher em um mundo de homens, como dá para ver de maneira até didática na conversa que Elena tem com seu superior (Nat Faxon, de Sex Tape), que a interrompe, toma crédito por suas ideias e até toca sua mão, de maneira sutil porém intrusiva.

Algumas reclamações podem dar conta do filme tratar homens como bobalhões idiotas, seja por conta de alguns monólogos um tanto didáticos, seja por algumas performances, como Sam Claflin (Como Eu Era Antes de Você) como um chefe afetado, Chris Pang (Podres de Ricos) como um negociador apaixonado e Noah Centineo (O Date Perfeito) como um nerd atrapalhado, mas os "Bosleys" de Djimon Honsou e Patrick Stewart e o assassino silencioso de Jonathan Tucker (Deuses Americanos) são suficientes para desmanchar essa impressão; personagens do gênero masculino apenas não são o foco daqui, e isso é tudo. Aliás, há até momentos a serem vistos problemáticos nesse quesito, como quando Naomie Harris é feita prisioneira e obrigada a trocar as roupas para um vestido vermelho decotado e tem uma coleira presa no pescoço. Um símbolo didático de "romper com a opressão masculina", sim, mas uma concessão um tanto sugestiva à iconografia dos filmes de sex symbol. Ou seja, meio que o mesmo dilema que Star Wars enfrentou no Episódio VI: O Retorno de Jedi.

Mas As Panteras não é apenas um filme de dinâmica de personagens, mas também um filme de ação, e aqui estão alguns de seus pontos mais fracos. Apesar da diretora ter algumas boas ideias visuais (a forma como filma a reação de Scott após a primeira aventura é muito bem resolvida visualmente), para filmar os momentos mais físicos, o trabalho parece mais relegado à cinematografia de Bill Pope (Matrix, Scott Pilgrim Contra o Mundo, Alita: Anjo de Combate), onde a resolução cênica é burocrática, ancorada em câmeras tremidas e fechadas (para economizar nas coreografias, talvez?). Ainda assim, Pope consegue providenciar vários planos que mostram seu talento em filmes de gênero, e especialmente a composição de cores e perspectivas da cena da boate chega a lembrar levemente o trabalho visual da saga John Wick, que já virou uma referência nos dias de hoje.

Não ajuda também que o roteiro de Banks introduza a figura antagonista através de não apenas um, mas dois plot twists que parecem quase uma concessão ao festival do recurso que o cinema blockbuster carece hoje em dia. Tal tática é arriscada por um motivo muito simples: a figura do vilão fica muitas vezes apenas vazia, apenas como um obstáculo sem muita profundidade em si. Alguns podem argumentar que não dá para esperar Shakespeare de um blockbuster feito As Panteras, mas, bem, se as protagonistas receberam tal tratamento, porque não a figura que as opõe? E, sim, o gênero de espionagem é lotado de agentes duplos, mas tem hora que tal recurso deixa de ser criativo apenas para virar muleta tentando surpreender um espectador indefinidamente, a qualquer custo, mesmo que de maneira preguiçosa. 

Apesar de inegáveis méritos, As Panteras fica bem no "elas por elas", não conseguindo se elevar muito além da mediocridade do gênero mesmo a música gravada especialmente para o filme, "Don't Call Me An Angel", com as estrelas pop Miley Cyrus, Ariana Grande e Lana Del Rey, não é nada além de um amontoado de chavões populares genéricos. As cenas entre os créditos finais praticamente imploram por uma sequência, e até há potencial para tal há tanto filme pior que amontoa sequências que o inofensivo e bobinho As Panteras até que tem dignidade para tal. É esperar (os números) para ver.

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