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Pacto de Sangue

(Double Indemnity, 1944)
8,7
Média
375 votos
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Sua nota

Críticas

Cineplayers

Um noir definitivo.

9,0

Quando o assunto é filme noir, poucos exemplares são tão definitivos quando Pacto de Sangue (Double Indemnity, 1944), de Billy Wilder. Mestre em se aprofundar em quase todos os gêneros sem nenhuma aparente dificuldade, Wilder já se eternizou no cinema através de comédias, romances, dramas, suspenses, além outros subgêneros também importantes. E em cada uma dessas investidas o diretor conseguiu pelo menos uma obra-prima para cada gênero. Por exemplo, é de sua autoria a comédia que é considerada hoje pelo AFI como a maior do cinema americano, Quanto Mais Quente Melhor (Some Like It Hot, 1959). É dele também o filme-ícone cultuado por uma legião de cinéfilos e tido como a maior e mais amarga metalingüística crítica a respeito do descaso de Hollywood com seus astros, Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950). Sabrina (idem, 1954) foi sua chance de provar talento no romance; Testemunha de Acusação (Witness for the Prosecution, 1957) é uma investida bem sucedida no drama; Se Meu Apartamento Falasse (The Apartment, 1960) é uma mistura fantástica de quase todos os grandes gêneros com que ele trabalhou, e lhe rendeu dois Oscar. Ou seja, não restam dúvidas a respeito de sua flexibilidade e talento atrás das câmeras.

Mas antes de todos esses exemplos supracitados serem colocados em prática, Wilder já tinha em seu currículo um trabalho que é considerado por muitos hoje como o grande filme noir do cinema americano, Pacto de Sangue. Para quem não sabe, ou não entende muito bem o conceito, o “film noir” é tido por muitos críticos de hoje como a única manifestação puramente artística da história de Hollywood. Baseado geralmente nos fundamentos dos romances policiais literários, sua composição dentro do terreno do cinema é bastante particular: um enredo que gira em torno de um crime, um protagonista amargo/desiludido/amoral/sarcástico, um uso do preto e branco rico em projeções assimétricas das sombras (embora haja muitos exemplares em cores também), um cenário urbano-noturno que carrega consigo uma atmosfera taciturna e cruel, um roteiro intrincado e repleto de surpresas, narração em primeira pessoa, e uma mulher misteriosa e sexy (a famosa loura gelada, ou femme fatale) que acaba sempre se mostrando o elemento-chave para a solução do caso. Como se sabe, nem sempre todos esses elementos estão presentes obrigatoriamente em cada filme do gênero, mas no conceito geral é isso que envolve a composição de um noir tradicional.

Levando em conta essas características bem peculiares, podemos entender então porque Pacto de Sangue é considerado tão definitivo para o gênero. Wilder não abriu mão de nenhum desses recursos em seu filme e, por incrível que pareça, o resultado é puramente original. Originalidade é algo nem sempre tão fácil de inserir em um filme noir, já que se trata de um gênero tão repleto de regras e elementos característicos, como já mencionados. No entanto, em 1944  e longe da consciência de um estilo/movimento que futuramente viria a ser chamado de noir, Wilder não só mostrou domínio completo como também lançou bases e o tornou comercialmente viável por conta dos prêmios e aclamação crítica que recebeu. É verdade que, na tradição, Relíquia Macabra (The Maltese Falcon, 1941), de John Huston, seja considerado o primeiro noir, mas esse combo de personagens amorais, finais trágicos e estética sombria e rebuscada só deixou de incomodar a conservadora crítica americana após Pacto de Sangue fazer tamanho sucesso. Sete indicações ao Oscar e muito dinheiro arrecadado nas bilheterias foi o suficiente para o noir se popularizar e entrar na moda e os críticos "esquecerem" seus receios moralistas para com o estilo, de modo que a obra-prima de Wilder virou uma referência que foi muito copiada nos próximos vinte e poucos anos. Tanto que sua sinopse parece uma das mais comuns e recorrentes na memória coletiva do cinema americano. 

Walter Neff (Fred MacMurray) é um agente de seguros que passa a ter um caso com Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck), a esposa de um de seus maiores clientes. Aos poucos, Phyllis consegue convencer Walter a assassinar seu marido, depois que este assina um seguro de vida em nome dela. Mas não se trata de um simples crime premeditado. Para que eles consigam a dupla indenização, uma cláusula do contrato que permite o dobro do valor estipulado em casos de acidentes, o marido de Phyllis precisa morrer em um aparente acidente de trem. Obviamente, nem tudo sairá como o planejado.

Temos nessa premissa tudo o que há de essencial para um noir dar certo, a começar pela presença de Barbara Stanwyck, aquela que representa o sexo e a morte numa mesma faceta. Walter e sua amoralidade impessoal, seu amor ardente pela esposa de um homem de confiança, completa essa dupla de protagonistas passionais. No entanto, em momento algum eles caem no desgosto do público. Por incrível que pareça, Wilder nos faz torcer por ambos o tempo todo, em especial quando o plano começa a dar errado e um começa a se virar contra o outro. O interessante nisso tudo é a forma como o noir inverte alguns padrões da velha Hollywood, como os mocinhos íntegros por quem sempre somos levados a querer o bem. Aqui ninguém merece nossa simpatia, mas a atmosfera criada pela fotografia soturna exerce uma influência direta sobre o roteiro, de forma que o errado e os errantes passam a ser muito mais interessantes do que a possibilidade de um final feliz – algo que somente um noir pode proporcionar.

Se fosse então para escolher uma cena em que a essência de Pacto de Sangue seja transmitida em sua plenitude, nenhuma melhor do que aquela em que vemos Phyllis se esconder atrás de uma porta quando o chefe de Walter, Sr. Keys (Edward G. Robinson), aparece subitamente em seu apartamento dizendo estar desconfiado de algum trambique no contrato com o Sr. Dietrichson (Tom Powers). A tensão de quase terem sido descobertos somada ao desespero de perceber a desconfiança de Keys, auxiliada por um ângulo de câmera que prioriza a sombra negra da porta cobrindo parcialmente Phyllis em uma fresta de escuridão em meio à claridade – tudo nesse momento pode ser considerado o que há de mais elementar em um noir, desde os aspectos técnicos, como a câmera quase rasteira potencializando o efeito da sombra (onde se nota a influência do expressionismo alemão sobre a carreira de Billy Wilder), até no que diz respeito ao texto. Um ápice de genialidade técnica e textual combinadas em um único momento.

Reza a lenda que a parceria entre Billy Wilder e Raymond Chandler no roteiro de Pacto de Sangue tenha sido caótica, a ponto de torná-los eternos inimigos. Charles Brackett, o parceiro constante de Wilder nos roteiros, rejeitou o projeto desta vez por achar o roteiro muito fraco, levando Raymond a ocupar sua posição. É difícil separar o que de fato aconteceu, com os boatos típicos dessa fase de ouro em Hollywood, mas o que realmente importa é que a parceria deu certo em seu resultado final. Raymond Chandler é um dos escritores mais lidos e conceituados do mundo e foi responsável em modernizar os romances policiais e influenciar enormemente a popularização e até conceituação do noir dentro do cinema. Por isso talvez sua participação em Pacto de Sangue seja tão essencial quanto à do próprio Billy Wilder.

Visto hoje, Pacto de Sangue talvez pareça menor em relação a outros grandes exemplares do gênero, como Almas Perversas (Scarlet Street, 1945), de Fritz Lang, mas toda sua composição é uma verdadeira aula tanto de filme noir como de cinema em geral. Não é de se admirar, já que, como foi mencionado no primeiro parágrafo, Billy Wilder sempre foi competente no comando de todos os gêneros. Infelizmente, o noir foi rareando no cinema americano como passar dos anos, em especial depois do surgimento do cinema contemporâneo. Hoje os exemplares do gênero são nomeados de “neo noir”, tendo como grande referência o clássico de Roman Polanski, Chinatown (idem, 1974). Mas para aqueles que realmente amam um bom noir tradicional, ou esperam aprender um pouco mais sobre as regras dele, nenhum exemplar é tão amplo e completo como Pacto de Sangue, um filme indispensável para quem se diz fã de uma boa história policial, mas que também não dispense o cinema como uma manifestação artística.

Comentários (6)

Marcelo Leme | quarta-feira, 26 de Outubro de 2011 - 22:37

Brilhante! Falou bonito de uma das maravilhas do cinema.

João Alexandre Worms Costa | quinta-feira, 27 de Outubro de 2011 - 17:07

Ótima crítica. Gostaria de dizer que sou um grande fã de Billy Wilder e um dos fãs mais fanáticos de Raymond Chandler. Considero ele não só como o maior escritor de romances policiais de todos os tempos, como também o considero como um dos maiores escritores no geral chegando ao calibre de F. Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway. Se ele tivesse escrito mais roteiros de filmes, tenho plena certeza de que seriam obras-primas tão boas quanto ou até melhores do que Double Indemnity.
"Alcohol is like love. The first kiss is magic, the second is intimate, the third is routine. After that you take the girl's clothes off." Raymond Chandler.

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