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Onde Começa o Inferno

(Rio Bravo, 1959)
8,4
Média
335 votos
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Críticas

Cineplayers

A história arquetípica de cerco

10,0

Howard Hawks é um dos nome mais influentes e relevantes de Hollywood a gravar no inconsciente coletivo das décadas posteriores o que era o cinema clássico, combinação da gramática cinematográfica de D.W. Griffith baseada elementos de fotografia e iluminação descritivos e expressivos, dramaturgia teatral e estrutura de um romance literário, com a montagem dialética de Sergei Eisenstein que conceituou um cinema mais fragmentário e interpretativo e portanto criando o cinema como arte, mercado e, principalmente, ideologia.

Como a gigantesca máquina de propaganda que poderia ser, o cinema, por toda a extensão da sua existência se distanciou do naturalismo para, ao invés disso, construir um discurso, uma máquina de construir e firmar, mas também de desconstruir e atacar valores e ideias. Onde Começa o Inferno é síntese de tudo isso. 

Ainda um representante maior do modelo clássico e uma prova que o modelo clássico, mesmo após as primeiras implosões de modernidade; a história de um xerife que tem de proteger sua cidade de cruéis e incansáveis vilões que querem um de seus integrantes, preso na pequena cadeia do local, de volta, e que só tem à sua disposição um cowboy alcoolatra, um moleque jovem e impulsivo e um velho piadista e manco como guarda representam um dilema que vai muito além da luta do bem contra o mal: no final das contas, é a história o de um indivíduo, limitado a certo espaço geográfico, tendo que superar um desafio ou um antagonista aparentemente. Uma resposta à visão crítica dos EUA covarde, sombrio e desesperado de Matar ou Morrer, mas uma resposta dentro do mesmo campo.

Este filme quase de outra época seria tremendamente influente nos anos que viriam a seguir: não apenas por Hawks dirigir El Dorado e Rio Lobo na década seguinte, mas também por prover material-base o suficiente para cineastas como George A. Romero fazer seus filmes de zumbis ou John Carpenter fazer seus contos de paranoia em obras como Assalto à 13ª DP e Fantasmas de Marte. Toda uma geração presta suas honras ao cinema de Hawks e da sua oposição entre indivíduos frágeis encontrando força na união contra forças aparentemente impossíveis de superar.

Hawks soube como trabalhar como ninguém o medo de se sentir em minoria e a necessidade do trabalho em equipe, um dos mitos formadores principais do idealizado patriotismo americano. A ameaçadora contraposição formada por falhas humanas, vícios, ameaças e tentativas de assassinato mostram a razão de estarmos falando de uma obra que ainda que não a primeira de sua modulação e estruturação, se tornaria arquetípica. Ambientes fechados e estranhos, indivíduos falhos, ameaçados e desesperados, a espera pela violência podendo ser tensa, cômica ou até mesmo intimista, como é possível de ver na cena onde Dean Martin e Ricky Nelson entoam My Rifle, My Pony and Me; tudo está nesse faroeste de interiores, usando e abuso da falsidade plástica hollywoodiana de atores-tipo andando por cenários feitos de compensado em estúdios onde o Diretor era deus absoluto da ficção parida por aquele artifício.

Onde Começa o Inferno é um western clássico porém “estranho”, que não valoriza muito os grandes plano-gerais e as tomadas externas e tampouco os planos-detalhe. Sua paixão é centrar a câmera quase que exclusivamente na ação e em seu efeito dramático. Se Rastros de Ódio de John Ford é a história cinematográfica definitiva sobre a aventura e a exploração, onde conhecemos grande parte do Oeste americano pelo antiquado caubói não se ver mais como integrante do mundo, esse filme de três anos depois opera no viés contrário, como conto de resistência, explorando as variações sobre o mesmo tema em intensidade cada vez maior. 

Essas variações sobre o mesma tema encontram eco no conhecido axioma de Hawks que versa que seus melhores filmes são construídos por “três boas cenas e nenhuma ruim”, e constroem um filme todo sobre arquitetar encenação e montagem que basicamente desenham mais ou menos sempre a mesma cena: os personagens encurralados buscando alguma saída, o que dá origem tanto à redenção do bêbado Dude e também deságua na ampla cena final, com seu clímax de desafogo catártico, abrindo progressivamente até confirmar a certeza de liberdade dos personagens da opressão que os cercam.

Modelo praticamente ideal do que foi entendido como o modo de fazer cinema mais consagrado do século vinte, Onde Começa o Inferno é o tipo de filme-síntese que justifica o cinema enquanto arte, enquanto modo de pensar a estética da ideologia (e a ideologia da estética) e concentrando em si o status de momento-chave não de pioneirismo, mas de auge.

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